Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, setembro 18, 2008

Choque, pavor e dólar no colchão - Vinícius Torres Freire




Folha de S. Paulo
18/9/2008

Decano da finança dos EUA propõe que governo compre a dívida podre; mercado em pânico aplica dólar a juro zero

INVESTIDORES grandes do mundo inteiro guardavam ontem dinheiro no colchão. Zilhões de dólares foram investidos em papéis que não rendem nada -na verdade, se perde dinheiro, se descontada a inflação. Os investidores compraram em massa títulos do Tesouro americano de curto prazo (menos de um ano). Quanto maior a procura, menor o rendimento de tais papéis. O título de três meses, na prática, não rendia nada ontem. Não se via coisa assim desde a Segunda Guerra Mundial. Isso é "choque e pavor", como foi apelidada a estratégia americana na invasão do Iraque.
Trata-se do terceiro dia de congelamento dos mercados de crédito do mundo rico. Ou algo assim como "o dia em que a Terra parou" no mundo das finanças. Bancos não emprestam dinheiro aos outros. Isso é pavor de que o banco com quem se faz negócios hoje esteja morto amanhã. Para quem tem dinheiro grosso, é melhor estacioná-lo no Tesouro com rendimento abaixo de zero do que arriscá-lo na praça.
As ações de bancos americanos de investimento apanharam muito. O custo de fazer seguro de crédito oferecido a tais instituições foi à Lua -isso significa que tais bancos vão pagar muito caro para obter dinheiro e cobrir perdas, se conseguirem fazê-lo. Como muitos não o conseguirão, os governos dos EUA e do Reino Unido simplesmente dão um jeito de obrigar a venda de tais instituições. Nos EUA, por ora, é o caso do Washington Mutual, banco de poupança que vai a leilão; no Reino Unido, do HBOS, a maior financiadora de hipotecas. O Morgan Stan- ley, banco de investimento, negocia fusão com o Wachovia. Seria o quarto dos cinco irmãos a desaparecer (depois de Bear, Lehman e Merrill Lynch; sobra só o Goldman Sachs).
Todo esse choque extra é efeito da quebra do Lehman Brothers e da estatização da maior seguradora dos EUA, a AIG, desastres que deixaram as contrapartes de tais companhias em maus lençóis, com vários tipos de papéis micados na mão. Em menor escala, o medo deriva do fato de um fundo de investimentos de varejo ter suspendido os saques de seus clientes depois de anunciar perdas com a quebra do Lehman. Teme-se que investidores comuns assustados corram para sacar o dinheiro de outros fundos ou de bancos a fim de guardá-lo num colchão de fato.
A venda em liquidação é ao menos uma saída parcial para a crise. Mas resta o problema dos trilhões de papéis em putrefação na praça (imobiliários, derivativos de crédito), pois o mercado imobiliário continua a afundar. Instituições financeiras e empresas com os cofres cheios de tais papéis não têm onde tomar dinheiro ou vão pagar muito caro. Assim, a crise continua. Ou a coisa se resolve em quebra catastrófica, em lentíssima digestão (anos e anos), ou o governo compra toda a papelada podre (o Tesouro dos EUA anunciou que vai fazer dívida extra a fim de financiar o Fed). É o que sugeriram ontem Paul Volcker e Nicholas Brady, literalmente. Volcker foi o banqueiro central que levou os juros americanos ao céu para dar cabo da inflação na virada dos anos 70 para os 80. Brady foi o secretário do Tesouro que controlou a renegociação da dívida caloteada da América Latina, entre os anos 80 e 90. Eles entendem de desastres globais.

vinit@uol.com.br

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