Entrevista:O Estado inteligente

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domingo, agosto 21, 2011

Em time que está ganhando... FERREIRA GULLAR

Folha de S Paulo

E logo me ocorreu a hipótese de que se trata de pôr em prática o princípio abstrato de liberdade...


Li com espanto, algumas semanas atrás, que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, pretendia retirar as grades que cercam algumas praças da cidade. Mas por que isso -me perguntei- se essas praças se tornaram, depois que puseram as grades, locais tranquilos e limpos?
E logo me ocorreu a hipótese de que se trata de pôr em prática o princípio abstrato de liberdade... Essa é uma expressão que cunhei para definir uma nova mania que se instalou na cabeça de alguns e que pode ser definida como a eliminação total de qualquer medida restritiva a qualquer coisa.
Voltamos aos anos 70, quando se inventou o lema "é proibido proibir". Menos explicitamente, adota-se a mesma atitude em face de tudo o que pareça cerceamento ou repressão. Assim, há quem se oponha a que a prefeitura do Rio recolha meninos que fumam crack na rua.
O argumento é que são levados, contra sua vontade, para lugares onde não há assistência médica de qualidade, nem terapeuta, nem... Conclusão: melhor mesmo é deixá-los na rua, gozando de plena liberdade. Imagino que alguém meteu na cabeça do prefeito que praças cercadas são antidemocráticas...
Sabem por que penso isso? Porque, décadas atrás, quando o prefeito de então decidiu cercar as praças com grades, logo surgiram os defensores do princípio abstrato da liberdade para alegar que aquilo era contra o direito de ir e vir e, logo, atentava contra a liberdade dos cidadãos. Agora vejam vocês, eu que moro aqui em Copacabana, perto da praça Serzedelo Corrêa, fiquei estarrecido: a praça havia se tornado um valhacouto de vagabundos, mendigos, drogados e assaltantes.
Ninguém usava a praça para nada. Levar crianças para brincar ali, nem pensar. Só os desavisados se atreviam a cruzar a praça certas horas, particularmente depois que anoitecia. O mesmo se podia dizer da praça do Leme, que fica algumas quadras adiante.
Apesar dos protestos, o prefeito não voltou atrás e mandou cercar as praças com grades, com amplos portões que permitem o livre trânsito das pessoas. Graças a isso, elas voltaram a ser áreas de lazer, hoje frequentadas particularmente por crianças e idosos.
A praça do Leme, por onde passo com frequência, tornou-se um lugar tranquilo, onde o pessoal se reúne para conversar, jogar dama e xadrez, enquanto as crianças correm e brincam alegremente.
A praça Serzedelo, a mesma coisa. Já cansei de cruzá-la à noite sem nenhum temor. Nem se tem notícia, em todos estes anos, de qualquer assalto ocorrido ali. Então, cabe perguntar: por que acabar com o que deu certo e voltar à situação anterior, que deu errado?
Um dos argumentos usados para retirar as grades das praças é que isso já tinha sido feito na praça Tiradentes, com ótimo resultado. Li essa notícia e não me convenci, já que ando pela cidade e vejo mendigos espalhados por todo canto, deitados nas calçadas em ruas de menor movimento. Aqui, na minha rua mesmo, nos fins de semana, quando o comércio está fechado, várias calçadas são ocupadas por pessoas que ali dormem em cima de plásticos ou colchões velhos, que carregam consigo.
Só não se instalam definitivamente ali porque, ao recomeçar a semana, as lojas abrem e eles são obrigados a sair. Mas, nas praças, não há lojas, a área é ampla, o policiamento precário, e por isso eles ali se instalam definitivamente. E é o que já está acontecendo na praça Tiradentes: ao contrário do que afirmavam os defensores do princípio abstrato da liberdade, os mendigos tomaram conta da praça, poucos dias depois de retiradas as grades.
Sei que o prefeito Eduardo Paes tem espírito público, trabalha para melhorar as condições de vida na cidade. Quando escrevi aqui a respeito de uma rua no bairro de Anchieta, zona oeste do Rio, que se tornara um buraco só, ele me telefonou e se dispôs a mandar consertá-la.
Isso faz talvez um ano, mas a obra foi feita e a rua está praticamente pronta, asfaltada, com as instalações de água e esgoto recuperadas. É verdade que um vereador cara de pau -que nestes 20 anos nem sequer reparara na buraqueira da rua- já estendeu ali uma faixa se dizendo autor do milagre. Mas isso pouco importa, há gente para tudo, particularmente no campo da política. Importa é que se faça o que deve ser feito, visando o bem-estar e a segurança das pessoas.

Acelera, Dilma DANUZA LEÃO


Folha de S Paulo


Em sua nova fase, Dilma deveria apontar seu dedo ameaçador aos políticos que só pensam em emenda

A PRESIDENTE está surpreendendo. Sua fama era de competente e durona, mas de não saber fazer política, ser incapaz de negociar.
Pois a "saída" do ministro da Agricultura foi uma surpresa.
Ela conseguiu o que queria -se livrar de Wagner Rossi-, na moral, sem precisar bater de frente com o PMDB. Palmas para ela, e vexame para sua "base de apoio"-aliás, apoio a eles mesmos-, cujos deputados sumiram quando souberam do desfecho.
Em seu discurso de posse, a presidente estendeu a mão à oposição, coisa que há oito anos não acontecia; agora, dez senadores (só dez!) -todos de reputação inatacável- fizeram um gesto em direção a Dilma, oferecendo a ela apoio, para que a faxina continue.
Aceite, presidente; é uma boa hora para fazer novas amizades e se firmar como grande brasileira.
Nos encontros que tem tido com Lula, em diversas bases aéreas do país, imagino os conselhos que Dilma recebe. A governabilidade acima de tudo etc. etc., e 2014, claro.
A presidente parece obediente, mas sabe muitíssimo bem o que é certo e o que é errado, seu mestre foi Brizola; será que algum dia sonhou que teria que se reunir com Michel Temer e José Sarney, para "sentir" se podia ou não demitir um ministro apadrinhado por eles? Afinal, não foi para isso que Dilma abriu mão de sua juventude, que foi presa e torturada.
Seu dever de lealdade é, em primeiro lugar, para com os que a elegeram, e só depois a Lula, isso se achar que deve; afinal, a presidente é ela, eta herança mais maldita.
Ela não precisou dar um murro na mesa para se livrar dos dois ministros que já se foram; ainda faltam alguns, é verdade, mas ela é mineira, tem paciência para esperar a hora certa. Caindo o terceiro ministro desta leva, que está quase, Dilma podia aproveitar o embalo e diminuir o número de ministérios, começando pelo da Pesca, que não dá para entender.
Com os acontecimentos da semana, a próxima pesquisa deverá ser mais favorável, e em sua nova fase ela deveria apontar aquele seu dedo ameaçador diretamente aos políticos que só pensam nas emendas, as famosas emendas.
Depois do deslumbramento inicial, aliás compreensível, fantasio que às vezes Dilma pense "por que eu fui me meter nessa?"
Cercada pela sua falta de experiência política, e vigiada de perto por Gilberto Carvalho, que dá os recados de Lula, sua vida não deve ser fácil.
Aliás, o que teria feito Lula com essa crise nos ministérios? Faria um discurso bem popular, esbravejando, como sempre, e diria que a culpa era toda da imprensa. Aliás, é bom lembrar que, se não fosse a imprensa, Palocci ainda seria o ministro mais poderoso do governo.
Estou começando a confiar mais em Dilma, e adoraria poder elogiar coisas que ela faz mais vezes, muitas vezes. Mas vamos combinar: cada vez que ela fala, é um desastre; decididamente, nossa presidente não nasceu com o dom da palavra.
E nem precisa; basta fazer o que deve, o que é certo.

danuza.leao@uol.com.br

Gritos e sussurros na economia VINICIUS TORRES FREIRE

Folha de S Paulo

'Políticos' e economistas do governo divergem sobre gastos; BC e mercado não se entendem sobre a inflação


A EQUIPE ECONÔMICA de Dilma Rousseff parece decidida a economizar em 2012 tanto como em 2011. Ou seja, fazer um superavit primário de uns 3% do PIB (diferença entre receita e despesa de 3% do PIB, descontados os gastos com juros).
É o que diz em público o ministro da Fazenda, Guido Mantega. É o que praticamente diz a ministra do Planejamento, Miriam Belchior. É o que pede o povo do Banco Central.
A gente ouve nos corredores dos ministérios que a intenção da equipe econômica é mesmo esta: manter o superavit em 2012. Isto é, excetuadas situações muito favoráveis ou catastróficas na economia brasileira e, em especial, na do mundo.
Além de manter a dívida pública em queda e apresentar contas em ordem, a intenção dos economistas de Dilma com o aperto fiscal é induzir queda mais rápida dos juros.
Mas o jornal "Valor Econômico" deu na sexta-feira passada que assessores próximos de Dilma Rousseff, ministro inclusive, acreditam que o aperto fiscal será menor no ano que vem, a fim de liberar mais dinheiro para investimentos. Ainda segundo o mesmo relato, a redução de juros seria muito cautelosa.
De fato, a gente ouve num corredor do Planalto que "o Brasil não pode parar". Mais, que a presidente tem "restos a pagar" para a sua coalizão, além de "demandas atrasadas da sociedade para atender".
A ideia de que a presidente precisa afrouxar o controle de gastos devido à política é transmitida de modo muito mais sutil e indireto do que sugere o parágrafo anterior, mas esse é o tom geral da conversa.
O governo apenas está cumprindo sua meta fiscal neste ano devido ao aumento real de mais de 12% da receita (descontadas aquelas extraordinárias) e também à contenção de investimentos, o que é ruim mas inevitável no curto prazo, dado o engessamento das despesas.
A receita vai crescer tanto assim em 2012? Note-se, além do mais, que muito "afrouxamento" de gasto já foi contratado para o ano que vem.
Em 2012, haverá o aumento do salário mínimo e da despesa social relacionada. Haverá a perda de receita com reduções de impostos da dita política industrial. Haverá, em tese, mais programas sociais.
O que quer enfim o governo?
O BC parece contar com o aperto fiscal e a crise em fogo médio no mundo rico para ver a meta de inflação chegar a 4,5% em 2012. O BC acha que a inflação baixaria a uns 4,8% em abril de 2012.
Para chegar aos tais 4,8% em abril, a inflação teria de ser de uns 0,37% em agosto e de 0,50% por mês até dezembro (por que tais números? São as previsões de economistas mais certeiros no setor privado). E, de janeiro a abril, teria de ser em média de 0,37% (aliás, taxa mensal compatível com a meta anual de 4,5%). Gente boa no mercado acha que, no primeiro quadrimestre de 2012, a inflação andará pela casa de 0,6% ao mês. Assim, o IPCA ainda estaria na casa de 5,7% em abril. Isso com juros, Selic, a 12,75%.
É tudo "chute informado"? É. Difícil saber o que será dos crescimentos mundial e brasileiro, do preço de commodities, dos reajustes de salários no final deste ano etc. O que se sabe é que tamanho descompasso entre "políticos" e economistas do governo e entre governo e mercado não vai ajudar a "coordenar as expectativas" de modo a estabilizar a economia. Ruído demais.

Jogo de cena FERNANDO DE BARROS E SILVA


SÃO PAULO - A imagem de Dilma ao lado de líderes tucanos no Palácio dos Bandeirantes, na quinta, provocou comentários entusiasmados sobre o significado dos afagos entre a presidente e a oposição. Seria bom ir devagar antes de tirar maiores consequências desse convescote que reuniu os Montecchio e os Capuleto da política nacional no lançamento do programa Brasil Sem Miséria na região Sudeste.
Não é muito difícil mapear as motivações de cada um. A Alckmin interessava associar seu governo e sua figura à área social, sobretudo ao Bolsa Família, marca do PT. Ele e Anastasia não têm, além disso, nenhum motivo para criar atritos com o governo federal, do qual dependem. Por isso, o anfitrião se derramou em mesuras para Dilma.
As pessoas se esquecem, mas Lula, presidente, e Serra, governador, também trocavam gentilezas em público. Elas cessaram na campanha, para o infortúnio do tucano.
FHC encontrou em Dilma uma aliada insuspeita para recompor a imagem histórica de seu legado, aviltado anos a fio por petistas e tucanos, a começar por Serra.
E Dilma, desde o início, percebeu que poderia se beneficiar de contrastes em relação ao estilo de Lula. Ao distensionar as relações com a oposição e com a imprensa e ser identificada como alguém que quer moralizar a política, a presidente caiu no gosto das classes médias.
Nem Aécio nem Serra têm razões para gostar do cortejo que FHC e Alckmin fazem à "presidenta". Nem Lula nem o PT aprovam a deferência de Dilma a certo tucanato. São os interesses conflitantes dentro de cada campo de poder.
Não se imagine, porém, que corremos o risco de ver uma aliança política entre o Planalto e os tucanos em torno da "faxina ética". Esse namorico é retórico e não vai além da troca de amabilidades. As eleições municipais logo nos lembrarão quem está com quem e qual é o jogo na vida real. O resto, como diria aquele dramaturgo, são sonhos de uma noite de verão.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Tea Party e quadro político nos EUA ROBERTO ABDENUR

Folha
Os EUA se encontram numa encruzilhada: ou se reelege Obama ou o país cairá em situação de descaminho

MUITO se fala do movimento Tea Party como protagonista do impasse ocorrido no processo decisório em Washington sobre as questões econômicas que hoje assolam os EUA.
Com boa razão, pois o Tea Party teve não pequena responsabilidade pela eclosão da atual crise econômica internacional. Ao encurralar o Partido Republicano em postura ideológica emocional -ou irracional, se se preferir- na exigência unilateral por redução drástica de gastos, com repúdio incondicional a qualquer aumento de impostos para os mais ricos, gerou impasse capaz de levar a inédita paralisia no processo decisório nos EUA.
Menos analisadas têm sido as consequências desse movimento para a evolução do quadro político americano. Após o movimento à direita sob George W. Bush, reforçado pelos ataques do 11 de Setembro, deu a sociedade americana, com a eleição de Obama, guinada em direção à centro-esquerda.
O "yes, we can" representava a aspiração pelo aprofundamento do velho sonho liberal de uma sociedade mais justa, mediante ações governamentais no combate à pobreza, na redução da (crescente) desigualdade social e na promoção de melhores oportunidades para todos.
A busca de retorno a uma sonhada "True America" -um país com governo mínimo, desenfreado "laissez-faire" e forte componente religioso baseado em doutrinas da ala evangélica mais radical- tem hoje forte ressonância na sociedade.
O que ocorreu em Washington nas últimas semanas foi apenas o começo de uma luta ideológica e política que ainda se prolongará por bom tempo. O Tea Party e a ala mais dura entre os republicanos se aprestam a novas ofensivas para a desmontagem do modelo liberal.
O que está em jogo é a disputa pelas eleições presidenciais de 2012. Quando lançou sua campanha para a reeleição, Obama mal sabia que antes do esperado iria defrontar-se com um fenômeno surgido quase da noite para o dia numa sociedade em vertiginoso processo de transformação, ao impacto de processos como a globalização, a imigração, as controversas mudanças nos costumes (aborto e homossexualidade), a crise financeira e os gastos governamentais em apoio ao "big business".
Os EUA se encontram numa encruzilhada: ou se reelege Obama, e se retoma, ainda que com limitações, o caminho de revigoramento da economia e da própria sociedade, ou o país cairá em situação de descaminho, com maior esgarçamento de seu tecido social e a aceleração do processo de seu declínio relativo no plano internacional.
Apesar da força agora demonstrada, parece pouco provável que o Tea Party venha a empolgar uma sociedade tão diversificada, dinâmica e adaptável como a americana. Todos perderam com a falência do sistema político americano no episódio do Orçamento: os democratas e Obama de um lado, mas também os republicanos de outro.
Obama tem a seu favor importantes segmentos do eleitorado -os negros, os latinos, os pobres, os que dependem dos programas sociais e de saúde. Custa crer que, ao fim e ao cabo, chegadas as eleições, os americanos se decidam pelo atraso de uma utopia regressiva, em vez da busca de novos caminhos em direção a uma economia mais forte e uma sociedade melhor.

segunda-feira, agosto 08, 2011

GUSTAVO FRANCO -Entrevista


Folha de S. Paulo - 08/08/2011

EX-PRESIDENTE DO BC AFIRMA QUE BRASIL DEVE SER "PRUDENTE", PORQUE NÃO TEM SITUAÇÃO TÃO DIFERENTE DE PAÍSES COM PROBLEMAS

Exaustão fiscal global está na origem de turbulência

ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

"Teremos uma marcha lenta no Primeiro Mundo em razão da necessidade de corrigir os excessos fiscais. Não há espaço para políticas keynesianas de gasto nem para redução dos juros." A avaliação é de Gustavo Franco, 55, ex-presidente do Banco Central (governo FHC), para quem a crise pode significar "o fim de uma era de keynesianismo fácil".
Sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos, Franco vê uma "exaustão fiscal global" e advoga a redução dos gastos públicos. "Não vejo bolha nenhuma, muito menos fracasso neoliberal", diz.

Folha - Qual o impacto da decisão da Standard & Poor"s de rebaixar os EUA?
Gustavo Franco - No primeiro momento é simbólico, pois os EUA continuam AAA em duas outras agências. As determinações estatutárias de fundos de pensão e dos bancos centrais geralmente falam de grau máximo em duas agências. Acho que é um belo "wake up call" [chamada para despertar], pois fica claro que a disciplina que se exige de todos num mundo interconectado também deve ser praticada e cobrada na potência central.

Por que as Bolsas caíram? É, de fato, por causa de temores de recessão ou há outros ingredientes?
Sim, há temores quanto à recessão, sobretudo no hemisfério Norte, mas o que torna as coisas mais preocupantes é a situação fiscal no Primeiro Mundo, onde as dívidas dos governos chegaram a patamares tão altos que a sensação é a de que se esgotou a capacidade desses países fazerem políticas fiscais expansionistas.

Os governos devem colocar mais dinheiro no mercado financeiro? Haverá nova socialização das perdas?
Não é a situação de 2008, não há bancos a salvar. Ao menos por ora, nunca se sabe. A natureza do problema é outra: os países se engasgaram com tanta "socialização das perdas" por cima de "socializações de ganhos" e conquistas sociais e excessos de gasto público em geral.

Se as agências de risco erraram de forma tão dramática em 2008 (não prevendo o colapso do Lehman; qualificando os bancos da Islândia como AAA) e também agora nos cálculos do rebaixamento dos EUA, por que elas seguem tão importantes? Elas vão ser "rebaixadas" por governos e outras instituições?
Essa é uma boa pergunta. Em boa medida, na segunda-feira [hoje] os mercados estarão se perguntando se a Standard & Poor"s está com essa bola toda.
Normalmente as agências reagem defasadamente ao que todo mundo já sabe, padrão que se repete dessa vez. E erram o tempo inteiro, sim e, em muitos casos, no contexto de conflitos de interesse. O Tesouro Americano contesta os cálculos da S&P. Uma das revelações desta segunda vai ser a importância que os mercados atribuem às agências de risco.

Se os títulos dos EUA estão com pior avaliação, qual a opção? Títulos alemães?
Títulos dos EUA.

Estamos entrando num período de recessão mais longo e profundo?
Recessão é uma palavra forte, não é bem isso. Cresce a consciência de que teremos uma marcha lenta no Primeiro Mundo em razão da necessidade de corrigir os excessos fiscais. Não há espaço para políticas keynesianas de gasto nem para redução dos juros, que já estão no chão. De onde vai vir o crescimento?

De onde? O capitalismo não consegue mais fazer crescimento?
Seria errado pensar assim, a julgar pelos quatro séculos de bons serviços que o capitalismo tem com este planeta, e também porque não há alternativa. O desafio será o de direcionar políticas públicas para trabalhar fatores como produtividade, inovação, regulação, ambiente de negócios, infraestrutura e num contexto de economia fiscal, de modo a elevar a confiança da economia privada, de empresas e consumidores.

Se recessão é uma palavra forte, como o sr. definiria a situação atual? Estagnação?
Apenas baixo crescimento, ao menos durante o período de acomodação dos efeitos financeiros e fiscais de crise. Há certa ansiedade nesses países, pois há muito crescimento na Ásia e, em menor escala, no Brasil.

Em termos históricos essa recessão seria comparável à recessão de 29 ou à do final do século 19, que resultou no declínio da Grã-Bretanha e na ascensão dos EUA e da Alemanha?
A crise de 1929 é uma fonte inesgotável de lições, e o presidente do FED [banco central americano], que é um historiador que conhece o assunto, tratou muito bem de evitar os erros daquele tempo, especialmente no terreno da política monetária. Acho meio exagerado falar da decadência dos EUA como potência econômica.

Vivemos o estouro de várias bolhas? Há quem afirme que a crise desses dias é a prova do fracasso neoliberal. É? Não vejo bolha nenhuma, muito menos fracasso neoliberal. É preciso olhar a situação com frieza, sem preconceitos ideológicos: o que estamos vivendo é o esgotamento do crescimento do Estado nas grandes democracias ocidentais, e mais o Japão, onde os níveis de endividamento público ultrapassaram medidas habitualmente aceitas de responsabilidade fiscal.
O mal-estar é causado pelo fato de que há deficits e dívidas enormes. Os gastos públicos têm que cair. Em cada sociedade há um grupo, como o Tea Party, que vai se opor a aumento de impostos. O enredo do impasse americano é global, e, por isso mesmo, foi tão impactante. É uma prévia do que vai ser visto em muitos países. É como se fosse o fim de uma era de keynesianismo fácil, onde tudo sempre se resolve com o gasto público, socializando perdas, ou acomodando sucessivas e inesgotáveis "conquistas", e coalizões cada vez maiores. Essa paralisação fiscal-financeira do Estado representa novo desafio, talvez início de um novo tempo.

Politicamente, quais serão os efeitos da decisão da S&P e todo o enrosco de Obama com o Congresso? A China já está reclamando.
Acho que o impacto pode até ser positivo, na medida em que mobiliza energias políticas para a busca de soluções. A China é um capítulo à parte, pois não tem os problemas fiscais próprios das democracias ocidentais por uma razão simples e óbvia: não é uma democracia. Para ser, e evitar uma primavera que pode ser tumultuada, teria que alterar muito de suas instituições ligadas ao mercado de trabalho e à seguridade social. O fato é que a China tem sido a fonte de um discurso meio vigarista sobre o "fracasso do modelo liberal" que na verdade é uma velha cantilena sobre a ineficiência da democracia.

Como o sr. avalia a fragilidade de economias como Itália e França? Como está a saúde financeira dos bancos europeus?
O temor alcança todos, e por isso era bom ficarmos nós, aqui no Brasil, bem quietos e prudentes, pois os nossos números fiscais não estão muito diferentes daqueles dos países com problemas. Nesses episódios de elevação da aversão ao risco, os mercados ficam procurando os países e as empresas fragilizados.

A situação dos bancos europeus terá impacto no Brasil?
Se aparecer algum grande problema bancário europeu, certamente terá efeitos por toda parte. Mas hoje não há clareza sobre isso.

Alguns analistas têm receio do excessivo endividamento privado brasileiro no exterior. Uma virada no câmbio poderia colocar empresas sob risco. O sr. compartilha desse temor?
Não compartilho. Acho que o volume não é muito grande, e as empresas sabem fazer hedge. A medida descabida foi o IOF [Imposto sobre Operações Financeiras] sobre derivativos que torna o hedge mais caro para as empresas. O tema do momento é outro: dívida pública. E o que me preocupa no Brasil é o governo achar que tudo está bem nesse terreno, e que o rebaixamento americano seria como uma promoção para nós. Nada mais perigoso.

Qual deve ser o impacto na taxa de juros, no câmbio e no crescimento?
Os impactos sobre o Brasil estão ainda indefinidos. As pressões sobre a Bolsa são meio exageradas e fazem as empresas brasileiras ficarem muito baratas relativamente a seus resultados. A oportunidade para comprar parece-me clara.

O sr. prevê novos rebaixamentos de países pelas agências de risco?
É provável, ao menos pela S&P, pois, ao alterar a classificação do país, geralmente se alteraram as de todas as empresas ali sediadas. Será interessante verificar se esse protocolo será obedecido dessa vez. Parece que a S&P não tinha muita ideia do tamanho da dificuldade que criou para si. E a impressão que tenho é que o próximo assunto é a Europa, pois é onde estão os maiores problemas de dívida soberana.

O que aconteceu nos últimos dias é uma tragédia inesperada ou é algo de dimensão menor? A recuperação vai demorar mais?
A natureza do problema não me parece ser a de um problema agudo, como o pânico bancário provocado por uma sucessão de bancos quebrando como em meados de 2008. Mas de um peso, que dobrou de tamanho em dois anos, que os governos terão que carregar por um bom tempo. É a exaustão fiscal global.
Alguns mais fracos, os Piigs [Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha], estão com dificuldades, e mesmo nos países mais sólidos as pessoas estão debatendo sobre como distribuir o peso e os sacrifícios.
É uma espécie de marcha forçada, onde será preciso algum tempo para diminuir o peso e ajustar as contas, na qual pode acontecer algum incidente, é claro. Os EUA estão fazendo a sua parte. Talvez amanhã [hoje], por curioso que pareça, as pessoas voltem seus olhos para Itália e Espanha. Na verdade, os assuntos das conversas no âmbito do G7 e de bancos centrais da Europa não serão muito relacionados aos EUA, mas à blindagem da Europa.

O que o sr. recomendará aos clientes? Onde investir? Ouro? Ativos reais?
Depende de cada caso. E o nosso perfil é de investidor de longo prazo, e a receita para esse tipo de investidor é contrária ao comportamento da "manada". A oportunidade que se apresenta é a de comprar ações de boas empresas que subitamente se tornaram baratas.

RAIO-X
GUSTAVO FRANCO, 55

ORIGEM
Rio de Janeiro (RJ)

CARGO
Estrategista-chefe da Rio Bravo Investimentos

CARREIRA
Foi presidente do BC (1997-1999). Participou da formulação do Plano Real

FORMAÇÃO
É bacharel (1979) e mestre (1982) em economia pela PUC do Rio e doutor pela Harvard University (1986)

Frases

"Cresce a consciência de que teremos uma marcha lenta no Primeiro Mundo em razão da necessidade de corrigir os excessos fiscais. Não há espaço para políticas keynesianas de gasto nem para redução dos juros"

"O tema do momento é outro: dívida pública. E o que me preocupa no Brasil é o governo achar que tudo está bem nesse terreno, e que o rebaixamento americano seria como uma promoção para nós. Nada mais perigoso"

terça-feira, julho 19, 2011

Loucura política no mundo rico VINÍCIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 19/07/11

Qualquer solução para a falência do Estado grego será dolorosa e terá efeitos ruins sobre as finanças do mundo. Mas vários estudiosos sensatos do assunto indicam saídas que podem evitar uma catástrofe como a de 2008, quando partes do sistema financeiro americano começaram a explodir em série.

No entanto, várias autoridades europeias disputam um cabo de guerra sobre as moribundas finanças da eurozona. É uma querela quase tão louca quanto a que opõe republicanos e democratas sobre a dívida do governo americano.

Note-se de passagem que a querela nos Estados Unidos é de certo modo mais demente, pois não há problema algum de solvência ou liquidez a afetar o governo.

Ontem mesmo, dia de paniquito nos mercados do mundo e de novo impasse nas negociações entre Barack Obama e republicanos, os investidores compravam títulos da dívida americana. Os Estados Unidos podem se financiar pagando 2,9% ao ano em títulos de dez anos.

O impasse leva os juros da dívida italiana e espanhola à lua. Ontem, o preço que Itália e Espanha teriam de pagar para tomar empréstimos voltou ao nível tido como crítico -aí ficando, os dois países entram numa situação greco-portuguesa.

Para piorar, sabe-se agora que bancos britânicos, espanhóis, italianos e ao menos um grande francês iriam à breca caso tivessem de registrar perdas da desvalorização terminal dos títulos da dívida da Itália, da Espanha etc.

Na Europa, a disputa é encabeçada, por um lado, pelo Banco Central Europeu (BCE), e, por outro, pelo governo da Alemanha. O governo alemão quer, na prática, que os credores privados gregos deixem de cobrar um pedaço da dívida.

A premiê Angela Merkel não quer que dinheiro de impostos apenas banque o rombo da Grécia. O BCE diz que o calote, por miudinho que seja, transformará em lixo os papéis da dívida grega, elevará os juros para Itália e Espanha (levando esses países à breca) e provocará onda de quebras bancárias e coisa pior.

Quase mais ninguém sério acredita que a solução passe por "austeridade" (arrochando o país, a dívida seria paga) e que a dívida grega será toda paga, ideias estúpidas defendidas mesmo agora pelo BCE e até outro dia pelos ministros das Finanças da Europa, as quais só ajudaram a agravar a situação.

Qual alternativa sobra? Várias boas e experientes cabeças econômicas de EUA e Europa sugerem que a União Europeia terá de assumir a dívida grega e reemprestar dinheiro a juros baratos ao país.

Trata-se quase o início de uma união fiscal (isto é, um governo europeu com dinheiro de impostos para ajudar Estados encrencados). Os países mais ricos, Alemanha à frente, não gostam da ideia.

A seguir, dizem entendidos mais sensatos, seria possível pensar em estratégias de reduzir a dívida grega e mandar parte da conta para os credores privados -sem que se permita, claro, a quebra de um grande banco, como nos EUA de 2008.

O calote grego é tão favas contadas que até o lobby da banca mundial, o Institute of International Finance, negocia faz duas semanas os termos da rendição condicional.

Nos EUA, há uma disputa ideológica demencial louca. Na Europa, a loucura política suicida nem ousa dizer o seu nome.

Ideia fronteiriça JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 19/07/11

Ocupar fronteira tão extensa poderia resultar, no máximo, em núcleos com intervalos que continuariam floresta

Está de volta a ideia de um grande plano para ocupação populacional da fronteira norte, agora incorporando a fronteira noroeste. O deslocamento humano para criação de concentrações populacionais se faria por meio de incentivos que só podem ser financeiros. E de investimentos, forçosamente gigantescos, para criação da infraestrutura necessária à ocupação humana de área equivalente a um país de bom tamanho.

O ministro José Eduardo Cardozo, da Justiça, juntou-se na ideia ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, e está convocada para amanhã reunião também com as ministras Tereza Campello, do Desenvolvimento Social, e Izabella Teixeira, do Meio Ambiente -como noticiou "O Globo" no domingo. Todos no gabinete do vice-presidente, Michel Temer.

A ideia básica não é nova. Valeu-se, de início, do argumento de proteger a soberania territorial de invasão e nacos de apropriação pela guerrilha colombiana. Enfraquecida tal hipótese já nascida onírica, veio o argumento de proteção contra ameaças, não se soube de quê, vistas em Hugo Chávez. Agora a ideia se reforça como pretendida solução para a permeabilidade da fronteira ao contrabando.

Na semana passada, o "Jornal da Bandeirantes", que tem qualidades, criou curiosidade em torno do motivo de uma série, injustificada pelo que expôs, contra os índios de Roraima, em especial os da reserva Raposa/Serra do Sol. Ainda mais que lá estava, como uma espécie de orientador, o general Augusto Heleno Pereira, já condicionado a um vulgar jeans em lugar do verde oliva, mas com as opiniões de sempre sobre índios e reserva indígena.

E também aparecia o governador José de Anchieta, para criticar os índios por cobrarem certos benefícios em troca de permissão para uma ponte dentro de suas terras. É claro que, ou agem desse modo, ou não recebem os recursos. Mas esse Anchieta contra índios ataca-os sem se incomodar com a indecência de que aliados seus no Congresso exijam a troca de seu votinho ordinário, não por necessidades dos eleitores, mas por vantagens pessoais e grupais.

Seja como for, se a ideia da ocupação está de volta, deve ser discutida outra vez. Há, no mínimo, um bom motivo para tanto. Bom porque factual, comprovado e continuadamente comprovável, até no próprio território brasileiro. É a experiência histórica.

Exceto a exploração de determinados recursos naturais, as aglomerações sempre serviram melhor às atividades ilegais do que as zonas pouco ou não habitadas. Oferecem ao contrabando mais mão de obra, mais atividades como cobertura para o contrabandista, meios de transporte mais variados e mais numerosos, infraestrutura que facilita a ação, como mais vias vicinais e intermunicipais sem repressão, e muitas outras vantagens.

O passado brasileiro tem muitos exemplos do papel múltiplo das aglomerações de ocupação territorial. No que respeita à utilidade presumida pela ideia de ocupação das fronteiras norte e noroeste, a atualidade mesma oferece um caso exemplar de todos conhecido: Foz do Iguaçu. Iniciada a aglomeração ali para exploração turística e apoio ao transporte legal entre Brasil e Paraguai, criavam-se também as condições favoráveis que levaram à formidável edificação do contrabando, de um lado e de outro da fronteira. Em menores dimensões, as fronteiras com o Paraguai, a Bolívia e o Peru têm numerosos outros exemplos do mesmo processo.

O plano que vinha em desenvolvimento, de núcleos militares e policiais com respectivas áreas sob sua vigilância permanente, faz sentido. A floresta e a falta de ocupação humana podem oferecer algumas facilidades à penetração fronteiriça, mas também facilitam muito a percepção do transporte ilegal, com movimentos e vias onde não deviam ocorrer, e indicativos de anormalidade.

A ideia de ocupação de fronteira tão extensa poderia resultar, no máximo, na criação de núcleos. Com intervalos que se prestariam ao que hoje é e continuará sendo floresta. E não haverá mal em que os proponentes da ideia pensem no custo e no tempo demandados por uma nova e muito maior versão da malfadada Campanha da Borracha.

Por que não reagimos? FERNANDO DE BARROS E SILVA

FOLHA DE S PAULO,
SÃO PAULO - Por que os brasileiros não reagem à corrupção? Por que a indignação resulta apenas numa uma carta enviada à Redação ou numa coluna de jornal? Por que ela não se transforma em revolta, não mobiliza as pessoas, não toma as ruas? Por que tudo, no Brasil, termina em Carnaval ou em resmungo?
A pergunta inicial não foi feita por um brasileiro -o que é sintomático. Foi Juan Arias, correspondente do jornal "El País" no Brasil, quem a formulou num artigo recente. "
Es que los brasileños no saben reaccionar frente a la hipocresía y falta de ética de muchos de los que les gobiernan?". Y entonces???
Não existe resposta simples aqui. Em primeiro lugar, a vida de milhões de brasileiros melhorou nos últimos anos, mesmo sob intensa corrupção, e apesar dela. Ninguém que leve o materialismo a sério pode desconsiderar esse dado básico.
Além disso, o PT, na prática, estatizou os movimentos sociais. Da UNE ao MST, passando pelas centrais sindicais, todos recebem dinheiro do governo. Foram aliciados. São entusiastas e sócios do poder, coniventes com os desmandos porque têm interesses a preservar, como o PR de Valdemar e Pagot.
Há ainda um terceiro aspecto, menos óbvio, que leva muita gente progressista a se encolher diante da corrupção. É a ideia introjetada de que qualquer movimento político ou mobilização contra a bandalha acaba sendo uma reedição do espírito udenista, coisa da direita ou que serve a seus propósitos. O lulismo soube explorar esse enredo, como se estivesse em jogo no mensalão uma disputa entre Vargas (o pai dos pobres nacionalista) e Lacerda (o moralista a serviço das elites).
Lula nunca moveu uma palha para mudar o sistema político podre que o beneficiou. Com a corrupção sob seu nariz, preferiu posar de vítima da imprensa golpista. Enquanto isso, seus aliados, no PT ou à direita, golpeavam os cofres da Viúva, exatamente como sempre neste país. Está aí a gangue dos Transportes, na estrada há 10 anos.

domingo, julho 17, 2011

Tarefas pendentes EDITORIAL FOLHA DE SÃO PAULO

- 17/07/11
Governo de Dilma Rousseff conseguirá domar economia em 2011, mas já negligencia providências para sustentar o crescimento até 2015

O primeiro ano de Dilma Rousseff será de contenção na política econômica e de freio na alta de preços, no gasto público e no crescimento exagerado. É provável que o governo tenha relativo sucesso na realização dessas metas.
Ainda assim, o esforço de aparar excessos não terá sido bastante para que mesmo o crescimento de médio prazo, até 2015, seja possível sem que se acumulem desequilíbrios perigosos.
A inflação ainda será alta demais no ano que vem, em que está prevista a retomada do gasto do governo tanto em transferência de renda (programas sociais e INSS) quanto em investimento (impulsionado pelo pré-sal e pelos desperdícios das obras esportivas).
Governos municipais e estaduais, depois dos habituais freios de primeiro ano de mandato, voltarão a gastar; 2012, de resto, é ano de eleição -e 2014 também.
O aumento nominal do salário mínimo será de 14% (e de 9% a 10% até o final do mandato). Assim, subirão as despesas da Previdência e de governos regionais.
O nível de emprego ainda será historicamente elevado. O aumento da renda das famílias pressionará ainda mais a alta inflação no setor de serviços, que não é afetado imediatamente pela restrição de crédito imposta de modo gradual pelo Banco Central.
O real forte, que encarece o produto nacional, e o aperto no crédito têm contido a produção industrial, que está quase no mesmo nível de abril de 2010. Ainda assim, a inflação persiste.
A retomada do gasto público e a elevação do nível de investimento e do consumo das famílias são incompatíveis no curto prazo com inflação menor e com deficit externo moderado (pois a importação compensa a insuficiência da oferta doméstica). Um desses três itens da demanda no país tem de ser reprimido para se preservar algum equilíbrio econômico.
O aumento do preço de produtos brasileiros de exportação tem mantido sob controle o deficit externo, mas também colabora para pressionar a inflação.
A perspectiva é, pois, de juros altos pelo menos até 2013. Em decorrência, haverá valorização do real e encolhimento da indústria. A economia continuará dependente de exportação de commodities, desperdícios em obras e transferências de renda.
O acúmulo dessas tensões vai limitar o crescimento. Exigirá um ajuste, que não deve vir antes da eleição de 2014. Ou que pode sobrevir no caso de crise externa grave, que terá reflexos tanto piores no país quanto maiores forem os desarranjos na economia.
O governo não parece se incomodar com a gradual deterioração macroeconômica. Perde, assim, a oportunidade de acelerar o crescimento numa conjuntura mundial e demográfica favorável.

sábado, julho 16, 2011

PAUL KRUGMAN - Beirando a loucura

Partido Republicano enlouqueceu após processo de décadas, e não sofre nenhuma pressão para demonstrar racionalidade

Não há muitos aspectos positivos a destacar na chance de um calote da dívida dos EUA. Mas assistir a tantas pessoas que estavam em estado de negação farejando a loucura no ar encerra algo de alívio cômico de humor negro.
Vários comentaristas parecem chocados com o grau de insensatez dos republicanos. "O Partido Republicano enlouqueceu?", eles indagam. Sim, enlouqueceu. Mas não é algo que tenha acontecido a partir do nada, é o ponto culminante de um processo que vem se desenrolando há décadas.
Qualquer pessoa que se espante com o extremismo e a irresponsabilidade exibidos agora ou não vem prestando atenção, ou vem fazendo vista grossa de propósito.
E àqueles que agora se angustiam com a saúde mental de um de nossos dois partidos políticos principais: pessoas como você têm responsabilidade pelo estado em que esse partido está.
O presidente Obama se dispõe a assinar um pacto para a redução do deficit que consiste em cortes de gastos, incluindo cortes draconianos em programas sociais fundamentais, como a elevação na idade mínima que dá direito ao Medicare. São concessões extraordinárias.
Mesmo assim, os republicanos estão dizendo "não", e ameaçam impor um calote dos EUA e criar uma crise econômica, a não ser que consigam um acordo unilateral.
Se um republicano tivesse conseguido arrancar o tipo de concessões sobre o Medicare e a Previdência Social que Obama oferece, isso teria sido uma vitória conservadora.
Mas, quando essas concessões vêm acompanhadas de aumentos pequenos na receita e partem de um democrata, as propostas viram planos inaceitáveis para afogar a economia americana em impostos.
Para além disso, a teoria econômica vodu tomou conta do Partido Republicano. O vodu "supply-side" -segundo o qual as reduções de impostos se pagam e/ou que qualquer elevação nos impostos levaria ao colapso econômico- tem força dentro do Partido Republicano desde que Ronald Reagan aderiu ao conceito da curva de Laffer.
Antes, contudo, o vodu era contido. O próprio Reagan promulgou aumentos importantes de impostos, contrabalançando cortes iniciais.
Até mesmo a administração de George W. Bush evitou afirmações extravagantes sobre a magia das reduções de impostos, pelo medo de que isso levantaria dúvidas quanto à seriedade da administração.
Recentemente, contudo, a contenção voou pelos ares -na realidade, foi expulsa do partido. No ano passado, Mitch McConnell, líder da minoria no Senado, afirmou que os cortes de impostos feitos por Bush haviam levado a um aumento da receita -o que contrariava completamente as evidências-, declarando que essa era "a visão de praticamente todos os republicanos".
E é verdade: mesmo Mitt Romney, visto por muitos como o mais sensato dos candidatos à Presidência em 2012, endossou a ideia de que reduções nos impostos podem de fato reduzir o deficit.
Isso me conduz novamente aos que só agora encaram de frente a insensatez do Partido Republicano, que não tem enfrentado nenhuma pressão para que demonstre responsabilidade ou racionalidade -e, dito e feito, ele endoidou. Se você está surpreso, significa que você foi parte do problema.

domingo, julho 10, 2011

DANUZA LEÃO Queima de arquivo




Não existe nada melhor do que uma agenda novinha em folha, com todas as páginas em branco


OUTRO DIA ME programei para passar a limpo a agenda de telefones, coisa que não fazia havia cinco anos. Eu talvez seja a última pessoa a ter uma agenda de papel, mas como sou romântica e sentimental, é assim, e pronto. Não existe nada melhor do que uma agenda novinha em folha, com todas as páginas em branco. É quase igual a recomeçar a vida, com muitas delícias e algum tormento.
No dia marcado, comecei a saber dos últimos escândalos pelos jornais, e quando li sobre o inacreditável código de ética do nosso inacreditável governador Sérgio Cabral, achei que tinha mais o que fazer; toda animada, comecei pela letra A, achando que ia ser tudo uma delícia, e no princípio até foi. Mas percebi que a cada nome era preciso fazer uma opção e reavaliar as relações para saber se valia a pena tê-las na agenda nova. Algumas eu tinha certeza que sim, outras que não, e algumas, francamente não sabia.
Aquela amiga com quem abri meu coração tantas vezes, com quem ficava horas no telefone falando do passado e fazendo planos para o futuro; com ela desabafei, ri e chorei, juntas compartilhamos alegrias e tristezas. Gostava dela de verdade, mas na verdade, entre nós só havia em comum o fato de sermos solteiras, nos encontrarmos todos os dias na ginástica e, frequentemente, à noite, para a balada, o que não chega a ser muito. Um dia ela mudou para outro bairro, se casou, teve um filho, e os telefonemas, claro, foram rareando. Se nos cruzarmos hoje em algum lugar vai ser um prazer -será mesmo?- mas sinceramente: vou ligar para ela algum dia na vida? Finjo que estou na dúvida, mas já sei que não.
Responder a essa pergunta é um exercício de autoconhecimento. Será que eu não tenho sentimentos e de tudo o que passamos juntas não sobrou nada? Sobrou uma amizade, sim, só que ela agora faz parte do passado, e as lembranças -poucas- vão ficar só no coração, não na agenda. Aliás, eu nunca liguei para ela, mas nem ela para mim.
A cada nome vinham coisas na cabeça, e na letra L já tinha passado metade da minha vida a limpo. De algumas, lembrei com prazer -e doeu, por já terem passado- e de outras, preferia ter esquecido. Aquela empregada que trabalhou para mim durante anos e que foi testemunha de todas as coisas -as boas e as péssimas- e para quem nunca mais telefonei. E o remorso? Vou ligar, adoro ela, mas já sei que vou sofrer.
Mas tem outras: houve um homem por quem um dia inventei sei lá o quê, e como essas invenções têm prazo de validade curto, logo chegou a hora de desinventar. Um dia, num aeroporto, achei que era ele e enfiei a cara no jornal para não ter que falar. Podia pintar tomar um café, com direito a perguntas sobre como vai a vida, só que a última coisa no mundo de que eu queria saber era da vida dele, e ele, provavelmente, da minha. E se nosso avião fosse o mesmo? E conversar, durante a viagem? Essa foi até fácil: ele não foi para a agenda nova.
E os que estão na agenda, mas que você não vê há 20 anos, como estarão? A memória protege e nos faz lembrar da pessoa como da última vez em que a vimos, mas a vida deixa marcas no rosto e na alma. Quando você vê essas marcas no outro, sofre e pensa que está sofrendo por ele, mas na verdade está sofrendo por você mesma. Afinal, os 20 anos não passaram só para ele.
Refazer uma agenda é uma queima de arquivo, e ninguém passa por isso impunemente; a vida é cruel, e em alguns casos, a única defesa é endurecer, e sem nenhuma ternura.

sexta-feira, junho 17, 2011

FHC: parabéns e obrigado! LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

A posição de Lula diante do Plano Real é inaceitável em uma sociedade guiada pela verdade dos fatos

EM CARTA enviada ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a presidente Dilma Rousseff reconhece -de forma clara e inequívoca- a paternidade do Plano Real, que devolveu à economia brasileira a estabilidade e o crescimento.

Foram quase 20 anos em que estivemos condenados à mediocridade e à estagnação da renda, principalmente dos mais pobres. Com o Plano Real, esse passado vergonhoso foi superado e voltamos ao grupo de nações emergentes com futuro.

O que seria considerada uma observação apenas formal em sua carta de congratulações pela passagem do aniversário de 80 anos de FHC, esse reconhecimento passou a ter uma grande relevância política.

Com razão, pois o ex-presidente Lula passou os oito anos de seu mandato renegando a importância de FHC e do Plano Real na construção da sociedade brasileira de hoje.

Além disso, Lula sempre espalhou aos quatro ventos a tese de que os anos FHC tinham deixado uma “herança maldita” a seus sucessores. O reconhecimento de Dilma do papel de FHC na estabilização e na política brasileira tornou as bravatas de Lula algo do passado. Espero que, a partir de agora, nem seu autor tenha coragem de voltar a elas.

Quero aproveitar este momento em que o papel de FHC na construção da nova economia brasileira voltou ao debate público para dividir com o leitor da Folha um trabalho sobre a evolução dos salários no Brasil, nos últimos 20 anos, feito por Fabio Ramos, economista da Quest Investimentos.

image

Os dados que constam do gráfico falam por si só e mostram como a posição de Lula em relação ao Plano Real é inaceitável em uma sociedade guiada pela verdade dos fatos - não pela história forjada por seus dirigentes.

Os dados representam uma estimativa do total da remuneração do trabalho no Brasil, calculados em reais e já descontados os efeitos da inflação, entre 1992 e o primeiro trimestre de 2011. Chamo a atenção do leitor para os seguintes pontos principais:

1) Entre 1993, quando Fernando Henrique assumiu o Ministério da Fazenda no governo de Itamar Franco, e 1997, já presidente da República, o total de salários pagos passou de R$ 600 bilhões para R$ 1,1 trilhão, com aumento de 83% no período, o que equivale a um crescimento anual de mais de 12%;

2) Apenas no segundo mandato de Lula (2007-2010) é que os salários superam o nível de R$ 1,1 trilhão verificado entre 1993 e 2002 e começam a crescer a uma taxa anual de pouco mais de 5%;

3) O aumento dos salários reais nos quatro anos do chamado Lula-2 foi, entretanto, menos da metade do verificado no período de implantação do Plano Real;

4) Ou seja, a contribuição da estabilidade alcançada pela ação de FHC nos salários dos trabalhadores brasileiros foi o dobro da proporcionada pelos quatro anos de crescimento verificado no segundo mandato de Lula. Os dados históricos aqui apresentados não permitem que a farsa da “herança maldita” se sustente por mais tempo.

O trabalho feito por Ramos mostra, de forma cristalina, como a inflação elevada confiscava a renda real do trabalhador antes da ação decisiva de FHC.

A presidente Dilma apenas reconhece - com anos de atraso - isso.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 68, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).
lcmb2@terra.com.br

quinta-feira, março 10, 2011

VINICIUS TORRES FREIRE - O fim do "relax" americano

Folha de S Paulo
Em junho, BC dos EUA para de despejar dinheiro na economia, o que pode afetar juros, Bolsas e, talvez, PIB


O MAIOR FUNDO de investimento em renda fixa vendeu todos os seus títulos do governo americano.
Trata-se de um fundo da Pimco, uma das maiores administradoras de dinheiro do mundo, que cuida de mais de US$ 1 trilhão. Na opinião prática da Pimco, tais papéis deram o que tinham de dar. Seu preço deve cair, pois. Trocando em miúdos rapidamente: quando o preço de títulos de dívida cai, o "juro" sobe. Em suma, os juros subiriam nos EUA.
O pessoal que dirige a Pimco não rasga dinheiro nem bebe água quente; as opiniões deles são consideradas por quem tem dinheiro grosso. É verdade que gente do dinheiro grosso fez besteiras que só não levaram o mundo à breca porque os governos bancaram a conta das barbaridades dos financistas.
Mas o motivo possível da atitude da Pimco, além de fazer mais dinheiro em outra parte do mercado, parece simples. Desde o início da crise, o Banco Central dos Estados Unidos, o Fed, despeja dinheiro na economia. O faz por meio da compra de papéis privados e públicos, papéis de dívida lastreada em imóveis e outras, e títulos da dívida do governo dos EUA. Desse modo, sustentou os preços desses papéis, evitando crise ainda maior na finança privada e mantendo baixos os juros pagos pelo governo dos EUA.
Pois bem. Essa política de "imprimir dinheiro", de relaxamento monetário ("quantitative easing") a princípio termina em junho, quando o Fed não compraria mais títulos do governo, afora nas operações "normais", relativamente pequenas, da política ortodoxa de calibragem das taxas de juros de curto prazo.
Essa torrente de dinheiro serviria ainda para irrigar o sistema financeiro, tornando-o mais disposto a emprestar mais e a custo menor. Como as oportunidades e negócios nos EUA e no mundo rico em geral não pareciam tão rentáveis (ou inexistiam), parte desse dinheiro espalhou-se por Bolsas e pelo mundo.
O preço das ações subiu. Muito capital foi para os "emergentes", valorizando moedas (ou obrigando países a aumentar suas reservas ou a impor limites à entrada de capital, a fim de evitar a valorização).
Sem o despejo de dinheiro do Fed e, além do mais, dadas as perspectivas (ou especulações) de alta de inflação e o tamanho enorme da dívida pública dos governos, em tese os títulos da dívida americana vão perder valor e, portanto, os juros vão subir. Se o Fed não fizer nada, claro -"tudo o mais constante".
Os donos do dinheiro grosso e os melhores economistas do mundo não se entendem muito sobre o que vai acontecer depois de junho. Pelo menos, discordam da intensidade do efeito do fim do "relaxamento monetário". A economia dos EUA já ganhou impulso suficiente para não se abalar com algum aperto monetário? De quanto seria tal aperto?
Não se trata de risco grave. Mas trata-se de desconforto e incerteza a mais num ambiente que se turvou um pouco recentemente. O aumento do preço do petróleo e da comida está levando boa parte do aumento recente da renda dos americanos, que vinham consumindo mais. Sobra menos para gastar em produtos e em serviços "não essenciais". Pelo resto do mundo, tomam-se medidas para conter a inflação, da China ao Brasil; a União Europeia ameaça elevar os juros em abril.
O tempo está com cara de ficar um pouco nublado, de novo.

domingo, fevereiro 27, 2011

FERREIRA GULLAR - O povo desorganizado

A fagulha que incendiou a nação egípcia foi o suicídio de um jovem, em resposta à repressão policial


O FIM da ditadura de Hosni Mubarak, no Egito, pode suscitar indagações acerca das consequências que podem advir dela, mas num ponto todas as opiniões parecem coincidir: foi o povo desorganizado que pôs abaixo o regime autoritário que durara 30 anos.
No Egito havia -e ainda há- numerosos partidos e organizações sociais que, de uma maneira ou de outra, vinham atuando na vida do país. Mas não partiu de nenhuma delas a mobilização popular que, concentrada na praça Tahrir, durante 18 dias, obrigou o ditador, obsessivamente apegado ao poder, a abrir mão dele. A fagulha que incendiou a nação egípcia foi o suicídio de um jovem, em resposta ao abuso da repressão policial.
Esse gesto desesperado despertou a revolta inicialmente de algumas dezenas de jovens, depois de centenas, de milhares e finalmente de milhões de cidadãos. Ignorando o poder repressivo do regime, foram para a rua, ocuparam a praça e receberam o apoio do povo egípcio. O povo desorganizado se mobilizou e através da internet passou a coordenar suas ações e seus objetivos. Parece um milagre? Pode parecer, mas não é. A razão disso é que o povo é, de fato, o detentor do poder, esteja ele organizado ou não.
Essa rebelião popular espontânea leva-me a refletir sobre o que chamo de "povo desorganizado". O que é, então, o povo organizado? Certamente aquelas parcelas da população que atuariam nos sindicatos e em outras entidades profissionais, estudantis e culturais. O objetivo de tais organizações, ao serem criadas, é defender os interesses das categorias e classes sociais que representam. A verdade, porém, é que isso nem sempre acontece e pode até mesmo ocorrer que tais organizações passem a se valer de sua suposta representatividade para atuar contra os interesses que deveriam defender.
Isso pode acontecer de várias maneiras, especialmente nos regimes autoritários. Por exemplo, no Brasil, quando os militares tomaram o poder, prenderam as lideranças sindicais e as substituíram por agentes do regime. A partir de então, essas entidades, que deveriam representar o povo organizado, agiam em sentido oposto, isto é, impedindo toda e qualquer manifestação contrária ao governo. Por isso que a primeira grande manifestação popular contrária à ditadura -a passeata dos Cem Mil- nasceu da mobilização espontânea de intelectuais e artistas que, em face da repressão policial, se concentraram num teatro e dali apelaram para a solidariedade da população, que aderiu a eles.
Mas essa noção da potencialidade política do povo desorganizado deveria ser acionada também no estado democrático, quando as entidades, que deveriam lutar pelos direitos da população, são cooptadas pelos que exercem o poder.
No Brasil, temos um péssimo exemplo: o de Getúlio Vargas, que, ao criar o imposto sindical, anulou a combatividade dos sindicatos de trabalhadores. Foi uma medida maquiavélica. Enquanto em outros países os sindicatos nascem da conscientização dos trabalhadores, que neles se organizam e os mantêm com sua contribuição mensal, os nossos, sustentados pelo imposto que é cobrado de todos os assalariados e controlado pelo governo, dispensam a participação efetiva dos assalariados.
Noutras palavras, são entidades-fantasmas, que não nasceram da necessidade dos empregados de se organizarem em entidades que defendam seus direitos. Por isso mesmo, poucos são os trabalhadores que delas participam, enquanto os oportunistas, com o apoio de minorais organizadas, passam a dirigi-las, impondo-se como lideranças fajutas.
Através delas, vinculam-se a partidos políticos, elegem-se deputados, tornam-se ministros e passam a atuar na vida política. Como a maioria dos trabalhadores ignora tudo ou quase tudo do que estou dizendo aqui, esses impostores passam por ser líderes de verdade e servem de "pelegos" para manter os trabalhadores submissos aos jogos de interesses.
Agora, mesmo esses falsos líderes apresentaram-se como defensores de um aumento do salário mínimo maior que o oferecido pelo governo, num jogo de cartas marcadas, demagógico, cujo resultado estava previsto.
E assim as coisas irão até que, um dia, o povo desorganizado perca a paciência e acabe com essas lideranças de araque e esses sindicatos de mentira.

DANUZA LEÃO - Tropa de elite

A presidente Dilma simplesmente se levantou e saiu, seguida do seu séquito. Como assim?

FOI BONITA A FESTA, pá.
A nata do empresariado e do jornalismo esteve presente na comemoração dos 90 anos da Folha, na Sala São Paulo. Marcada para as 19h30, a noite se estendeu até a meia-noite, devido ao atraso das autoridades, faz parte. Mas são Pedro ajudou, e a tempestade diária, com direito a raios e trovões, nesse dia chegou mais cedo, foi às 3h da tarde.
Digna de registro a elegância dos convidados. Impossível não pensar que, se fosse no Rio, haveria homens e mulheres de jeans rasgados e tênis, como costumam frequentar o Municipal. Num universo de 1.500 pessoas, apenas uns três homens, se tanto, usavam camisa esporte; todos os outros, terno escuro e gravata, ponto para São Paulo.
Foi bacana o ato multireligioso, mas o cônego Aparecido Pereira não precisava -e não devia- fazer a plateia ficar de pé e rezar o Pai Nosso, já que os outros líderes religiosos não o tinham feito. Afinal, nem todos ali eram católicos.
Na hora de se levantar para fazer seu discurso, a presidente Dilma -distraída- não sabia para que lado ir, se esquerda ou direita. Elementar: faltou um assessor para acompanhá-la até a escada que levava ao palco.
Dilma não é boa de improviso; é bom mesmo que ela evite falar em público para não errar, como aconteceu. Mas em compensação, deve ter emagrecido uns bons cinco quilos; qual foi a dieta, presidente?
Se quiser ficar melhor ainda, precisa corrigir sua postura, pois dá a impressão de estar levando o mundo nos ombros. Pilates três vezes por semana resolveria lindamente o problema.
Legal ela ter mencionado o nome de FHC em seu discurso, mas o de Serra foi forçação de barra. Afinal, no momento, o ex-governador não ocupa nenhum cargo público; não convenceu.
Depois dos discursos, chegou a grande hora: a Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, orgulho da cidade, apresentaria, regida por Isaac Karabtchevsky, a "Sinfonia nº 6", de Villa-Lobos. Mas eis que se vê um pequeno agito onde estavam as autoridades; seria um atentado? Não; a presidente simplesmente se levantou e saiu, seguida do seu séquito. Como assim? Assim mesmo: ela se foi antes da apresentação da orquestra. E antes que eu me esqueça, elegantíssima, perfeita, a casaca do regente. O autor, maestro, o autor.
Voltando: foi uma grande indelicadeza, que fica maior ainda quando feita pela presidente da República. As pessoas se olhavam sem acreditar, e imagino que os músicos da orquestra tenham ficado decepcionados. Afinal, teria sido uma grande honra para eles se apresentar diante da mais importante autoridade da nação. E quando ouvimos, emocionados, o Hino Nacional, ficou mais pesada ainda a descortesia. Pegou mal.
Vamos falar a verdade: a sinfonia foi difícil de ser acompanhada por ouvidos mais leigos, mas o Hino, tocado por uma orquestra de tal ordem -afinal, só estamos acostumados a ouvi-lo em estádios de futebol- foi maravilhoso.
Na saída, os comentários. Um deles eu ouvi, e guardei para contar: duas pessoas -uma petista, a outra tucana- comentavam sobre a saída de Dilma (era o assunto geral).
Uma delas disse que a presidente saiu porque não sabia que a orquestra ia tocar o Hino Nacional, que não tinha sido culpa dela. A outra respondeu: "mas Alckmin, FHC e Serra ficaram". A primeira continuou defendendo Dilma, dizendo que se ela não sabia, era culpa do cerimonial, ao que a outra respondeu: "e desde quando o PT tem cerimonial?"

VINICIUS TORRES FREIRE - Nos trilhos do bonde do Kassab

Movimentação para criar partido para o prefeito de São Paulo revela mudanças e confirma vícios da política


A CRIAÇÃO do partido de Gilberto Kassab, ora no DEM, é um caso mais interessante do que parece à primeira vista: um mero truque para burlar a lei que pune a troca de partido com a perda do mandato. O bonde do Kassab é mais do que uma metáfora engraçada.
Em primeiro lugar, o PDB de Kassab, o Partido da Democracia Brasileira, baldearia políticos nominalmente oposicionistas para o trem do governo ou vagões anexos. Trata-se de uma adaptação evolutiva à norma de 2007 que pretendia coibir o troca-troca partidário. Antes, o travestismo político era explícito.
Quando foi eleito em 2002, Lula contava com coalizão de 228 deputados federais. Um ano depois, às vésperas do fim do prazo de troca-troca para quem queria disputar a eleição de 2004, a coalizão inchara para 389 deputados, graças ainda à adesão de PMDB e PP.
Cerca de 25% dos deputados trocariam de partido, o grosso com o objetivo de aderir ao governo. Os futuros coadjuvantes do mensalão petista, PTB e PL, dobrariam de tamanho -o PT terceirizara o inchaço do governismo por meio de partidos de aluguel e de outros negócios. O PSDB perderia 14 deputados; o PFL, hoje DEM, perderia 20.
A norma de 2007 pretendia dar cabo dessa quizumba. Atenuou a mixórdia, decerto, mas a lei não dá conta das forças sociais e políticas que provocam tais mudanças.
Em segundo lugar, esse PDB, aliado do PSB de Eduardo Campos, governador de Pernambuco, seria um veículo para novas lideranças políticas. Os "novos" não querem saber do DEM, pois o partido do velho reacionarismo definha. Mas por que não se juntam ao PSDB ou ao PMDB? Por que precisam de partidos "bi", "flex", meio governo hoje, talvez meio oposição amanhã? As perguntas não são triviais.
Sim, há mudança porque falta cadeira para tanto cacique, porque Kassab quer ser governador batendo-se com o PSDB, porque Campos quer juntar forças para ser vice do presidente do petismo em 2014 etc. Por isso a dispersão de "lideranças" por vários partidos. Mas não só por isso. Também porque a oposição, quase apenas o PSDB, não consegue organizar suas disputas internas, aglutinar lideranças e vem sendo derrotada em termos eleitorais e ideológicos. A oposição ora parece sem futuro nestes tempos de triunfo petista-desenvolvimentista e do Estado de Bem-Estar Tropical.
Por que os "novos" não querem o PMDB, ainda que o bonde do PDB possa baldear alguns passageiros para esse partido? O PMDB tem o inconveniente de estar com o nome cada vez mais sujo na praça. Mas não só. Observe-se que, apesar de ser o maior partido do país durante quase todo o último quarto de século, o PMDB não cria lideranças nacionais sérias ou candidatos presidenciais viáveis. Seus líderes, neocaciques da redemocratização de 1985, são na verdade quase todos candidatos a réu e a cassações.
Em terceiro lugar, o sucesso da criação do PDB deve misturar ainda mais as tintas dos já cinzentos partidos brasileiros. O socialista PSB (rir, rir) será tingido pelo pefelismo-demismo do PDB, agrupamento que será braço direito do petismo ou de uma força que talvez venha a bater o PT em 2014. O PDB-PSB, enfim, é um candidato a PMDB mirim, um veículo novo e por ora mais limpinho de agenciamento fisiológico.

vinit@uol.com.br

domingo, fevereiro 06, 2011

Vinicius Torres Freire Mentirinhas da revolução



Ocidente morre de medo da revolta no Egito; mídia comemora "redes sociais", mas censura Al Jazeera



HÁ TANTO riso, ó, tanta alegria com a revolução no Egito, mas também pouco siso e, ó, tanta hipocrisia. É repulsiva de farisaica a atitude ocidental em relação ao caso egípcio, tanto na política como na interpretação do tumulto. Senão, vejamos.
1) Houve tanta falação deslumbrada a respeito de mais uma revolução "twittada" ou "facebookeada", agora essa do Egito. Todo mundo tão animado com essa modinha, esse clichê autocentrado, etnocêntrico e ignorante sobre revoluções digitais, tão animado com as "possibilidades das novas mídias", blablablá, mas as grandes operadoras de TV nos EUA e no Brasil, ao menos, não oferecem o serviço da Al Jazeera, aliás empastelada no Cairo.
Essa TV é feita por gente que entende mais de árabes do que quase nós todos, que vai a lugares que não são frequentados por ocidentais, que fala a língua de quem faz a revolução, quando não são seus parentes ou amigos. Tanta conversa mauricinha sobre "novas mídias" e, no fim das contas, há censura velada de a velha mídia da TV, a censura das transmissões da Al Jazeera, cassação político-comercial de um ponto de vista diferente, o árabe;
2) Qual foi a atitude do governo do progressista Barack Obama no início do tumulto no Egito? Apoiar o regime do ditador e patrocinador de torturas, repressões e corrupções Hosni Mubarak. Obama e cia. baixaram um pano rápido diante dessa vergonheira quando perceberam que Mubarak não se aguentaria nas pernas. Mas já dera o vexame. Enfim, eles se torcem de medo que aquele povo que vive ali perto demais da Europa e em torno dos poços do petróleo balancem o coreto para valer. É o óbvio. Mas é bom ressaltar o vexame, aliás mais um do progressista de fancaria Obama;
3) Por falar em imposturas, Nikolas Sarkozy, disse que o "risco" de partidos islâmicos ganharem a eleição não é desculpa para proibir eleições no Egito. Uhm. Em 1990 e 1991, a Frente Islâmica de Salvação (FIS) ganhou as primeiras eleições livres na Argélia. Em 1991, levou 82% do parlamento. E então vieram o golpe militar e massacres do pessoal da FIS, golpe com o apoio quase indisfarçável da França, que depois viria a ser vítima de ataques terroristas de garotos árabes orientados por islamistas fulos com os franceses;
4) A elite e os burocratas corruptos da autocracia egípcia e o establishment euroamericano estão doidos para se livrar de Mubarak e tocar tudo como dantes no quartel;
5) Aparentemente, o estopim da revolta egípcia foi a falta de pão, paz e liberdade num país desigual e cheio de jovens irados e sem futuro. Semanas antes das revoltas no norte da África, a elite político-midiática ocidental voltara a falar da "inflação das commodities", sobre as "reformas de mercado" que melhorariam a oferta de comida no mundo pobre etc. Como em 2008, no outro pico da inflação da comida, quando o neocon bushista Robert Zoellick se candidatou ao Oscar de demagogia ao aparecer num palco segurando de braços abertos um pão e um pacote de arroz em um encontro do Banco Mundial, que preside. O pão é caro ou inexiste no mundo pobre entre outros motivos devido aos subsídios vergonhosos que Europa e EUA dão a seus agricultores. Alguém aí tem ouvido alguma coisa sobre a falta de pão no Egito? Falam de petróleo, Suez, Israel, islamistas loucos etc.

vinit@uol.com.br

O melhor que se faz é rir:: FERREIRA GULLAR

Uma das melhores qualidades de Dias Gomes era o senso de humor, cada vez mais raro nas novelas


FOI UMA pancada difícil de suportar a notícia de que meu amigo e parceiro Dias Gomes (1922-1999) havia morrido naquela noite de maio de 99, em São Paulo, num desastre de automóvel. Na verdade, o chofer do táxi que o levava -ele e Bernadete, sua mulher- para o hotel fez uma manobra insensata e foi abalroado por um ônibus.
Mas por que em São Paulo? É que fora assistir à estreia de uma peça teatral e, após o espetáculo, decidira jantar num restaurante próximo. Terminado o jantar, ele pediu que lhe providenciassem um táxi. O chofer, que parecia bêbado, dobrou onde não podia, colidiu com o ônibus e Dias, impelido para fora do carro, bateu com a cabeça numa mureta que separava as duas pistas. E tudo acabou para ele.
Lembro com frequência desses detalhes que determinaram a tragédia. E penso: se em vez daquele chofer tivessem chamado outro, Dias ainda estaria aqui, entre nós, vivo, brincalhão, escrevendo para a televisão e para o teatro. Mas como por mero acaso o chofer foi aquele e não outro, e também por acaso, naquele exato momento, veio o ônibus em alta velocidade... Seria mais fácil aceitar se ele tivesse morrido num hospital, vítima de uma doença incurável.
Fomos amigos e parceiros. A primeira parceria deu-se em "Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória" (1968). Ele já havia sacado a ideia básica da peça, que teria a estrutura narrativa de um desfile de escola de samba. Aliás, ele me chamou precisamente por causa de minha proximidade com as escolas de samba e porque a peça teria, como eixo, um samba-enredo, coisa que ele não saberia fazer.
Essa parceria nos aproximou tanto que, anos depois, quando voltei do exílio, ele, que era então roteirista da TV Globo, me convidou para colaborar na roteirização de seriados, minisséries e novelas.
Devo dizer que foi ele quem me ensinou a escrever para a televisão, já que minha experiência até então era apenas teatral. Esse convite, porém, era diferente daquele primeiro: agora, seu propósito era conseguir-me um meio de suprir as necessidades da família, agravada pela doença de dois filhos.
E foi também por isso que aceitei o convite, uma vez que escrever para a televisão não fazia parte de meus planos. Pelo contrário. Só então, por razões profissionais, passei a ver novelas e aprender os macetes necessários à sua roteirização. Sempre deixei claro que aquela não era a minha praia e isso talvez explique o fato de que, alguns meses após a morte do Dias, fui demitido. Era ele quem garantia minha permanência ali, exigindo me ter como parceiro.
Mas os anos que trabalhei na televisão muito me ensinaram de teledramaturgia e sobre o próprio veículo. Ao ser demitido, levei um susto, mas, ao constatar que sobrevivera 40 anos sem aquele salário, ganhei alma nova e convidei a Cláudia para um jantar comemorativo de minha demissão. Como sempre fui demitido dos empregos que tive, sei que ser demitido sempre faz bem.
Mas voltemos ao Dias, a quem tanto deve nossa teledramaturgia. Trabalhando com ele, pude observar o seu domínio da técnica narrativa e a capacidade de ir fundo nos problemas, de que são exemplos "Roque Santeiro" (1985), "O Bem-Amado" (1973) e "Saramandaia" (1976), entre muitas criações suas.
É que, por trás do teledramaturgo, estava o que Dias essencialmente era: homem de teatro. Algumas de suas criações para a televisão foram originalmente obras teatrais. Apesar dessa preciosa contribuição, inventando personagens que passaram a integrar nosso cotidiano, nenhum teatro ou logradouro público do Rio, cidade onde viveu a maior parte de sua vida, traz seu nome. Por quê, não sei.
Mas não importa. Ele se mantém presente na memória das pessoas que se comoveram com suas histórias e se identificaram com seus personagens. A toda hora, ouvem-se menções a Odorico Paraguaçu, à viúva Porcina, a Roque Santeiro e aos arapongas.
Uma das suas melhores qualidades era o senso de humor, cada vez mais raro em nossas telenovelas. Nele, sobrava. Quando surgiram duvidosos cursos para ensinar teledramaturgia, comentou, brincalhão: "Quem sabe faz e quem não sabe ensina".

sexta-feira, setembro 17, 2010

Geração espontânea?ELIANE CANTANHÊDE

BRASÍLIA - E não é que a Casa Civil caiu mesmo? A ministra Erenice Guerra foi convidada gentilmente a pedir demissão, e só falta o presidente Lula explicar se foi:
a) para fazer um gesto de caridade com a oposição, coitada, que vai perder feio em 3 de outubro;
b) porque sucumbiu a um complô maligno da imprensa com a elite branca contra a ministra;
c) diante da evidência de que Erenice, os filhos e os irmãos estavam botando a mão na cumbuca;
d) e/ou para todo mundo esquecer rapidinho que Erenice era unha e carne com Dilma Rousseff.
Com Erenice aboletada na Casa Civil, a poucos metros do gabinete presidencial, evidentemente o noticiário seria pautado pelo escândalo durante toda a reta final da campanha. Com Erenice de volta à sua insignificância de "ex-assessora", Lula certamente conta que o caso vá saindo da manchete e perdendo espaço, até se restringir a um pé de página e cair na vala comum do esquecimento, como tantos outros.
Só que Erenice Guerra não chegou ao cargo mais importante do governo porque quis ou por geração espontânea, mas, sim, porque foi indicada pela chefe Dilma, com quem trabalhou lado a lado. Como Dilma é franca favorita para vencer a eleição no primeiro turno, precisa explicar com que informações, com que critérios e de que forma escolhe e nomeia suas pessoas de confiança. Ou é demais pedir isso da virtual presidenta da República?
O PT sempre foi craque ao devassar a vida alheia, providenciar dossiês e contas bancárias para CPIs e até, se necessário, transformar cem em mil, ou mil em um milhão para potencializar o estrago no adversário. Então, como é que o governo nomeia uma pessoa toda enrolada para o ministério mais importante sem saber quem é?
O partido era muito bom para investigar os outros, mas perdeu o pique e não quer ouvir falar de investigação para si mesmo. Nem para o aliado PMDB, evidentemente.

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