quarta-feira, setembro 30, 2009

Reinaldo Azevedo

DIRETOR DE RÁDIO ZELAYSTA ACUSA OS JUDEUS DE TRAMAR CONTRA ZELAYA E LAMENTA, NO AR, QUE HITLER NÃO TENHA CUMPRIDO SUA MISSÃO HISTÓRICA

quarta-feira, 30 de setembro de 2009 | 13:01

Se vocês clicarem aqui, terão acesso a um vídeo em que poderão ouvir a voz de David Romero, diretor da rádio Globo, que apóia Manuel Zelaya. É aquela rádio que sofreu intervenção do governo interino, acusada de incitar a violência, e que deixou os bolivarianos brasileiros excitadíssimos. Ouvindo o que está aí, vocês têm uma noção de quem é aquela gente. Zelaya havia acusado a existência de um complô judaico para matá-lo com gás e radiação de alta freqüência. Por incrível que pareça, alguns jornalistas brasileiros caíram na conversa. Já escrevi um post aqui em que demonstrei as raízes anti-semita do bolivarianismo chavista. Ouçam o que vai aí. Abaixo, publico um tradução de trecho da fala.

Às vezes, eu me pergunto se Hitler não teve razão de haver terminado com essa raça, com o famoso Holocausto. Se há gente que causa dano a este país, são os judeus, os israelitas. Eu quero, esta tarde, aqui na rádio Globo, dizer, com nome e sobrenome, quem são os oficiais do Exército judeu que estão trabalhando com as Forças Armadas de nosso país e que estão encarregados de fazer todas essas atividades de conspiração e ações secretas. E [quero dizer] tudo o que está acontecendo ao presidente da República.
Depois que me informei, eu me pergunto por que não desejamos que Hitler tivesse cumprido sua missão histórica. Desculpem-me a expressão dura de repente. Porém eu me pergunto isso depois que fiquei sabendo disso e de outras coisas. Eu creio que teria sido justo e correto que Hitler tivesse terminado sua missão histórica”

Voltei
Na opinião de vocês, uma rádio que tem um diretor que faz tal avaliação, no ar, estaria mesmo empenhada em incitar a violência? Olhem, é com esse tipo de gente que se meteu o governo brasileiro; é essa metafísica influente que Lula e Celso Amorim se mostram dispostos a apoiar até o fim; é por gente que tem esse universo mental que o Brasil está se mobilizando. Estes são os apoiadores de Manuel Zelaya.

Passem adiante este post. Demonstrem quem são os aliados do Brasil nesta sua “aventura imperialista”.

José Nêumanne Banzé brasuca em Tegucigalpa

O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um gênio da política e disso não dá para duvidar. Reconhecer essa verdade, contudo, não esclarecerá se ele foi sincero (e, portanto, de um desconhecimento sesquipedal dos fatos) ou se apenas destilou um gosto peculiar pela ironia quando, na Cúpula América do Sul-África, execrou "retrocessos" institucionais em nosso continente - caso da deposição de Manoel Zelaya. Pois o fez ao lado do tirano líbio Muamar Kadafi, no poder há 40 anos, e do ditador de Zimbábue há 29 anos, Robert Mugabe. Falar em ironia no episódio chega a ser um cruel acinte à memória das vítimas de tantas ditaduras que prosperaram na América Central à sombra das bananeiras em flor. E, justiça seja feita, se se trata de mera ignorância, ela teria de ser imputada também a vários colegas de Lula, entre os quais o americano Barack Obama. Sem falar nos coleguinhas jornalistas que, rejeitando os fatos, classificam de "golpista" o governo de facto de Honduras.

Mel, como é apelidado o latifundiário eleito pela direita que aderiu ao bolivarianismo de Hugo Chávez, foi deposto, é verdade, e não submetido a um processo regular de impeachment, como o foi o primeiro presidente brasileiro eleito pelo voto popular depois da ditadura militar de 1964, Fernando Collor. Isso ocorreu, porém, à luz do ignorado artigo 239 da Constituição de Honduras, que reza peremptoriamente: "O cidadão que desempenhou a titularidade do Poder Executivo não poderá ser presidente ou vice-presidente da República. Quem quebrar este dispositivo ou propuser sua reforma, assim como aqueles que o apoiem direta ou indiretamente, terá de imediato cessado o desempenho de seu respectivo cargo e ficará inabilitado por dez (10) anos para o exercício de qualquer função pública."

Collor nem sonhou tentar o que Zelaya tentou: mudar a Constituição e convocar um plebiscito para permitir sua permanência no cargo, ao arrepio do Congresso e da Justiça. O ex-presidente hondurenho pediu apoio aos militares e, não o tendo obtido, demitiu o comandante das Forças Armadas. A Justiça mandou depô-lo, empossou o presidente do Congresso e não permitiu que ele se vestisse, embarcando-o de pijama para o exterior. O mundo inteiro se revoltou com a desfaçatez dos "golpistas" de Honduras por crassa ignorância das regras constitucionais vigentes num país minúsculo e miserável. Teceu-se, aí, com rapidez, a cortina de fumaça do governo "golpista" e do "martírio" do presidente eleito pelo povo e deposto por militares num novo e típico pronunciamiento latino-americano.

No afã de não repetir Bush, Barack Obama, assessorado por madame Clinton, absolutamente jejuna em quaisquer assuntos ao sul do Rio Grande, condenou a deposição, mas depois foi tratar de problemas mais relevantes. Com o "não temos nada com isso" dos xerifes do mundo, tudo se encaminhava para uma solução simples e cômoda do episódio: as eleições presidenciais poderiam ser realizadas e a paz democrática voltaria a reinar naquele antigo pedaço do império da United Fruit Company.

Aí entrou em ação o coronel golpista Hugo Chávez, que despachou de volta para o centro dos acontecimentos o presidente deposto. Este cruzou a fronteira, mas voltou por cima dos pés para, em seguida, empreender uma entrada espetacular em Tegucigalpa, mercê do engenho estratégico do amigo venezuelano e do peculiar conceito sobre democracia da companheirada brasileira. Dirigente sindical no fim da ditadura militar, quando o general Geisel cunhou sua "democracia relativa", Lulinha Paz e Amor inventou a "democracia de conveniência", adaptação petista da sentença de Artur Bernardes: "Para os amigos, tudo; para os inimigos, o rigor da lei." Ahmadinejad roubou a eleição no Irã? Isso não interessa ao Brasil, que não pode intervir na soberania iraniana. Ahmadinejad nega o holocausto? O fato de sermos amigos não nos força a pensarmos da mesma forma.

Mas o mesmo não vale para Honduras, que não tem projeto bélico nuclear nem bate boca com o vilão ianque. E foi assim que, quando o mundo inteiro esperava um banho de votos para lavar a mauvaise conscience pelo completo desconhecimento internacional das regras constitucionais hondurenhas, o governo brasileiro, para apoiar Chávez, foi à caça do apoio de tiranos africanos para repor Mel Zelaya no poder. Para tanto mandou às favas todas as regras do civilizado convívio internacional. Como nunca antes na história deste planeta, abrigou na "embaixada" brasileira não um fugitivo de um regime ditatorial, mas alguém que decidiu impor a própria vontade de continuar mandando em casa, sem dar bola para as instituições e a opinião pública locais. Esses episódios sempre terminam com um salvo-conduto ao abrigado na embaixada e seu asilo pelo país que o hospedou. Mas este não pode ser o caso: Zelaya não quer fugir de Honduras, mas ficar lá, sob a proteção de Lula, porque Chávez mandou.


O absurdo não para por aí. Lula tem exigido respeito absoluto ao território brasileiro da "embaixada" depois de ter chamado o embaixador de volta e mantido em Tegucigalpa apenas um encarregado de negócios. O governo de facto ainda não ocupou o prédio só para evitar pretextos intervencionistas, pois, como não reconhece a autoridade "golpista", o Brasil não tem mais embaixada em Tegucigalpa.

O ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda tem razão ao se dizer - em entrevista a Lúcia Guimarães no caderno Aliás deste jornal, no domingo - espantado com a intromissão brasileira em Honduras. Estamos é fazendo um banzé brasuca estúpido em terreiro alheio, que, aliás, não tem interesse nem importância nenhuma para nós. Ao mundo, que tenta se esconder do vexame de ignorar as regras da democracia de um país pobre, o Brasil parece bater no peito e proclamar com arrogância: "Sou ignorante, sim, mas quem aí não é?"

Dora Kramer Tiro e queda

O ESTADO DE S. PAULO

A natureza humana - assim como a do escorpião - quando muito tarda, mas falhar, não falha jamais. Prova é a emenda constitucional assinada por 1,3 milhão de brasileiros, pedindo que pessoas com contas em aberto na Justiça não possam se candidatar a mandatos eletivos.

A proposta nem bem cruzou a porta de entrada do Congresso e já se deparou com o arsenal de matar inconveniências. Suas excelências, que já haviam deixado o clamado veto de fora das recentes modificações feitas a toque de caixa na lei eleitoral a fim de restringir o espaço de atuação da Justiça Eleitoral, não gostaram.

Antes que a matéria comece a tramitar, já propõem mudanças que, se aprovadas, alteram inteiramente o espírito da proposta popular. A emenda prevê a negativa de registro para candidatos que tenham sido condenados em primeira instância por racismo, homicídio, estupro, tráfico de drogas e desvio de verbas públicas.

Sem prejuízo, claro, daqueles já condenados por uso da máquina pública e compra de votos, hoje devidamente enquadrados na Lei 9.849/99, que deu base legal à Justiça para a cassação de três governadores eleitos em 2006.

Goste-se ou não da forma de substituição dos cassados - eleição indireta pela Assembleia Legislativa em um caso e, nos outros dois, posse aos segundos colocados nas urnas -, imponham-se reparos à demora das decisões judiciais, imponha-se a necessidade de encontrar uma maneira mais rápida e democrática para troca de comando no Poder Executivo, fato é que a aplicação da lei deu um freio de arrumação no abuso do poder, notadamente econômico.

Hoje, um candidato a presidente da República, um governador ou um prefeito em campanha precisam pensar várias vezes antes de partir para a ignorância no que tange ao uso de recursos, sejam eles públicos ou privados.

Pois a emenda popular contra os chamados fichas-sujas tem o mesmo caráter profilático. A despeito da regra geral que assegura a presunção da inocência até a última instância de julgamento para os cidadãos em geral, é muito justo que a regra seja mais rigorosa para quem pretenda representá-los.

Afinal de contas, quando uma denúncia chega a um tribunal, ela já passou pela polícia, pelo Ministério Público e por um primeiro crivo da Justiça. Pode haver injustiças? Pode, só que não estamos tratando de situações definitivas, irreversíveis.

Se depois de todos os recursos ficar provado que o acusado era inocente, muito bem. Recebe seu atestado de idoneidade - aquele mesmo exigido de qualquer um para se credenciar a cargos públicos - e se inscreve na chapa deste ou daquele partido, que, por sua vez, a registrará no tribunal eleitoral da região pretendida para a disputa de votos.

É tudo muito simples, mas suas excelências já estão achando complicadíssimo. Consideram o projeto "muito duro". Realmente, perto da frouxidão das regras que eles mesmos criam quando estão em jogo seus interesses, a proposta é um obstáculo.

Principalmente à desfaçatez de se achar muito natural que dois terços, ou três quintos, uma parcela dessa ordem de absurdo, dos parlamentares estejam respondendo à Justiça.

Na maioria eles alegam que os processos são produtos de perseguição ou armadilhas políticas. É de se perguntar: e os outros que nada devem, não têm adversários?

Novo rumo

O chanceler Celso Amorim dramatiza, diz que o Brasil abrigou Manuel Zelaya na embaixada em Tegucigalpa para proteger a vida do presidente deposto. Não fosse isso, hoje ele "estaria morto".

Um tom muitos decibéis abaixo da ufanista e animada declaração inicial de que a busca pela representação brasileira era um sinal do "prestígio" internacional do País.

Lição do abismo

Mais inadequada e explícita impossível a escolha do tema do discurso do presidente Lula na cerimônia de posse do novo ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha: a defesa da partilha partidária de cargos na administração pública como forma de construir maioria no Congresso.

É assim que funciona, mas a citação rebaixa o Parlamento, representa aval presidencial ao fisiologismo e demonstra zero disposição de tornar mais institucionais as relações.

Túnel do tempo

Melhor que o pragmático era o Lula doutrinário, ainda candidato, em 2002, pregando o voto facultativo: "A política ficará melhor e mais depurada quanto maior for o interesse e a convicção com as quais o eleitor comparecer para votar." Até o português era melhor.

Para o Luiz Inácio de sete anos atrás, o compromisso partidário e o trabalho de conquistar a atenção da sociedade, despertando nela a vontade de participar, eram as missões primordiais do político com vocação para o exercício da representação popular.

Merval Pereira Em busca de uma saída

O GLOBO

A iminência de uma tragédia parece estar levando o bom senso aos principais atores dessa comédia bananeira que se desenrola em Honduras, na qual não há lado certo. Está claro que o governo brasileiro vem buscando desesperadamente uma saída, depois de ter entrado de gaiato na armação chavista de transformar o presidente deposto, Manuel Zelaya, em um herói da democracia hondurenha.

Quando o assessor especial para assuntos de América Latina, Marco Aurélio Garcia, pede que os Estados Unidos tenham uma posição menos ambígua na questão, demonstra que nossa posição de protagonismo começa a ser colocada em dúvida.

Diplomaticamente é classificada como “irresponsável”, adjetivo que serve diretamente para Chávez, que se vangloriou de ter organizado a reentrada de Zelaya em Tegucigalpa, mas que cai como uma carapuça no governo brasileiro.

O subchefe da missão americana na OEA, Lewis Amselem, é considerado um linhadura, que já serviu em vários países da região, e pode estar tendo uma visão pessoal da questão. Se for assim, deveria ter sido desautorizado por sua chefe, a secretária de Estado, Hillary Clinton.

Mas a comissária para as Relações Exteriores da União Europeia (UE), Benita Ferrero-Waldner, também considerou que o retorno ao país do presidente deposto, Manuel Zelaya, “complicou” a solução para a crise local.

No seu depoimento de ontem no Senado, o chanceler Celso Amorim disse que o governo brasileiro não se considera usado por Chávez, embora reafirme que de nada sabia até meia hora antes de Zelaya se materializar na embaixada brasileira.

Uma atitude no mínimo estranha, que implica adesão à manobra guerrilheira chavista de reintroduzir em território hondurenho um presidente que estava no exílio.

Tanto a manobra quanto a adesão brasileira, permitindo que Zelaya se pronuncie abertamente convocando o povo à revolta, significam uma clara intromissão na política interna de outro país.

Sempre que os Estados Unidos invadiram países das Américas, e mesmo no caso do Iraque, o fazem alegando defender a democracia, o que não torna suas ações dignas de respeito pelos verdadeiros democratas.

O fato de a “comunidade internacional”, como salienta sempre que pode o chanceler Celso Amorim, ter condenado o “golpe” que tirou do poder o presidente democraticamente eleito não significa que tenha havido um golpe, mas apenas que a percepção internacional sobre as regras do jogo democrático varia de acordo com a importância geopolítica de cada país.

A Constituição de Honduras tem a mesma validade, e deve ser tão respeitada, quanto a de outro país qualquer de PIB maior ou de tradições democráticas mais sólidas. Não querer distinguir as diversas etapas do processo que levou Zelaya ao exílio ajuda a não encontrar saída para a crise regional que o Brasil tenta a todo custo transformar em internacional, colocando o Conselho de Segurança da ONU para atuar num campo em que o interlocutor deveria ser a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Se é verdade que o Brasil se transformou em defensor da democracia na América Latina, como exagerou o chanceler Amorim ontem no Senado, é também verdade que esse neobolivarista Zelaya estava colocando em perigo a democracia na mesma região, e ninguém se incomodava com isso.

Quando o protoditador Hugo Chávez manda fechar jornais, rádios e televisões na Venezuela, não aparece nenhuma autoridade brasileira para protestar, e a “comunidade internacional” não se mobiliza para evitar que a democracia seja ameaçada.

Quando o presidente Lula pede que a ditadura cubana seja recebida pela OEA e pela ONU sem condicionar seu retorno à convivência da tal “comunidade internacional” a compromissos democráticos, perde substância seu apelo a favor da democracia representada por Zelaya.

O governo interino de Honduras já se convenceu de que cometeu um erro político fundamental ao exilar o presidente deposto sem que fosse julgado dentro das normas legais, colocando-se também o governo substituto fora da legalidade.

Mas não ajuda para uma saída da crise abrigar em nossa embaixada o presidente deposto com direito a promover manifestações políticas e incitamentos a revoltas populares, assim como não ajuda a OEA recusar apoio à realização de eleições em novembro, que é a única maneira de salvar a democracia hondurenha.

Para se chegar a uma solução do impasse, é preciso reduzir o grau de radicalização dos dois lados, e esse é um trabalho da tal “comunidade internacional”.

A decretação do estado de sítio pelo governo provisório, e consequente invasão de órgãos de comunicação, foi mais um passo em falso que não favorece a que o governo de fato seja bem visto pela “comunidade internacional”, mas organismos como a OEA, que deveria ser o intermediário para uma solução, não podem adotar uma posição radicalizada, colocando condições para uma saída.

O grau de paranoia é tão acentuado que a delegação de representantes da OEA e alguns embaixadores estrangeiros foram barrados porque o governo interino temia que junto com eles chegariam ministros de Zelaya querendo instalar um governo provisório.

O governo já recuou das duas medidas insensatas, e o diálogo está para ser retomado.

Apesar da retórica oficial de que qualquer solução tem que levar em conta a volta de Manuel Zelaya ao poder, o governo brasileiro já parece disposto a aceitar qualquer saída que seja negociada, e essa parece ser a posição que a tal “comunidade internacional” está tendendo a aceitar, para que se chegue a um clima que permita a realização das eleições em novembro.

terça-feira, setembro 29, 2009

Pantomima Denis Lerrer Rosenfield




Façamos, primeiro, um breve retrospecto. Lula e Celso Amorim realizaram, nos últimos anos, périplos por países africanos que têm em comum o menosprezo pela democracia e pelas liberdades em geral. Trata-se de países ditatoriais que foram considerados pelo nosso governo dignos parceiros de reconhecimento internacional. O ex-terrorista e ditador líbio, Muamar Kadafi, chegou a ser considerado como um irmão. Irmão de quê? De empreitadas ditatoriais, de uma pessoa há décadas no poder e exercendo uma dominação inflexível sobre o seu próprio povo.

Seguindo a mesma linha, a diplomacia brasileira permaneceu silenciosa sobre o genocídio do Sudão, onde mais de 200 mil pessoas foram assassinadas, não contabilizando as pessoas esquartejadas, mutiladas e estupradas. Em nome de quê? Da não-ingerência nos assuntos de outros Estados. Qual foi, então, o recado? Assassinar seu próprio povo pode, em nome da soberania interna.

O caso do Irã do "presidente" Mahmoud Ahmadinejad foi - e continua - escandaloso. As eleições foram fraudadas, o povo iraniano foi às ruas, até alguns aiatolás já não suportam o despotismo em vigor no país, pessoas foram torturadas e assassinadas em prisões. E o governo brasileiro contentou-se em dizer que se tratava de um mero jogo de futebol, em que os perdedores tinham ficado insatisfeitos. Na ONU, Lula, agora, reiterou a mesma posição de menosprezo aos direitos humanos. Temos uma prova tangível da podridão dessa esquerda que traiu inclusive os ideais de Marx. Fechou questão com o islamismo totalitário. Como se não bastasse, um "presidente" que se caracteriza pelo antissemitismo militante, propugnando pela eliminação do Estado de Israel, é convidado a visitar o Brasil. Provavelmente, em nome de uma qualquer "solidariedade" internacional, a dos déspotas.

Diante desse quadro, que é um quadro de horror, a "nossa" diplomacia, ou melhor, a "deles", dos bolivarianos com afinidades totalitárias, patrocina e é conivente com a volta de Manuel Zelaya a Honduras. Só um tolo acreditaria nas palavras de "diplomatas" (sic!) segundo os quais o Brasil só soube do ingresso do ex-presidente bolivariano, de tendências golpistas "democráticas", quando já tinha ingressado naquele país. Ainda, conforme nosso "chefe" do Itamaraty, deu-lhe "boas-vindas", oferecendo-lhe a hospitalidade brasileira. Pelo menos Zelaya e sua mulher foram "honestos" ao agradecerem ao chanceler Amorim e ao presidente Lula o seu apoio.

Para acreditar na versão oficial é necessário acreditar em duendes. Os cidadãos brasileiros são tidos por crédulos, mal informados, ou melhor, tolos. Nada bate com nada nas versões oferecidas, salvo o seu objetivo de dar o máximo de sustentação ao projeto bolivariano do golpista fracassado Zelaya. O que é para eles insuportável é que ações inconstitucionais tenham sido abortadas pela Corte Suprema daquele país, pelo Legislativo e pelos militares. Querem encobrir tudo isso dizendo que se tratou de um "golpe militar", que a América Latina não pode mais suportar.

O que pode a América Latina suportar? Deve suportar a subversão da democracia por meios democráticos, com destaque para eleições e assembleias constituintes. Deve suportar a eliminação da divisão de Poderes, com "líderes máximos" solapando progressivamente todas as instituições representativas. Deve suportar a eliminação da liberdade de imprensa, num cenário liberticida que relembra a vereda totalitária de uma esquerda que nem mais sabe o significado de valores universais. As palavras começam a perder seu sentido, ganhando um novo, que guarda uma remota ligação com seu significado originário.

A diplomacia brasileira fala que concedeu refúgio a Zelaya. Como assim? Ele estava sendo perseguido dentro de seu próprio país? Precisa de asilo? Ora, trata-se de uma pessoa que foi obrigada a deixar o poder por conspirar contra a Constituição. Por isso foi conduzido para fora de seu próprio país, sem que tivesse sofrido dano físico nem tenha estado sua vida em perigo. O que a diplomacia brasileira fez foi patrocinar sua volta a Honduras, em aliança com Hugo Chávez, que reconheceu ter organizado toda a operação. O Brasil atrelou-se à Venezuela. A diplomacia brasileira está ingerindo nos assuntos internos de outro país, numa escancarada violação da Constituição brasileira, das Cartas da OEA e da ONU.

Numa completa tergiversação, o chanceler Amorim pede que o governo de Honduras não pratique nenhuma violência contra o bolivariano Zelaya. Ora, é a diplomacia brasileira que está suscitando violência e tumulto naquele país. Os mortos já se contam. Os bolivarianos estão entrincheirados na embaixada, a partir da qual fazem manifestações públicas e organizam os seus partidários para levar a cabo o seu projeto de subversão da democracia. Como são politicamente corretos, dizem estar defendendo a democracia.

Na subversão do sentido das palavras, clamam que não reconhecerão as eleições em curso. Como assim? Porque elas estavam previstas na Constituição, antes mesmo da deposição de Zelaya? Não faz o menor sentido! As eleições seguem um cronograma constitucional, num regime de plenas liberdades, em particular de imprensa e partidária. É precisamente isso que se torna insuportável para esses socialistas autoritários.

Os países que parecem encantados com os cantos bolivarianos, como os EUA e os países europeus, estão cortando as fontes de financiamento desse pequeno país resistente. Enquanto isso, Lula negocia com Obama o fim do embargo comercial a Cuba. Deve estar fazendo isso em nome da democracia!

Governança em rede Celso Ming


O Estado de S. Paulo - 29/09/2009


A reunião de cúpula dos chefes de Estado do Grupo dos 20 (G-20) quinta e sexta-feira da semana passada editou um extenso documento de 50 parágrafos mais os anexos, mas é provável que a principal consequência não esteja lá naquele papel com as 20 assinaturas.

A principal consequência pode ter sido menos tangível, mas nem por isso menos importante: a consolidação de um entendimento de que, numa economia globalizada, as decisões não podem ser tomadas independentemente, país por país, chefe de Estado por chefe de Estado.

Vai sendo entendido que é preciso coordenar globalmente as grandes políticas e isso tem agora de ser feito num âmbito mais amplo do que apenas o dos países ricos (G-8). Ou seja, é preciso incluir no círculo de tomada de decisões e de implantação de providências também as potências emergentes (G-20).

Isso vai limitar o exercício de soberania dos Estados nacionais. Mas, nesse ambiente tão interdependente, a governança tem de ser exercida em rede. O que acontece ou deixa de acontecer num país tem impacto nos outros e isso não vale apenas para as questões ambientais.

Na prática, significa que as políticas monetárias, políticas fiscais e todo o aparato de acompanhamento e supervisão das instituições financeiras têm de ser coordenados.

Uma importante consequência disso será o aumento da rigidez na condução de políticas econômicas. Ainda que os partidos políticos majoritários de um país concluam que "é preciso mudar tudo o que está aí", como pensava o PT no passado, não vai ser possível revirar drasticamente essas políticas. E, isso, não só porque contrariaria acordos, mas também porque é preciso levar em conta o impacto no resto do mundo e não só no próprio quintal.

A forma como os grandes bancos centrais manejam a política monetária (política de juros), por exemplo, tem enorme impacto sobre toda a economia global.

É fato sabido que uma das principais causas dessa última crise foi a decisão tomada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de manter os juros muito baixos, ao redor de 1% ao ano, no período entre 2002 e 2004.

Os juros no nível do mar, por sua vez, aconteceram porque não havia inflação a combater, e entre as razões para isso estava aquela que tinha a ver com a política comercial entre Estados Unidos e China, que derrubou os preços dos produtos asiáticos.

Os grandes bancos centrais acreditavam até aqui que tinham total autonomia para injetar ou retirar o volume que bem entendessem de recursos do mercado e, no entanto, suas decisões têm forte impacto recíproco. O presidente do Banco da Inglaterra (banco central inglês), Mervyn King, queixa-se de que juros mais baixos nos Estados Unidos põem em movimento enormes operações de arbitragem (tomar emprestado a juros mais baixos para ganhar com a reaplicação a juros mais altos) que prejudicam sua própria política.

De mais importante entre as decisões tomadas está a de submeter os bancos aos padrões de segurança recomendados pelos acordos de Basileia. Mas, levando-se em conta que isso não é para já, foi dado o prazo até 2012 para completar o processo.

E, outra vez, faltou uma ação que apontasse para a superação da distorção maior, a mãe de todas as crises, que é o forte desequilíbrio no balanço de pagamentos entre as potências globais.

Confira

Sem revoada - A captação líquida da caderneta em setembro (até o dia 22) é quase 40% superior à do mesmo período de agosto. Mas não se viu a temida debandada de aplicações da renda fixa para as cadernetas em consequência da baixa dos juros. Nem é tão certo que haverá.

A crise na ONU Luiz Garcia


O Globo - 29/09/2009

A posição oficial do Brasil sobre o Conselho de Segurança das Nações Unidas é de que ele “perdeu relevância” — palavras textuais do presidente Lula em discurso na Venezuela sábado passado.

Não é bem assim: se o conselho fosse hoje menos importante, não faria sentido o Brasil e outros países brigarem como brigam por um lugar entre seus membros permanentes.

E importante ele continua sendo: é o único órgão internacional que pode autorizar a invasão de qualquer país por tropas sob a bandeira da ONU.

O problema com o conselho é outro. Ele reflete a realidade política do momento em que foi criado e tem como membros permanentes os principais (mas não todos) aliados na Segunda Guerra Mundial: Estados Unidos, França, Inglaterra, China e Rússia. Os outros dez assentos são partilhados, em rodízio, por todos os outros países membros da ONU. E só os cinco sócios permanentes têm o direito de vetar qualquer proposta de representantes do resto do planeta.

Relevante, sem dúvida alguma, ele continua sendo. O que, na verdade, agrava a injustiça associada aos privilégios do assento permanente e do veto. O absurdo dessa situação tem até expressão financeira, já que Japão e Alemanha continuam pagando seus pecados da guerra de mais de 50 anos atrás — embora juntos contribuam financeiramente mais do que quase todos os outros membros da organização somados. O absurdo também tem expressão geográfica: três regiões não estão representadas no grupo privilegiado: África, América do Sul e Austrália.

A discussão sobre o problema começou em 1979. Mas só em 1993 foi criado um grupo de trabalho para discutir a estrutura do Conselho de Segurança. Há diversas propostas na mesa. Todas sugerem uma representação mais equitativa e o aumento do número de membros: o número mais citado é de 25. Mas o problema mais importante não está nisso, e sim na questão do veto.

O poder de vetar qualquer proposta de outros países, reservado aos cinco sócios fundadores, reflete uma realidade — a do após-guerra na década de 40 — que simplesmente não existe mais. E mesmo naquele tempo não se poderia dizer que os membros permanentes representavam governos com sólida tradição democrática, já que entre eles estava o regime totalitário soviético. O Conselho de Segurança foi formado simplesmente pelos mais fortes aliados na luta contra o nazismo.

De qualquer maneira, o problema que existe hoje não é, ainda, falta de relevância, mas de perda de representatividade. E uma organização que se propõe a zelar por paz e prosperidade no planeta não tem escolha: ou representa todos os seus habitantes de forma impecavelmente democrática ou caminha para um processo de desmoralização que a ninguém interessa.

Miriam Leitão Aliados estranhos

O GLOBO

O presidente Lula joga suas fichas numa proposta jamais testada, a da transferência de votos na área federal. Desde a redemocratização brasileira, os presidentes nem tentaram transferir votos. Mas essa não é a única coisa estranha dessa campanha. O governador José Serra que está há meses à frente nas pesquisas é do único partido que tem mais de um pré-candidato.

Quem transferiu votos numa campanha presidencial? Em 1989, o então presidente José Sarney nem tentou ter candidato. Era tão impopular que todos eram oposição. Em 1994, o então presidente Itamar Franco mal entrou na campanha.

O Plano Real foi o eleitor principal. Em 2002, o ex-presidente Fernando Henrique e o candidato José Serra mantiveram distância, até porque Serra achava que muita proximidade o prejudicaria. De qualquer maneira, com apoio ou sem, ele perdeu. Nem Juscelino fez o sucessor.


Pode-se dizer que ninguém chegou a doze meses das eleições com um índice de aprovação tão alto quanto o presidente Lula. Mesmo assim, a transferência de votos numa eleição é um dos fenômenos mais difíceis de entender, e no âmbito federal não houve desde a redemocratização.

Nossa democracia teve, na atual fase, apenas cinco eleições presidenciais. A que ocorrerá daqui a um ano será a sexta.

Nos governos estaduais e municipais tem havido casos de um governante eleger um sucessor com pouca ou nenhuma experiência nas urnas. Orestes Quércia elegeu Luiz Antônio Fleury, Cesar Maia elegeu Luiz Paulo Conde. Em geral, o escolhido frustra a expectativa do padrinho. Portanto, se Lula pensa em eleger o sucessor numa espécie de mandato tampão para voltar em 2014 entra em outra empreitada arriscada. O presidente Hugo Chávez interpreta que, com Dilma, Lula vai sair sem sair do governo, como fez o presidente Néstor Kirchner.

Dos presidentes desde a democratização, Lula é o único que decidiu se empenhar para fazer o sucessor, a tal ponto que escolheu a candidata Dilma Rousseff sozinho, armou palanque muito antes da hora e tem transformado qualquer evento governamental, do PAC ao pré-sal, numa oportunidade para promovê-la. Lula tem feito campanha extemporânea e usado de forma explícita a máquina pública para fins eleitorais, mas a Justiça Eleitoral não parece se incomodar com nada disso.

Ontem, na posse do novo ministro das Relações Institucionais, Lula defendeu a distribuição de cargos para “unir a base”.

A base do palanque, claro.

O novo ministro começou mal: esqueceu de citar Dilma.

Levou bronca.

A conhecida obsessão do presidente de transformar a eleição num plebiscito entre seu governo e o governo anterior é uma ideia também estranha. Primeiro porque o eleitor médio não tem essa memória e nem está preocupado com esse Fla-Flu; segundo porque ele manteve a política econômica do governo anterior e também várias ideias e projetos da área social; terceiro porque o Brasil tem mais o que fazer do que discutir o passado.

O PSDB criou outra esquisitice da campanha. É o primeiro em todas as pesquisas de opinião — quando o candidato é José Serra —, mas é o único partido que mantém a indefinição sobre quem será o candidato.

Até Marina Silva que foi a última a entrar na précorrida já se define como a “pré-candidata prioritária do Partido Verde”, onde ninguém apareceu para rivalizar com ela. Também não há segundo no PSB para brigar com o deputado Ciro Gomes e nem mesmo no PT, que aceitou a imposição do nome da candidata pelo presidente Lula.

Ideias fora de propósito circulam insufladas pelos assessores presidenciais, ou por livre associação de ideias sem base. Uma que ocupou bastante espaço foi a de que o deputado Ciro Gomes iria, com a ajuda de um GPS, disputar o governo de São Paulo. Por que o deputado faria isso se essa é sua melhor chance numa disputa presidencial? Com recall de outras campanhas, com mais experiência, diante de uma candidata governista inexperiente, com a informação dada pelo eleitor de que não quer fazer um plebiscito, por que ele não atenderia à sua conhecida e legítima ambição de tentar ser presidente? Outra ideia que circula é de que ele é o Plano B do presidente Lula.

Será que o PT aceitaria apoiar um candidato que não fosse do próprio PT? Quando foi que o partido fez isso? Ciro Gomes com declarações fortes contra a aliança entre PT e PMDB neste fim de semana já mostrou que está buscando espaço no meio. Longe de José Serra, que ele acusa de “feio por dentro e por fora”, e da aliança PT-PMDB que ele condena por ser “moral e intelectualmente frouxa”.

Marina Silva tem mais chances do que vários analistas consideraram num primeiro momento. Mas ainda não está claro como o PV pretende superar suas fragilidades: pouco tempo de TV, pouca capilaridade partidária, falta de estrutura para uma campanha presidencial. É bem verdade que o Brasil é tão estranho que o partido com mais tempo de TV e mais capilaridade em todo o território nacional é o PMDB, que não tem candidato à presidência e se divide sobre quem apoiar.

Dividido, o PMDB sempre esteve sobre qualquer assunto, em qualquer votação, em qualquer campanha.

O presidente Lula trabalha para tornar viável a aliança com o PT. Os dois partidos são adversários em vários estados e para ilustrar o clima de entendimento entre eles basta lembrar a natureza exótica da ameaça feita pelo governador do Mato Grosso do Sul, do PMDB, ao ministro Carlos Minc, do PT. Falta muito tempo para eleição, é a temporada das esquisitices

Dora Kramer Chávez em foco

O ESTADO DE S. PAULO

A interferência explícita do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, na crise institucional que se abate sobre Honduras, pode influir na decisão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado que, nesta quinta-feira, examina o convite feito pelo Brasil para a Venezuela entrar no Mercosul.

O relatório do senador Tasso Jereissati está previsto para ser entregue hoje à Comissão de Relações Exteriores.

Se a crise em Honduras já tinha tudo para se misturar com a questão do Mercosul - dada a posição de tutor do presidente deposto, Manuel Zelaya, assumida por Chávez -, essa hipótese torna-se agora mais provável porque o presidente da comissão, senador Eduardo Azeredo, resolveu fazer uma reunião extraordinária para discutir os acontecimentos em Tegucigalpa, em especial a situação do Brasil como hospedeiro de Zelaya.

"Tranquilo" até a semana passada, confiante na condução do Itamaraty, o senador Eduardo Azeredo mudou de posição.

Por causa do agravamento da situação em si - ameaças de invasão da embaixada brasileira, ultimato por parte do governo de facto, decretação de estado de sítio por 45 dias, posição dos EUA considerando a volta do deposto um ato de irresponsabilidade, transformação da representação do Brasil em "bunker" sob administração de Zelaya - e das conversas que vem tendo nos últimos dias com especialistas no tema e embaixadores veteranos.

"Inicialmente, a comunidade internacional condenou a deposição de Manuel Zelaya e se solidarizou com ele. Pouco a pouco, porém, a história foi ficando mais clara e agora já não permite alinhamentos automáticos, pois há erros graves dos dois lados: se a expulsão do país foi uma quartelada, a ação anterior do presidente quebrou a regra constitucional e desrespeitou decisões do Judiciário e do Legislativo. Agora, um problema que caberia à OEA resolver está nas mãos do Brasil", diz Azeredo.

Nesse quadro, reconhece, não há como o Congresso ficar omisso. Ele não aprova integralmente a decisão da Câmara de mandar uma comissão de deputados a Honduras. Acha que cabe ao Senado um papel preponderante, mas equidistante.

Hoje ele chega a Brasília já com a missão de convocar os líderes partidários e tentar construir um consenso sobre a forma de atuação do Parlamento. "Não podemos ficar só na base do ataque, na oposição, e da defesa, por parte da base de apoio governista, é preciso abordar o assunto com independência e competência."

Grosso modo, o quadro, a contar pelas posições da semana passada, seria o seguinte: o DEM absolutamente contrário à ação do governo, o PT completamente a favor e o PSDB nem lá nem cá.

Padrão

A condescendência do Brasil com países de regimes de força, cuja "soberania" para matar, torturar, cassar, fraudar e calar é plenamente aceita, anula a credibilidade dos ataques do presidente Luiz Inácio da Silva a "usurpadores do poder" e esvazia suas posições em defesa da democracia no mundo em geral, particularmente agora, em Honduras, onde Roberto Micheletti assume sua face mais autoritária.

Governo que reconhece a China como economia de mercado e pede o fim do embargo norte-americano a Cuba sem impor um reparo sequer ao fato de serem, ambos, ditaduras, abre mão das credenciais para cobrar respeito à democracia ou a opinar nos acontecimentos hondurenhos nos termos em que Lula vem fazendo.

Como chefe de governo e de Estado, o presidente dispõe de prerrogativas constitucionais para decidir. Inclusive decidir expor o Brasil ao constrangimento que achar mais conveniente aos seus projetos.

Só não pode é querer ter razão nem que os outros o vejam como ele se vê: dono da sorte e da verdade do universo. Quando Lula desafia as pessoas a cotejarem a palavra dele com a de um "golpista", se esquece de que, como presidente, jamais tomou o cuidado de firmar compromisso pétreo com a palavra dita a respeito de qualquer assunto interno.

Donde subtraiu a si autoridade para cobrar confiabilidade na palavra do presidente.

Coisa e outra

A ministra Dilma Rousseff acerta quando, ao se defender da fama de mal-humorada porque assume as posições sem tergiversar, aponta a falta de assertividade na maioria dos homens públicos.

Erra, porém, quando supõe que a firmeza justifique a falta de educação. Notadamente quando se dá "para baixo". Quem vê a ministra da Casa Civil com o presidente Lula vê outra mulher. Solícita e sorridente. Meiga, até.

Firme e forte

O senador Antonio Carlos Valadares, citado domingo como alvo do lobby em prol de José Antonio Toffoli, informa que não sofre pressão para mudar seu voto, até porque é favorável à indicação do advogado-geral da União para o Supremo Tribunal Federal.

Merval Pereira Nas mãos de Lula

O GLOBO

A conversa que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pretende ter com o presidente Lula antes de decidir seu destino político tem como pano de fundo o futuro da economia brasileira e pode se realizar, por falta de agenda do presidente, até em Copenhague, onde os dois estarão na defesa do Rio para sediar a Olimpíada de 2016. Mesmo que o presidente Lula já tenha se pronunciado contra a saída de Meirelles do Banco Central para participar da política partidária, o presidente do BC está tendendo a “comprar uma opção” partidária e aguardar até março para tomar uma decisão definitiva com o passaporte que lhe permitirá continuar nesse jogo político. Mas não quer tomar nenhuma decisão sem falar com o dono da bola.

Ele não se interessa em continuar no mercado financeiro na iniciativa privada, onde fez sua carreira. Mas também não pretende entrar na política em oposição ao presidente Lula e, portanto, não está levando em conta a oferta do PTB para que saia candidato à Presidência da República.

O partido, embora ainda da base governamental, tem apresentado na televisão programas bastante agressivos contra o governo, aparentemente desembarcando do apoio. A não ser, o que parece improvável, que o próprio Lula o aconselhe a isso, situação em que terá mudado de opinião quanto às vantagens de ter apenas um candidato da base do governo.

Se se filiar a algum partido, p r o v a v e l m e n t e s e r á a o PMDB, mas a disputa do governo de Goiás está praticamente descartada, por uma questão de timing. Meirelles considera arriscado sair imediatamente do Banco Central, despertando as especulações e incertezas naturais para uma substituição desse nível num momento em que, na sua visão, a recuperação da economia ainda está frágil.

Ao contrário do otimismo exagerado do ministro da Fazenda, Guido Mantega, Meirelles vê risco de retomada de inflação com o desequilíbrio das contas públicas. A própria agência de avaliação de risco Moody’s, que acaba de dar o grau de investimento ao Brasil depois da crise, chamou a atenção para o desequilíbrio fiscal, embora não o considere grande o suficiente para ser controlado pelo governo.

O mercado financeiro, de maneira geral, aceita que o governo atual não controle o gasto público, certo de que um futuro governo vai fazer as “maldades” necessárias.

Embora os gastos tenham sido atribuídos na sua totalidade a políticas anticíclicas do governo para combater a crise, não há dúvidas de que parte do descontrole fiscal teve motivação eleitoral, a crise tendo sido um pretexto a posteriori para o descontrole que já havia sido contratado.

De olho nessa situação ainda incerta, Meirelles não pretende deixar o BC pelo menos antes de março, mas os peemedebistas de Goiás lhe dizem que, para disputar o governo, teria que sair agora, para começar as negociações políticas regionais.

Os políticos necessitam de uma sinalização segura para formar as alianças que organizarão o palanque estadual para apoiar a chapa de presidente, e o partido precisa montar sua chapa de senadores e deputados federais e estaduais desde já, não querem esperar por março, último prazo para a desincompatibilização de quem está em governos.

Nesse caso, Meirelles desistiria do projeto e resumiria suas opções a uma das duas vagas do Senado ou a vicepresidente na chapa oficial, desde que o PMDB oficialize sua adesão à candidatura de Dilma Rousseff. Como essa decisão só será sacramentada pela convenção partidária, a ser realizada em junho do próximo ano, e não há nenhuma garantia de que ela seja realmente tomada, o projeto político de Meirelles parece reduzido à disputa pelo Senado.

Além do mais, o presidente da Câmara, Michel Temer, é candidato declarado à vaga de vice pelo PMDB. Somente com uma intervenção, no devido tempo, do próprio presidente Lula, seria possível reverter essa situação que parece consolidada.

Na conversa com Lula, certamente entrará no jogo a possibilidade de Meirelles vir a ser convidado para a equipe da candidata Dilma Rousseff, mesmo que não seja para a Vice-Presidência.

Um acordo implícito, que sinalize a possibilidade de Meirelles ser o próximo ministro da Fazenda em caso de vitória, seria também um recado para o mercado de que o equilíbrio fiscal continuaria a ser uma prioridade.

Assim como a presença de Antonio Palocci na coordenação da campanha.

Em ambos os casos, porém, a ministra teria que mudar seu pensamento econômico, pois, em fins de 2005, pouco antes de ter que sair do governo devido à acusação de violação do sigilo do caseiro, Palocci entrou em rota de colisão com Dilma sobre uma proposta de ajuste fiscal de longo prazo apresentada pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, com o seu apoio.

A chefe da Casa Civil classificou publicamente a proposta de “rudimentar”, explicitando um racha dentro do governo com relação ao gasto público.

Ele continua defendendo sua “proposta rudimentar” de reduzir os gastos gradativamente para que, num período de dez anos, fiquem abaixo do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), o que daria uma sinalização de equilíbrio de longo prazo para a economia.

Mas o descontrole pode ser tal que o futuro governo não conseguirá contê-lo tão facilmente. Quanto mais tempo durar o descontrole, e estamos ainda a 15 meses do novo governo, maior será a “maldade” a ser feita, e a oposição não aceitará. É possível ver o próprio PT fazendo oposição a Dilma Rousseff, e ainda mais se o presidente for do PSDB.

Na questão fiscal, o governador de São Paulo, José Serra, tem um histórico mais favorável que Dilma, é reconhecido como bom gestor e cortador de custos. Suas desavenças com o governo federal e com os próprios parceiros tucanos têm mais a ver com a autonomia do Banco Central e a política cambial, o que torna o presidente do Banco Central um alvo preferencial.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Recuperação econômica - a hora da verdade Luiz Carlos Mendonça de Barros

VALOR ECONÔMICO

O gráfico neste artigo reproduz o padrão dos indicadores de atividade nos Estados Unidos e na Europa ao longo da crise que vivemos. Nele podemos identificar os três grandes movimentos que ocorreram a partir de julho de 2007, quando a crise do chamado "subprime" começou a ser precificada pelos mercados.

Na primeira etapa- que vai até o inicio de 2008 - o crescimento vigoroso que ocorria no mundo se desacelera e as economias americana e europeia entram em estagnação. Em um segundo momento - a partir de março de 2008 - inicia-se uma contração da atividade que vai até o fim do primeiro trimestre de 2009. A inclinação desta parte da curva acelera-se a partir do colapso do banco Lehman Brothers em setembro.

Finalmente, em abril deste ano, inicia-se uma fase de recuperação, com os indicadores da indústria e do setor de serviços mostrando um crescimento acelerado. O leitor pode identificar claramente que a recuperação segue o padrão em V, tantas vezes citado pela imprensa. Não por outra razão os mercados de ações também apresentam uma recuperação com o mesmo desenho. Nada de bolha especulativa como muitos defendem, mas apenas um movimento racional de resposta ao que ocorreu no lado real da economia.

Temos hoje uma visão clara do que aconteceu com a economia mundial a partir de setembro do ano passado. O setor privado entrou em pânico, mas as ações corajosas da maioria dos governos conseguiram reverter esta situação irracional. O volume de recursos mobilizados pelos bancos centrais mais importantes foi suficiente para evitar que o colapso dos mercados financeiros arrastasse o mundo para uma verdadeira depressão. Da mesma forma, os recursos fiscais liberados pelos governos criaram uma força anticíclica importante para compensar a redução dos gastos privados.

Com esta ação decisiva do setor público, a demanda final ficou acima da que estava implícita nos planos de produção da maioria das empresas. Os estoques caíram a níveis insustentáveis e a resposta racional foi a de voltar a aumentar seus níveis de atividade. O pânico nas empresas foi muito maior do que o vivido pelos consumidores neste conturbado período que vai de setembro de 2008 até março de 2009.

Chamo agora a atenção do leitor do Valor para a parte final do gráfico acima. Ela mostra as três possibilidades que existem hoje para a trajetória futura das economias mais avançadas. Embora ainda seja cedo para identificar com mais clareza qual dos ramos da curva vai prevalecer uma coisa é certa: a recuperação em V já é coisa do passado. Como dissemos anteriormente, a volta da atividade produtiva dos últimos meses esteve diretamente ligada ao descompasso entre a produção e a demanda final que ocorreu no período pós Lehman Brothers. Os gastos do consumidor, a nível global, ficaram praticamente estáveis mas empresas privadas agiram como se o mundo tivesse acabado. Cortaram agressivamente a produção e reduziram seus estoques a níveis muito baixos, o que as obrigou depois a aumentar o ritmo de produção.

Nos próximos meses viveremos uma situação diversa, com a atividade produtiva correndo de forma mais alinhada à demanda. Nada mais natural que ocorra uma redução no ritmo de crescimento da produção, ou mesmo uma pequena queda. Nesta nova dinâmica será o comportamento do consumidor que deve definir o ritmo de atividade econômica em 2010. Por isto os olhos dos analistas estão voltados para o mercado de trabalho, principalmente os dados de emprego e de renda dos salários. Será fundamental que ocorra uma estabilização do emprego até o fim deste ano e até o momento os dados caminham nesta direção.

Também serão importantes as informações relativas ao mercado imobiliário, pois o valor das residências representa parte importante no equilíbrio financeiro das famílias americanas. Nos últimos meses houve estabilização dos preços das casas e uma incipiente retomada de vendas que, se continuada, seria um forte elemento estabilizador.

Do lado monetário será preciso que ocorram sinais mais claros de um crescimento sustentado do multiplicador bancário. Até agora a expansão monetária provocada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) permitiu a redução dos spreads e a volta das emissões de títulos de dívida privada. Mas o financiamento bancário permanece restrito tanto para consumidores e para empresas. Sua normalização é importante para que a economia volte a funcionar de maneira sustentada. Por isto acompanho com cuidado as estatísticas relativas ao M2 americano, que são divulgadas todas as quintas-feiras. De outro lado, o sucesso do Fed em aumentar o multiplicador bancário será acompanhado da intensificação do debate já em curso sobre sua "estratégia de saída", isto é, a retirada do que pode vir a se configurar como um excesso de liquidez no sistema bancário. Certamente este será um desafio capaz de trazer volatilidade aos mercados em 2010.

Por fim, também faz parte desta equação os próximos movimentos do governo em relação aos estímulos fiscais criados durante a crise. Esta transferência fiscal tem sido importante para evitar a redução dos gastos em um momento em que o consumidor está sendo obrigado a reduzir seu endividamento. A possibilidade ou não de um segundo pacote fiscal vai fazer parte da agenda do mercado nos próximos meses. Sem uma ação mais decisiva, até o final de 2010 deve ocorrer um aperto fiscal por conta do término de vários programas de redução de impostos, inclusive os criados no início do governo Bush.

Ainda não tenho segurança para fazer uma escolha final da trajetória de crescimento. Minha intuição é que teremos uma inclinação compatível com um crescimento de 1,5% a 2% para o ano de 2010 nas economias dos EUA e da Europa. Neste cenário, o mundo emergente teria condições para continuar a crescer a taxas próximas a 5% ao ano. No momento adoto um viés de alta para estas projeções, mas sua realização depende dos fatores acima chegarem a bom termo nos próximos meses.

Despreparo e improviso Fernando Rodrigues

FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Como já escreveu Janio de Freitas, a partir de agora a crise instalada em Honduras diz respeito à capacidade de os latino-americanos conseguirem ou não ajudar a restaurar minimamente as regras democráticas naquele país. Golpes de Estado devem ser rechaçados. Sem relativização.

Se houve trapalhada na ocupação da Embaixada do Brasil, o mais fácil é apontar o dedo só na direção do governo Lula. Há uma histórica falta de preparo do Estado brasileiro quando se trata de protagonizar certas ações internacionais. Impera um vácuo crônico no serviço público a respeito desse tema.

Os acontecimentos em Honduras são um caso para estudo. A versão oficial é que Manuel Zelaya, presidente deposto, materializou-se em frente à embaixada brasileira. Tudo teria saído da cabeça do hondurenho, com a ajuda prestada pelo venezuelano Hugo Chávez.

A ser verdade tal relato, há então uma triste constatação: a extrema inoperância de diplomatas, assessores presidenciais, congressistas especializados em assuntos internacionais e agentes da Abin. Muitos deveriam acompanhar os passos de Zelaya e de Chávez, mas não foram capazes da apurar a trama -na hipótese, é claro, de o Brasil ter sido apanhado de surpresa.

Há 583.367 funcionários públicos federais no Poder Executivo brasileiro. No Congresso, são 24.608 pessoas à disposição de deputados e de senadores. Ninguém teria sido comissionado para tomar ciência do que se passava e antecipar a montagem da operação.

Completa esse enredo de despreparo e improviso a viagem de uma missão de deputados brasileiros a Honduras. Devem partir na terça-feira. O objetivo é ajudar a resolver o impasse. Essa iniciativa congressual, quase uma peça de humor involuntário, é a ação mais concreta oferecida até o momento pelo Brasil -deputados brasileiros zanzando pelas ruas de Tegucigalpa.

O bobo de Chávez Ricardo Noblat

O GLOBO

O que pode ser pior? Acreditar que Lula foi de fato surpreendido com a chegada à embaixada do Brasil em Tegucigalpa do presidente deposto Manoel Zelaya? Ou imaginar que a volta de Zelaya ao seu país foi uma operação do consórcio Brasil-Venezuela? Coube a Hugo Chávez despejar a carga nos jardins da embaixada. A Lula, abrigá-la em segurança.

Ajeita daqui, ajeita dali, ficou assim a história oficial da mixórdia contada com pequenas diferenças por Chávez, Zelaya e porta-vozes informais de Lula. Na manhã da última segunda-feira, Xiomara Castro, mulher de Zelaya, procurou Francisco Catunda, o encarregado de negócios da embaixada do Brasil em Honduras e única autoridade ali presente.

Por escolha pessoal, Catunda é um diplomata de terceiro escalão que está perto de se aposentar. Poderia ter sido embaixador. O poeta João Cabral de Melo Neto, por exemplo, foi embaixador em Honduras. Catunda, porém, truncou sua própria carreira ao recusar cargos que o levariam a servir em locais distantes do Ceará, onde nasceu. É fissurado em Fortaleza.

Para genuíno espanto de Catunda, Xiomara lhe disse que Zelaya estava dentro de um carro a poucos metros da sede da embaixada. Em seguida, orientou-o a consultar seus superiores sobre o desejo de Zelaya de obter refúgio. Catunda telefonou para Brasília, que por sua vez alcançou Lula voando para Nova Iorque. Depois do susto, Lula respondeu: tudo bem.

A se acreditar na história oficial, portanto, Chávez armou para cima de Lula. Com meios fornecidos por ele, Zelaya tentara antes duas vezes regressar a Honduras. Da primeira só conseguiu sobrevoar o aeroporto de Tegucigalpa em avião cedido por Chávez. Da segunda foi barrado na fronteira com El Salvador. Fez uma graça, tomou uns tragos e foi embora.

Quem anunciou triunfante o paradeiro de Zelaya uma vez instalado na embaixada do Brasil? Chávez, ora. De duas, uma: ou faltou coragem a Lula para dizer algo do tipo “ninguém empurra nada goela abaixo do Brasil” e negar hospedagem a Zelaya, ou ele concluiu rapidamente que seria uma boa virar um dos protagonistas da crise hondurenha.

Por que Chávez não mandou Zelaya para a embaixada da Venezuela? Porque sabe que não conta com a simpatia internacional – Lula conta de sobra. Por que não mandou Zelaya para a embaixada dos Estados Unidos? Porque lá ele só seria acolhido na condição de asilado. E asilado tem de obedecer a regras seculares de asilo. Uma delas: manter o bico fechado.

Zelaya transformou a embaixada do Brasil na casa da mãe Juanita. Um dia depois de sua chegada, a embaixada estava ocupada por cerca de 300 partidários dele, incluídos guarda-costas armados, uma equipe de televisão da Venezuela, outra de uma rádio local e, sim, um blogueiro norte-americano. Blogueiro é uma praga. Está por toda parte.

Lula deu ordem a Zelaya para não fazer conchavos dentro da embaixada. Brincou, não foi? Como não pode fazer do lado de fora, e como está na embaixada justamente para fazer conchavos capazes de lhe restituir o poder, Zelaya ignorou a ordem de Lula. Passou a conceder audiências a quem o procura. E a dar dezenas de entrevistas diárias.

O dono do pedaço é Zelaya. O Brasil emprestou sua soberania para que Zelaya tente derrubar o governo que substituiu o dele. Se a história oficial for mentirosa, se existirem de fato manchas verdes e amarelas na operação de retorno de Zelaya a Honduras, o Brasil deu uma de país imperialista interferindo diretamente nos assuntos internos de outro país.

Mas se a operação carregou com exclusividade as cores da Venezuela, por mais que me doa à alma isso significa dizer que Chávez fez Lula de bobo (nada de inédito). Pois ao fim e ao cabo, o resultado será o mesmo: a interferência nos assuntos internos de Honduras do Brasil candidato a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, o país do “cara”, do pré-sal e da marolinha vencida vapt-vupt.

domingo, setembro 27, 2009

Dialética da banana JOÃO UBALDO RIBEIRO

O Globo

Enganam-se os apressados ou levianos, se pensarem que em Itaparica nós não acompanhamos de perto os acontecimentos nacionais. Foise o tempo em que as notícias chegavam com um certo atraso, como ocorreu, para citar somente um caso, logo depois da Independência.

D. Pedro deu o brado retumbante em 1822, mas se esqueceram de avisar à portuguesada do Recôncavo e, em 1823, tivemos de sair no braço para garantir os raios fúlgidos, nunca nos deram moleza. Agora é diferente, agora a gente vai de internet e não é possível mais contar nos dedos o número de estabelecimentos especializados de que já dispomos. Ouço até dizer que o multimilionário Gugu Galo Ruço está à frente de um empreendimento revolucionário, a AxeWeb, mas ele não revela detalhes, apenas ri — o que não quer dizer nada, pois desde tempos imemoriais que se sabe que rico ri à toa.

Não tenho certeza de que os recursos de hoje nos põem em melhores condições que as de 1822. Esse negócio de estar sempre por dentro dos acontecimentos é, passe o lugarcomum, uma faca de dois legumes.

A sucessão dos acontecimentos, cada vez mais veloz, é muito estressante.

Além disso, o acúmulo de informações, às vezes conflitantes ou de exegese dificultosa, inevitavelmente gera mal-entendidos, alguns deles de certa monta. É o que eu soube, através de conversa telefônica havida com meu amigo Toinho Sabacu. Ele me falou de problemas na ilha, causados pela entrada em vigor de uma lei paulista muito divulgada nos noticiários de tevê, a já famosa lei segundo a qual não se pode vender nem comprar banana à dúzia, mas a quilo.

Inicialmente, por um erro de interpretação, circulou no bar de Espanha, cenáculo onde se desenrolam alguns dos debates mais momentosos da ilha, a versão segundo a qual, doravante, estava valendo no grande estado de São Paulo, Deus tivesse piedade de nós, a lei da banana. Ou seja, escreveu não leu, leva uma banana bem dada.

Houve quem ponderasse que isso devia ser uma coisa circunscrita a políticos, que doravante passariam a apartear-se ou a debater entre bananas para lá e para cá — olhe aqui pra Vossência, tome aqui, Excelência etc. Coisa seriíssima, ainda mais quando se sabe que o paulista não brinca em serviço e é capaz até de entrar num curso para aprender a melhormente dar bananas. As consequências para a nossa vida política seriam incalculáveis. E a discussão já ameaçava atiçar fogo aos ânimos, quando Zecamunista, sempre atualizado e certeiro, chegou de sua turnê de carteado e esclareceu tratar-se somente da fruta mesmo.

— Atenção! — acrescentou ele. — Vou aproveitar para dar uma aula de materialismo dialético! Houve quem pensasse que ele ia falar no materialismo de Arlete e quisesse logo saber quem era ela e se era dessas comunistas safadas que dormem com todo mundo. Materialista, sabe como é, é mais até do que existencialista e este último tipo, vamos e venhamos, é o da Chiquita Bacana. Xepa, sempre um exemplo de sensibilidade e boa educação, chegou a sugerir que se inquirisse com discrição se não haveria entre os presentes algum parente ou amigo dessa Arlete, que pudesse melindrar-se com um comentário ou outro. Mas logo esse ponto também se elucidou e todos silenciaram, porque se pode discordar das ideias de Zecamunista, mas não se pode negar que é um crânio respeitado.

— O velho Carlos Marques na cabeça mais uma vez! O que os senhores presenciaram é mais uma demonstração clara de que a economia é o grande motor da História! — Motor de popa, Zeca? — Pode até ser. Eu posso até usar essa imagem. A economia é o motor de popa da História.

— A história da banana, Zeca? — A história da banana, isso mesmo.

Aparentemente, é uma tentativa de proteger o consumidor, não é? A classe dominante se preocupa com consumidor, não é? Nunca, meus caros senhores! Não há caso, é impossível! O que aconteceu foi uma vitória do lobby antibananinha, do agronegócio imperialista! Agora ninguém mais vai vender aquela bananinha pequenininha, aquela mais saborosa, porque é preciso juntar muitas para conseguir um quilo, vai dar prejuízo ao feirante, a começar pelo transporte. Acabaram com a bananinha, acabaram com o pequeno produtor, agora só vai ter daquelas bananonas de americano, a banana má expulsa a boa do mercado. Quem quiser comer bananinha em São Paulo vai ter que sair do estado, ou então recorrer ao mercado negro de banana proibida.

Senhores, o paulista que comprar bananinha em dúzia para comer em casa estará levando a família à ilegalidade! A que ponto chegará a opressão? A que ponto chegará a ousadia dos plutocratas? A essa altura, o orador foi interrompido, por um quase tumulto.

Vindo lá de dentro, Espanha manifestou sua estranheza em relação ao vocabulário empregado, no que foi apoiado pela maioria. Zeca se encontrava arroubado demais, destemperado demais, estava certo que denunciasse quem quisesse, vivemos numa democracia, mas chamar os caras de putocratas já era um pouco demais, tirava a razão do denunciante. Ele fez menção de que ia protestar, mas acabou concordando.

— Tudo bem — disse ele. — De qualquer maneira, não é com essa banana que eu estou preocupado.

— E existe outra banana para causar preocupação? — Pois é, a gente nem sente mais, não é? É essa a minha preocupação.

MARIANO GRONDONA El estatismo, una elección equivocada

Uno de los pasajes más citados de La democracia en América , el libro que Alexis de Tocqueville publicó en 1834, es el siguiente: "Para alcanzar su fin, el norteamericano descansa en el interés personal y deja obrar, sin dirigirlas, la fuerza y la razón de los individuos. El ruso concentra de alguna manera en un hombre todo el poder de la sociedad. El uno tiene como principal medio de acción la libertad; el otro, la servidumbre. Su punto de partida es diferente, sus caminos son diversos; sin embargo, los dos parecen llamados por un secreto designio de la Providencia, a tener en sus manos los destinos de la mitad del mundo".

Esta es la famosa "profecía de Tocqueville". Ella alcanzó su máxima vigencia en tiempos de la Guerra Fría entre la democracia norteamericana y la Unión Soviética porque, pese a que el zar que tenía en cuenta Tocqueville al formularla había sido reemplazado por el Partido Comunista, el estilo ruso de la concentración del poder en el Estado no había cesado y hasta se podría decir que aún hoy, ya bajo Vladimir Putin, Rusia no ha abandonado esa antigua inclinación por el estatismo que, bajo diversas formas y en diversos países, sigue oponiéndose al liberalismo como la clave alternativa del progreso humano. La centenaria profecía de Tocqueville podría traducirse ahora diciendo que dos doctrinas fundamentales, el liberalismo y el estatismo, siguen su vieja disputa bajo nuevas formas "en la mitad del mundo". Desde la izquierda se llama ahora "neoliberales" a los liberales para sugerir que su pecado de origen es hoy mayor aún que antes porque, por seguir creyendo tozudamente en la primacía de la libertad, se han convertido en "reincidentes".

Las dos Argentinas

Desde la Constitución de 1853 hasta el golpe militar de 1930, los argentinos creyeron en la libertad. En este período de ochenta años, nuestro país pasó de ser un desierto improductivo a figurar entre las diez naciones con más alto producto per cápita del mundo, atrayendo a millones de inmigrantes del Viejo Mundo a quienes el Estado no les prometía ningún subsidio, ningún Plan Trabajar, pero les aseguraba en cambio que todo aquello que ganaran con el sudor de su frente no les sería arrebatado por un Estado invasor, por el "ogro filantrópico" del que hablaba Octavio Paz. Durante los ochenta años que han transcurrido del 30 a hoy, nuestro país ha retrocedido desde aquellos diez primeros puestos hasta el lugar número 68 que ahora ocupa en cuanto al producto per cápita de las naciones. ¿Tendrá algo que ver este descomunal retroceso con el hecho de que nuestra creencia fundamental haya dejado de ser "liberal" para convertirse en "estatista"?

El gobierno de los Kirchner encarna una exageración, casi una caricatura, del estatismo. Pero nuestro retroceso ya provenía de antes. Aún hoy, hay señales significativas de que el estatismo no se limita a la desmesura de nuestros actuales gobernantes. Así lo ha demostrado el apoyo que encontraron en el Congreso no sólo un proyecto claramente estatista como la confiscación de los ahorros que los futuros jubilados habían depositado en las AFJP, sino también la holgada mayoría que logró en la Cámara de Diputados el proyecto de ley de medios audiovisuales, una mayoría que habría sido imposible sin el amplio concurso de legisladores socialistas y de centroizquierda hasta ese momento tenidos, sin embargo, por no kirchneristas.

Esta semana el ministro de la Corte Suprema Carlos Fayt dio a entender que este último proyecto podría chocar con dos artículos de nuestra Constitución: el famoso artículo 14, que incluye entre los derechos fundamentales de los argentinos el de "publicar sus ideas por la prensa sin censura previa", y el artículo 32 que prescribe que "el Congreso federal no dictará leyes que restrinjan la libertad de imprenta o establezcan sobre ella la jurisdicción federal". Fayt aludía aquí a la libertad de expresión, uno de los derechos amparados por esa fe en la libertad que inspiró largamente a nuestro país desde 1853.

Lo que más llama la atención es que, pese a criticar el burdo intento de los Kirchner de controlar la opinión pública mediante la nueva ley de medios, casi todos los legisladores opositores han declarado, al margen de aquellas fulminantes prohibiciones constitucionales, que están de acuerdo con que "debe haber alguna ley de medios", aun cuando no coincidan con la que promueve concretamente el oficialismo. Lo cual nos lleva a esta pregunta inquietante: más allá de los Kirchner ¿no está siendo reemplazada entre nosotros la fe en la libertad por la fe en el Estado?

Los dos agravios

Incluso cuando rechazó en el Senado la famosa resolución 125, la oposición casi no tuvo en cuenta el verdadero reclamo de los productores, que no era sólo bajar o modificar las retenciones sino suprimirlas por invadir otro de nuestros grandes derechos olvidados, el derecho de propiedad, en virtud del cual los granos, la leche y la carne "son", por lo pronto, de quienes los producen, y que está siendo reemplazado por una política de subsidios cuya meta real es someter los productores al Estado.

Hay dos agravios, por ello, para analizar. Uno es la insaciable sed de poder del kirchnerismo, a la que también critica la oposición. El otro es la creencia de que el Estado debe controlarlo todo. Parecería que, al declarar casi unánimemente que debe haber alguna ley que regule las fuentes de la información y la opinión en los argentinos, también los opositores han venido a reconocer que no conciben ya que alguna zona de nuestra vida en común pueda eludir el paternalismo estatal. ¿Hasta qué punto subsiste entre nosotros, por lo visto, la fe en la libertad? Al referirse a ella, lo que quiso decir Tocqueville es que, allí donde ella rige, la sociedad no confía en progresar por la acción supuestamenmte benigna del Estado sino por el imperio necesariamente imprevisible e incontrolable de la libertad, esto es, de la iniciativa de cada cual.

Así fue como progresaron no solamente la Argentina sino también los países que, adhiriendo aún a la libertad, llevan la delantera del desarrollo político y económico ya sea en América del Norte, en Europa, en Asia, en Oceanía o en nuestra propia América, y ya se llamen Brasil, México, Chile, Perú o Uruguay. Es verdad que la energía incomparable de las libertades personales está hoy más regulada que antes, pero aun en la grave crisis del capitalismo que hemos atravesado, la intervención estatal ha sido percibida más como un "auxilio" a las empresas privadas que como su asfixia y sustitución por el Estado, tal como ha ocurrido entre nosotros. Por eso el capital privado, que quizá sea cobarde pero que no es tonto, huye hoy de la Argentina para refugiarse en las naciones de punta que lo siguen albergando.

El paso de los argentinos de la fe en la libertad a la fe en el Estado, ¿está entonces en la base de nuestros problemas? Lo que detiene nuestro desarrollo, ¿no es en consecuencia la iniciativa privada sino el hecho de que muchos argentinos ya no creen en ella porque han transformado su imagen desde la de esa energía creadora a la que alguna vez dejaron ser por la idea de que toda iniciativa privada tiende al monopolio y debe ser, por lo tanto, contrarrestada?

Hay dos causas por las que nos ha ido mal. La más saliente, pero la menor, es el abuso de poder del estatismo kirchnerista. La menos saliente, pero en el fondo la mayor, es que los argentinos hemos venido acudiendo desde hace décadas al estatismo en lugar del liberalismo, un remedio que ha probado ser peor que la supuesta enfermedad a la que prometía curar.

Joaquín Morales Solá Un país entre la furia y el error

Néstor Kirchner aborrece a los piqueteros de izquierda, pero su problema es que tiene piqueteros amigos. La autoridad moral se desvanece entonces. Cristina Kirchner aspira hasta con sobreactuados gestos a llevarse bien con Barack Obama, pero nadie le dijo nunca cuáles son los reclamos de la actual administración norteamericana. El matrimonio presidencial dice que quiere enterrar una ley de la dictadura, la de radiodifusión vigente, pero los potenciales cerrojos que encierra su proyecto audiovisual son construcciones perfectas de ideas autoritarias. Esas discordancias permanentes están construyendo un país que bascula entre la furia y el error.

La vida en la Capital fue insufrible en la semana que terminó y nada garantiza que sea mejor en la que se inicia. Es cierto que un juez ordenó el desalojo de la empresa alimenticia Kraft, en la provincia de Buenos Aires, pero también es cierto que antes ya había amenazado con esa decisión el propio jefe de Gabinete, Aníbal Fernández. La división entre los poderes es siempre difusa y confusa. Fue, hay que admitirlo, una decisión política. Desde sus tiempos en Santa Cruz, Kirchner detesta al piqueterismo que lo corre por izquierda. No lo maneja, desafía su autoridad y lo sorprende en los momentos más inoportunos.

Setenta empleados despedidos de esa empresa (muchos otros habían aceptado las condiciones de las cesantías) lograron que durante una semana el tránsito enloqueciera en la Capital. También uno de los accesos más importantes a la Capital, la ruta Panamericana, estuvo permanentemente cortado o amenazado de cortes. El propio jefe de la CGT, Hugo Moyano, y el titular del sindicato de la alimentación, Rodolfo Daer, habían tomado distancia de la rebelión. La comisión interna de la empresa está liderada por expresiones de izquierda que no responden a ellos ni al kirchnerismo. Kirchner llamó personalmente a Moyano y a Daer para que se expresaran o contuvieran el conflicto; éstos sólo pudieron hablar, pero no consiguieron cambiar el curso de los hechos.

Tampoco los piqueteros amigos pudieron hacer nada. Kirchner perdió la oportunidad de restablecer una noción del orden público cuando eligió a algunos piqueteros como fuerzas de choque propias. Las sigue cultivando. El senador radical Gerardo Morales denunció en los últimos días que el interventor del Comfer, Gabriel Mariotto, fue a su provincia, Jujuy, para entregarle una frecuencia de radio FM a una agrupación de piqueteros amigos del Gobierno.

¿Por qué los piqueteros de izquierda deberían aceptar la disciplina cuando algunos colegas oficialistas caminan sobre las alfombras del poder? ¿Por qué algunos empleados en conflicto deberían acatar la autoridad laboral si ésta es una mera formalidad desde hace mucho tiempo? Digan lo que digan, la Argentina nunca se repuso de las anormalidades de la gran crisis de principios de siglo.

Un piquetero amigo del Gobierno, Luis D´Elía, aceptó públicamente que en 2005 introdujo en el país un millón de dólares en efectivo, que traía desde Cuba para financiar la contracumbre de Mar del Plata. Los Kirchner deberán hacer mucho más para limpiar ese viejo estigma en Washington. Después de la cumbre americana de Mar del Plata, ningún presidente norteamericano, ni Bush ni Obama, aceptaron una reunión bilateral con Néstor ni con Cristina Kirchner. Alfonsín, Menem, De la Rúa y el propio Kirchner, antes de aquella desastrosa cumbre, fueron recibidos por los presidentes norteamericanos en la Casa Blanca y en las Naciones Unidas.

Los esfuerzos de la diplomacia argentina para subrayar los encuentros protocolares o los diálogos de ocasión entre Obama y Cristina, en el marco de reuniones multilaterales, sólo resaltan la importancia de lo ausente. La presidenta argentina es la única mandataria americana que integra el G-20 y que nunca tuvo una reunión a solas con Obama. Los otros tres (los mandatarios de Canadá, Brasil y México) fueron recibidos en visitas oficiales en Washington, interesados como están los norteamericanos para que exista en esas reuniones una posición americana común.

Ustedes creen que actuaron contra un presidente norteamericano y nosotros creemos que actuaron contra los Estados Unidos . La frase corresponde a un importante funcionario de Obama, decisivo en cuestiones latinoamericanas, y se refería a lo que el kirchnerismo hizo en la cumbre marplatense delante de Bush. Un empinado diplomático argentino lo escuchó, pero no transmitió el mensaje a Buenos Aires porque temió ser despedido en el acto.

El mismo funcionario norteamericano reclamó que en la cumbre de Trinidad y Tobago, la primera de la era Obama en abril último, la Argentina no repitiera la experiencia de Mar del Plata, que estuvo inspirada por la impronta de Hugo Chávez más que por los intereses nacionales argentinos. No hubo caso. Cristina Kirchner habló durante 45 minutos en Trinidad y Tobago de las supuestas bondades de la reunión de Mar del Plata delante de Obama. Fue una melodía para Chávez, que estaba ahí, y una decepción para Obama, que también estaba.

¿Por qué entonces Cristina se desespera por tener una buena relación con Obama si no está dispuesta a deshacer los desbarajustes de su marido? Ni siquiera necesitaría hacer alianzas automáticas con los Estados Unidos; el Washington de Obama no le pide eso. De hecho, Lula habla por teléfono con Obama una vez al mes, por lo menos, y el presidente brasileño no es un hombre dócil con Washington ni con todos sus intereses. Sólo es confiable en lo que verdaderamente importa.

Nada es confiable ni serio en la Argentina de estos días. Mariotto mostró en el Senado que no está a la altura de un proyecto que eventualmente regulará la relación del poder con los medios audiovisuales. El bloque radical lo arrinconó sin salida con simples preguntas de sentido común. ¿Sabía Mariotto que su proyecto de ley tumbaba de hecho los recientes decretos de Cristina sobre la elección de la norma digital japonesa y la creación del sistema satelital de televisión pública?, le preguntó el radical Ernesto Sanz. Mariotto no sabía que una ley es superior a un decreto.

Mariotto es una creación del secretario de Medios, José Albistur, pero el jefe del Comfer hizo luego su propia carrera diciéndoles a los Kirchner lo que ellos quieren escuchar. El matrimonio presidencial está buscando la forma de presionar al senador peronista Guillermo Jenefes, convertido en un obstáculo serio para la aprobación rápida y total del proyecto. Sin la firma de Jenefes no habría dictamen de la Comisión de Presupuesto y Hacienda para habilitar el debate en el plenario del Senado. Jenefes ya anticipó que no firmará ese dictamen si no se le introducen varios cambios al proyecto. Los cambios son inexorables hasta ahora.

Juristas peronistas les anticiparon a sus senadores que la única manera de respetar los derechos adquiridos consiste en que los cambios de las reglas del juego se vayan aplicando en la medida que caduquen las licencias actuales de radio y televisión. Pero ese sería un golpe al corazón del proyecto kirchnerista, que quiere desguazar en el corto plazo de un año todo lo que existe.

Otros senadores empiezan a hurgar en los artículos de la libertad amenazada. ¿Por qué el Gobierno debería conocer previamente los contenidos de los medios? ¿Por qué en manos del Gobierno, un régimen de sanciones absolutamente discrecional y arbitrario, tan malo como el de la dictadura? ¿Por qué el Poder Ejecutivo nacional se haría cargo de licencias, de sanciones y de cancelaciones de licencias en las ciudades de más de 500.000 habitantes? ¿De qué serviría, en tal caso, un órgano de control democrático, si es que lo hubiera? ¿De qué serviría, en efecto, si los que mandan han sido capturados por un mundo que se mece entre la furia y el error?

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