Formado em Direito, esbanjou talento como advogado e professor universitário. A imagem de grande jurista estava consolidada, e ultrapassara as fronteiras do Rio Grande, quando Jobim se elegeu deputado. O currículo brilhante dispensou o recém-chegado do período de obscuridade imposto aos novatos. Em poucas semanas, raros parlamentares ignoravam quem era aquele homem corpulento e cordial, trajando ternos bem cortados que imploravam por alguns quilos a menos, e emitindo com voz suave e segura opiniões sensatas. Findo o mandato, Jobim cintilava no alto clero.
Desempenhara com brilho as missões que lhe foram confiadas durante a montagem da Constituição. No PMDB, subira aos pulos os degraus que levavam à liderança da bancada. Reeleito em 1991, enriqueceria a trajetória com gestos de independência. Relator da CPI que investigou denúncias de corrupção no governo Collor, por exemplo, criticou com dureza falhas do processo antes de votar a favor do impeachment.
Deixou o Congresso em 1995 para assumir o Ministério da Justiça do governo Fernando Henrique, que achava especialmente agradáveis os despachos com Jobim. "Além de muito inteligente, ele nunca perde o humor", dizia FH. Em 1997, foi indicado para o Supremo Tribunal Federal, que hoje preside. Equilibrado, conciliador, exibe aos 59 anos o perfil ideal para o cargo. Esse é o Nelson Jobim que conheci há 13 anos.
Não o reconheço no Nelson Jobim que circula por aí desde fevereiro, disposto a manchar uma bonita biografia para conseguir aumentar o salário dos ministros do STF. Atualmente, ganham R$ 17.300. Jobim reivindica R$ 21.500 retroativos a janeiro. E defende o pagamento da mesma bolada mensal aos integrantes do Legislativo. Transformou-se, assim, no principal aliado do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti.
Como a maioria dos deputados preferiu evitar a ira dos brasileiros, e negou apoio a Severino, Jobim descobriu uma esperta brecha na lei. O aumento indecoroso poderia ser autorizado, sem consulta aos parlamentares, por um papel assinado em conjunto por Severino e por Renan Calheiros, presidente do Senado. E então a manobra naufragou: depois de ter captado as dimensões da indignação nacional, Renan se recusou a participar da manobra. Demorou, mas os brasileiros vão descobrindo uma verdade tão antiga como a democracia: o povo é o patrão dos Três Poderes, não o contrário. O povo-patrão não pretende conceder aumentos abusivos.
A aparição da face gulosamente corporativista de Jobim surpreende e decepciona amigos e admiradores do atual presidente do STF. Mas não deixa de oferecer lições bastante úteis. A aliança entre o antigo cardeal e o rei do baixo clero mostrou que a diferença entre os grupos está na pose, no figurino, no repertórios verbal: quando se trata de defender o próprio bolso, todos são severinos. Paradoxalmente, a manobra clerical tropeçou em Renan Calheiros, que só crê nos deuses que distribuem verbas e cargos.
A tentativa malogrou, felizmente. Mas que pena, ministro Nelson Jobim. Que pena.
A mordaça pode ser a solução
Ministro das Relações Exteriores em agosto de 1961, Afonso Arinos reagiu com irônica objetividade à notícia de que Jânio Quadros renunciara à Presidência. "Era só ter trancado o homem no banheiro por algumas horas", ponderou Arinos. A interdição temporária talvez tivesse evitado que o impulsivo quarentão consumasse a maluquice que mudou a História do Brasil.
Os amigos de Lula precisam providenciar uma mordaça destinada a livrá-lo dos perigos que moram no improviso. Falante compulsivo, ele vem mantendo a média mensal de 25 discursos, a maioria dos quais improvisados pelo maratonista dos microfones.
É nessa modalidade de palavrório que Lula, além de espancar o idioma com particular crueldade, deu de cometer um pecado mortal para governantes: falar primeiro (e falar o que lhe dá na telha) e pensar depois. É uma caminhada sobre a navalha, esporte de alto risco que lhe tem custado escoriações generalizadas. Mas parece inviável impedir o presidente de soltar o verbo.
Aí é que entraria o truque da mordaça. Ficaria estabelecido entre um restrito grupo de companheiros que os improvisos não podem passar de dois por semana. Quando Lula tentar partir para o terceiro, um amigo sacará da mordaça para silenciar o homem. Será um gesto caridoso.
Isso pouparia o chefe de tantos escorregões, o primeiro dos quais ocorreu já no dia da vitória, em meio ao improviso para a multidão que festejava na Avenida Paulista.
"Prometo não dormir enquanto existir um só brasileiro que não tenha três refeições por dia", informou. Se estiver cumprindo a promessa, não dorme há dois anos.
Nesse período, a turma da área social tem colecionado fiascos. O Fome Zero acabou diluído em planos igualmente destroçados pela inépcia. A fome corre solta por aí. Crianças indígenas morrem aos bandos, vítimas de desnutrição. Mas ninguém tem captado no rosto de Lula sinais de que está sem dormir há mais de dois anos.
O drama das crianças indígenas não foi mencionado no programa radiofônico em que discorreu longamente sobre a Amazônia, posta sob os holofotes da imprensa mundial com o assassinato da missionária Dorothy Stang no sul do Pará. Lula divulgou "um pacote ambiental" e partiu para a gabolice.
"Atingimos a maioridade no controle da nossa Amazônia e das nossas florestas", delirou o presidente. A fantasia seria fulminada pelo prosseguimento de tiroteios e execuções nas muitas áreas conflagradas. Em vez de recolher-se a reflexões, Lula continuou falando, agora sobre outros temas. Acabou percorrendo caminhos desenhados sobre areias movediças.
Confessou ter acobertado casos de corrupção supostamente ocorridos durante o governo Fernando Henrique, e denunciados ao presidente por "um alto companheiro". Motivo: "Eu precisava preservar a imagem do país". A coisa requer urgência. Mordaça nele, companheiros.
Calote vai punir os operários
É calote mesmo: não há outro substantivo para definir-se o tipo de "renegociação" proposto por José Serra às empresas com dinheiro a receber por serviços prestados à Prefeitura de São Paulo. A antecessora Marta Suplicy já lhes aplicara o calote explícito: devo, mas não tenho dinheiro para pagar, explicou. Serra montou uma contrafação da fórmula argentina.O prefeito se dispõe a quitar dívidas que não ultrapassem uma quantia irrisória. Débitos superiores a tal limite serão parcelados em prestações que se perdem no horizonte. Ou isso ou nada, informou Serra. Ele aparentemente ignora que as empresas não negociaram com pessoas físicas, mas com a prefeitura paulistana. Ressalvada a leviandade da ex-prefeita, não é Marta a devedora: é o governo municipal. Se Serra insistir no calote, as empresas encontrarão algum caminho que as livre do naufrágio. Morrerão afogados milhares de operários que ainda não receberam pelo trabalho feito. Eles vão pagar também essa conta.

Empenhado em descobrir as prioridades da política externa, o Cabôco Perguntadô quer saber: como anda o caso do brasileiro João José de Vasconcellos Jr., engenheiro de 50 anos seqüestrado por terroristas numa estrada do Iraque? Quem foi escalado para tentar resgatar a vítima? O Itamaraty cuida do Haiti, da unidade árabe, da aproximação com chineses arredios. Cuida até de Cuba: em nome do país, José Dirceu pediu aos americanos que abrandem o bloqueio econômico imposto à ilha. O Cabôco insiste: e de João, alguém cuida?
Socorros tardios
No meio da semana, mais de 2 mil soldados do Exército, agentes da Polícia Federal, tropas da PM e policiais civis se juntaram numa vistosa operação destinada a botar ordem no sul do Pará. Ainda atordoado com o assassinato da missionária americana Dorothy Stang, o governo resolveu mostrar quem manda no Brasil. Começou pelo cerco aos madeireiros. No fim da guerra, 50 alvos deverão estar na cadeia. Até aí, palmas para os homens da lei e os guerreiros da selva.
Desconcertante foi saber que a operação vem sendo preparada faz dois anos. É um longo período. Enquanto o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência mapeava minuciosamente a área conflagrada, madeireiros seguiram desmatando, grileiros anexaram mais terras ao patrimônio conquistado ilegalmente. E Dorothy Stang escrevia cartas a autoridades, pedindo esse tipo de socorro. Só foi ouvida depois de executada a tiros.

Invenção premiada
Concebido para premiar frases sem sentido ou declarações que simulam erudição para esconder o que o autor teme dizer com clareza, o troféu Yolhesman Crisbelles vai para o secretário do Tesouro, Joaquim Levy:"Depois de dois anos, o governo assumiu alguns compromissos para 2005. Então, neste ano, a dinâmica será mais extensa".
A expressão "dinâmica extensa" foi inventada por Levy para não dar com todas as letras outra péssima notícia: as despesas do governo federal vão crescer, e muito.
Epidemia de burrice chega à TV paga
A epidemia de emburrecimento que grassa no Brasil acaba de ganhar uma imaginosa contribuição do canal Telecine Premium. Toda terça-feira, às 23h, a sessão batizada de Cyber Movie exibirá filmes com legendas que trocam o português corrente pelo dialeto adotado por incontáveis internautas. O alvo: jovens na faixa dos 14 aos 25 anos. Chegou a vez da jequice informatizada.
Legendas tradicionais serão substituídas por siglas, símbolos, abreviações e reducionismos malucos que dispensam o aprendizado do português. Alguns exemplos: "vc" no lugar de "você", "kd" em vez de "cadê". Saem "muito" e "cara", entram "mto" e kra". Para socorrer principiantes, e simultaneamente coletar sugestões que ampliem o vocabulário, o Telecine implantou um "dicionário cyber" em seu site www.telecine.com.br.
Os filmes prometem atender aos interesses do público-alvo. Só coisa fina, presume-se. Parabéns, Telecine. Boa sorte, Brasil.
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