Entrevista:O Estado inteligente
no mínimo Augusto Nunes A hora da mordaça
27.02.2005 | Ministro das Relações Exteriores em agosto de 1961, Afonso Arinos reagiu com irônica objetividade à notícia de que Jânio Quadros havia renunciado à presidência da República. “Era só ter trancado o homem no banheiro por algumas horas”, ponderou Arinos. A interdição temporária talvez tivesse evitado que o impulsivo quarentão consumasse a maluquice que mudou a história do Brasil.
Os amigos de Lula precisam providenciar com urgência uma mordaça destinada a livrá-lo do permanente convívio com o perigo. Esse perigo mora nos sucessivos improvisos disparados por um falante compulsivo: ele vem mantendo a média mensal de 25 discursos, a maioria dos quais improvisados. É nesses que o maratonista dos microfones, abstraídas performances marcadas pelo talento do velho palanqueiro, costuma espancar o idioma com particular desembaraço e dar-se à prática de um esporte de alto risco: caminhada sobre navalha.
Impedir o presidente de discursar de improviso é inviável, e seria excessivamente cruel obrigá-lo a apenas ler textos preparados por assessores cautelosos. Aí é que entra a mordaça, de uso restrito a dois ou três amigos de fé. Os improvisos devem ser limitados a dois por semana. Se Lula der sinais de que vai partir para o terceiro, o amigo tratará de silenciá-lo. É gesto caridoso, coisa de bom companheiro. Porque reduziria o volume de bravatas, tolices, frases insensatas, argumentos ilógicos, rompantes de candidato, gabolices, fantasias e outras bobagens de variado calibre.
O primeiro escorregão ocorreu já na largada, no discurso de improviso para a multidão que festejava na Avenida Paulista a vitória do candidato do PT. “Prometo não dormir enquanto existir um só brasileiro que não tenha três refeições por dia”, informou.
Nestes dois anos, os responsáveis pela área social têm colecionado fiascos. O Fome Zero foi reduzido a piada de mau gosto. Entre janeiro e fevereiro, quatro crianças indígenas morreram numa aldeia em Dourados, Mato Grosso. Todas sucumbiram à desnutrição, causada pela ação do cutelo do Ministério da Fazenda sobre verbas reservadas a programas assistenciais e pela inépcia de entidades incumbidas de garantir a sobrevivência dos índios.
A fome corre solta por aí, mas ninguém tem visto no rosto de Lula vincos e olheiras que dois anos de insônia tornariam inevitáveis. O drama das crianças indígenas assassinadas pela inanição não foi sequer mencionado no programa radiofônico semanal em que discorreu longamente (de improviso) sobre questões amazônicas.
Depois de proclamar-se indignado com a execução a tiros da missionária Dorothy Stang, uma ingênua heroína dedicada a projetos sociais num grotão do sul do Pará conhecido como “Terra do Meio”, Lula esbanjou felicidade. Os autores do crime haviam sido identificados e quase todos recolhidos à cadeia. Os policiais da região receberam um reforço de respeito: dezenas de agentes da Polícia Federal e centenas de soldados do Exército fantasiados de conquistadores da selva. E acabara de ser divulgado um abrangente e audacioso “pacote ambiental”.
O conjunto de providências – uma Medida Provisória, seis decretos e um projeto de lei – pretende “coibir a violência e o desmatamento na Amazônia”. Foram interditados 3,8 milhões de hectares na “Terra do Meio”, para a criação de duas unidades de conservação florestal, e outros 8,2 milhões de hectares às margens da rodovia Cuiabá-Santarém. O governo federal tornou-se responsável direto pela gestão de 72% das terras do Pará.
Em poucas semanas, estará criado um novo órgão encarregado de “gerir a exploração de madeira, disciplinar a atividade e obrigar os concessionários a reflorestar áreas desmatadas”. O Ibama e o Incra, duas siglas em frangalhos, ganharão estruturas consistentes. Supostos donos de terra terão de apresentar documentos de posse convincentes. E obedecerão a códigos rigorosos, concebidos para impedir os mandarins das matas de incendiar a floresta para em seguida consumar a grilagem.
Orlando Villas-Bôas, o maior especialista em coisas da Amazônia, vivia reiterando a advertência: “Aquilo é uma terra de ninguém e de todos”, resumia. “Existem tantas escrituras falsificadas que, se quiser entregar terras a todos os que se dizem donos de algum pedaço de chão, o governo terá de inventar um Pará com dois andares”. Lula não precisou operar milagres para revogar um problema forjado ao longo de cinco séculos. Uma boa canetada foi suficiente.
O Brasil com neurônios sabe que tudo continuará como sempre, que várias medidas ficarão engavetadas no armário das ficções federais, que muitas regiões do país seguirão esquecidas pelo Estado. Mas Lula embarcou na gabolice. “Atingimos a maioridade no controle da nossa Amazônia e das nossas florestas”, proclamou. Horas depois, a fantasia seria fulminada pelo tiro de escopeta que matou o ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro Filho. Ribeiro era um dos três encarregados de preservar a Biológica do Tinguá, 27 hectares de Mata Atlântica a 70 quilômetros do Rio. Foi condenado à morte por caçadores de animais em extinção e exploradores de palmito.
O convite à reflexão foi substituído por um surpreendente contra-ataque. Em novo improviso, confessou ter mantido em sigilo casos de corrupção supostamente ocorridos no governo Fernando Henrique, denunciados por “um alto companheiro”. Se a história efetivamente ocorreu, Lula pode ser enquadrado no crime de prevaricação.
Mordaça nele.
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