Crise no casamento
As mulheres japonesas não querem casar-se e ter filhos e isso virou um problema público. A população do Japão começou a encolher e, em 32 anos, o país perderá 38% da população. Tudo mais constante, em 100 anos acaba o Japão por falta de japoneses. Diante disso, o governo começa agora em primeiro de abril uma campanha pelo casamento e pela concepção. Abrirá 310 agências de encontros para namoro.
É, a coisa está ficando séria! As mulheres estão há anos querendo discutir essa relação. Agora, pelo menos no Japão, estão simplesmente dizendo “não”. E aí como é que fica? A demógrafa Ana Amélia Camarano, do Ipea, foi ao Japão estudar políticas de apoio à população idosa, mas, chegando lá, deparou-se com essa novidade. A universidade em que ela estudou ajudava a preparar o plano pró-casamento e pró-filhos que o governo japonês está lançando neste início do novo ano fiscal.
— Em 1970, apenas 2% das mulheres chegavam aos 50 anos sem terem se casado; em 2000, foram 19%. Elas estão recusando o papel tradicional da mulher: casar, cuidar dos filhos e, pela tradição japonesa, dos sogros. Estão optando pela carreira — conta Ana Amélia.
Nesta semana, do Dia da Mulher, chamei duas pesquisadoras de gerações diferentes para o programa que faço na Globonews. Ana Amélia contou as notícias do debate de gênero no Japão e em outros países. Não se trata mais de feministas querendo direitos iguais. Hoje, os governos começam a adotar políticas que reduzam o ônus da reprodução, posto todo nos ombros da mulher. São as políticas pró-natalistas que contemplam gênero.
A jovem socióloga Moema Guedes falou de um estudo que fez mostrando que as mulheres que mais estudam são as que têm uma diferença maior em relação ao salário do homem. Há várias facetas no debate sobre mulher muito além do que imaginam os que dão de ombro achando que tudo isso é papo que nós, feministas, levantamos uma vez por ano, na segunda semana de março, e que — para alegria dos homens — é esquecido na semana seguinte.
Quando Ana Amélia, antes de começar a gravação, disse que é preciso retirar do ombro da mulher o ônus da reprodução, eu ponderei:
— Mas Ana Amélia, isso é intransferível: não dá para mandar os homens engravidarem.
— E depois do filho nascido? É preciso reduzir o peso sobre a mulher no cuidado dos filhos pequenos.
Ela contou que, nos países nórdicos, onde a população está encolhendo, a política adotada é assim:
— Pensão de um mês para ambos os pais e depois pensão de um ano para quem cuidar da criança; seja avó, avô, pai, quem for.
Na Itália, para enfrentar a redução da população, o governo pensou em dar um salário para a mulher que quisesse ter filhos. As feministas criticaram, porque acharam que isso reforça o papel tradicional. Segundo Ana Amélia, os países que têm feito políticas de incentivo à natalidade sem enfoque de gênero estão fracassando.
No Japão, as empresas distribuirão material pró-natalidade, com bebezinhos rechonchudos, para ver se detona o tal relógio biológico, ao qual tantas japonesas estão insensíveis.
— Elas estão optando pelo trabalho e, se quiserem competir com a carreira, os homens têm que se tornar mais interessantes — diz Ana Amélia.
No Brasil, toda essa discussão parece remota. Aqui, temos que conter o drama das meninas que se tornam mães prematuramente. A discussão que mobiliza mais é encontrar algum equilíbrio no mercado de trabalho.
Moema estudou o que aconteceu com as que foram para o mercado de trabalho de 1970 a 2000 e com curso universitário.
— Em 70, as mulheres ainda estavam marcadas pelas carreiras de baixo prestígio social. Eram apenas 18% da população economicamente ativa. Hoje já há carreiras historicamente masculinas em que elas são maioria, como economia e direito. Nos anos 90, as mulheres abriram o leque de carreiras.
Na geração que tem hoje 60 anos, havia duas mulheres com curso universitário para cada três homens, para as que, no censo, estavam entre 20 e 29 anos, há três mulheres com ensino superior para dois homens na mesma situação. Houve uma inversão.
Os dados que Moema trouxe no seu estudo mostram que na faixa de pouca ou nenhuma escolaridade (0 a 3 anos de estudo) a mulher ganha 82% do que ganha o homem. Na faixa de 15 a 17 anos de estudo, a mulher ganha apenas 59% do que ganha o homem.
— Na faixa de pouca escolaridade, acho que é porque todo mundo ganha tão mal que há um nivelamento. Na faixa de mais escolaridade, tem a ver com os cargos executivos ocupados principalmente por homens.
Estudar mais dá maior inserção, segundo Moema.
— Há uma correlação entre mercado de trabalho e educação. Só trabalham 18% das que não concluíram curso universitário. E são 84% no grupo das que concluíram o curso universitário. Mulheres que estudam mais trabalham mais.
O Japão, além de lançar as agências de dating para incentivar os namoros, vão determinar que os pubs fechem mais cedo para que os homens, ao sair do trabalho, voltem para casa.
No Brasil, a julgar por algumas reportagens, a mulher é que estaria querendo voltar para casa, no sentido amplo: abandonando as carreiras. Perguntei a elas se está havendo algum retrocesso na nova geração brasileira. Ana Amélia acha que existem, sim, casos de retrocesso, mas isolados. Já Moema pensa diferente:
— Vou aqui puxar a brasa para a sardinha da minha geração. Nós não somos tão politizadas quanto vocês eram nos anos 70, mas, do ponto de vista prático, estamos brigando pelos postos de comando.
Devem ser as tais “desaforadas”.
Entrevista:O Estado inteligente
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