Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, setembro 10, 2008

Augusto Nunes-Os fora-da-lei fizeram justiça

JB


O Brasil não é para principiantes, foram consolados por Tom Jobim os amadores interessados em compreender a geléia geral tropical – e justificadamente confusos com a profusão de coisas de que até Deus duvida. Também não é para um profissional qualquer, acrescentaria Tom Jobim se tivesse testemunhado a seqüência de eventos extraordinários que agitou a primeira semana de setembro. O mais espantoso assustou os ainda capazes de assustar-se no dia 3, quando saíram da cadeia de Guarulhos três brasileiros que, sem terem cometido crime nenhum, ali ficaram encarcerados dois anos e meio. O Brasil deu de fazer coisas que nem Deus compreende.

Embora onisciente, como se soube desde sempre, e brasileiro de cantar a segunda parte do Hino Nacional, como se descobriu mais recentemente, Ele talvez fizesse um pedido de vista se lhe coubesse opinar sobre um monumento ao absurdo bem mais intrigante que o mistério da Santíssima Trindade. O drama vivido por Renato Correia de Brito, Wagner Conceição da Silva e William de Brito Silva foi muito mais que um erro judicial. Foi uma prova contundente de que, no Brasil do pré-sal e do PAC, nem sempre existe lógica por trás da loucura.

Coisa de doido, diria um Napoleão de hospício se convidado a comentar o enredo inverossímil, construído sobre papéis trocados, mãos invertidas, parcerias impossíveis e reviravoltas que deixariam atônito um García Márquez. Perseguidos, seqüestrados e torturados por policiais, três inocentes foram transformados em culpados. Recuperaram a confiança nos seres humanos só na prisão, governada por bandidos que lhes garantiram o amparo que faltara quando em liberdade.

Os mocinhos eram bandidos e estavam do lado de fora da prisão, haviam constatado os passageiros do horror. Os bandidos eram mocinhos e estavam no interior da cadeia, surpreenderam-se depois de decretada a prisão preventiva que, limitada por lei a 81 dias, duraria mais de dois anos. Quase 10 mil horas, amputadas da vida de cada um pela ação conjunta da polícia, do delegado e do promotor.

Os agentes da ordem convenceram o juiz de que, em 17 de agosto de 2006, Renato, com a ajuda do primo William e do amigo Wagner, estuprara e matara a ex-namorada Vanessa Batista de Freitas, 22 anos, com quem tinha uma filha. A sentença foi reformada a tempo pelo tribunal montado por ordem do PCC, a maior organização criminosa do país.

Como o código de honra da sigla condena à morte os estupradores, o advogado Augusto Tolentino pediu, em 21 de setembro de 2006, o relaxamento da prisão preventiva. A reivindicação foi negada pelo juiz. Para salvar os inocentes, Tolentino encaminhou aos verdadeiros administradores da prisão a papelada pelo caso. Os magistrados do PCC foram mais equilibrados que o juiz de Guarulhos, mais judiciosos que o promotor e mais clementes que os sherloques. Os companheiros de calvário foram declarados inocentes e autorizados a sobreviver.

Ainda estariam atrás das grades se, neste 29 de agosto, um psicopata de carteirinha não tivesse ressuscitado a verdade enterrada pela Justiça. Em meio ao interrogatório destinado a esclarecer casos parecidos com o da jovem assassinada no matagal, o maníaco sexual Leandro Basílio Rodrigues, 19 anos, decidiu engordar o prontuário com o relato de outros horrores. Espontaneamente, anexou Vanessa à lista de vítimas, descreveu detalhadamente o que ocorrera e fez um lembrete aos inquisidores: "Se tem pessoas presas por isso, são inocentes".

Renato, William e Wagner saíram dois dias depois porque o PCC prometeu destruir os próprios aposentos se a soltura demorasse. Graças aos bandidos, os inocentes não continuaram na multidão dos sem- recurso, formada por 130 mil brasileiros presos preventivamente. Como faltam recursos financeiros, faltam advogados. Como faltam advogados, faltam recursos a instâncias superiores. É o Brasil.

Fausto Wolff

Da palavra que abriu a primeira reportagem ao ponto final da última crônica, Fausto Wolff só escreveu o que achava que deveria escrever. Passou a vida lutando por um país menos inclemente com seus filhos. Nunca se afastou da tribo dos que não se vendem e não se rendem.

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