quarta-feira, março 19, 2014

Zuenir Ventura: Afinal, que verão foi esse?

No quesito personagem, a coroa vai para o implacável ministro Joaquim Barbosa, encarnando a luta pela moralização dos costumes políticos

O carioca costuma dar nome a seus verões, inspirado em fatos, tendências ou personagens que marcaram o período. Alguns ficaram famosos. O de 1980 foi o “verão da tanga”, por causa da sunga mínima de crochê lilás que Fernando Gabeira usou em Ipanema, inaugurando a abertura e a “política do corpo”, uma novidade que trouxe do exílio e com a qual chocou a esquerda conservadora. O de 1987, o da “lata”, teve como origem o insólito aparecimento de embalagens semelhantes às de leite em pó boiando no litoral fluminense. Pescadores entregaram amostras à polícia, que ao abrir teve a surpresa: cada lata continha 1,5kg de maconha. O mistério — um produto de excelente qualidade distribuído de graça — foi desfeito quando o governo americano denunciou a presença de um navio vindo da Austrália carregando 22 toneladas da erva, que seria transportada para Miami. Quando a tripulação soube que o barco estava sendo procurado pela polícia, jogou ao mar a carga de 15 mil latas, muitas das quais vieram parar na orla do Rio. O episódio virou até livro, do jornalista Wilson Aquino.

Que título merece o verão que termina amanhã? Há fortes candidatos a epítetos. Do ponto de vista climático, ele será com certeza o dos “extremos”, tendo em vista os 50 graus de sensação térmica que registrou, surgindo como o quarto mais quente desde 1917, quando começou a contagem da série histórica. No quesito personagem, a coroa vai para o implacável ministro Joaquim Barbosa, encarnando a luta pela moralização dos costumes políticos. Mas, em termos de comportamento, a temporada ficará como a do primeiro beijo gay em telenovela, equivalente ao topless de Maria Padilha e Maria Zilda em “Água viva”, de Gilberto Braga. Com a diferença de que o beijo foi aplaudido pelo público, enquanto as atrizes foram agredidas ao gravarem a cena em Ipanema em 1980.

Os rolezinhos seriam também candidatos a musa da tórrida estação, mas eles fizeram parte de um fenômeno mais geral, que infelizmente constituiu a triste marca desse verão, presente em várias ocasiões e situações: a barbárie urbana. Ela se manifestou em todos os graus e excessos, praticada por traficantes e bandidos em geral, mas também pela banda podre da polícia (o caso mais recente foi o da senhora que, baleada, foi arrastada no asfalto por um camburão levado por três PMs). Dizem que essas coisas não acontecem só no Rio, mas aqui, cidade maravilhosa, terra do hedonismo, esse desprezo pela vida devia constituir um inadmissível escândalo.

Convenhamos que ser o “verão da violência” não é o melhor título para a autoestima da capital simbólica do país no ano em que ele quer se apresentar ao mundo como a sede de uma Copa para nenhum gringo botar defeito.

Fonte: O Globo

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