O GLOBO
O caso do linchamento moral e quase físico a que foi submetida uma estudante de turismo da Universidade Bandeirantes, de São Bernardo do Campo, é um exemplo feliz do que os novos instrumentos de tecnologia da comunicação podem fazer em benefício da sociedade. Graças às filmadoras dos celulares, a agressão à estudante, motivada por estar usando um vestido considerado curto demais por vários de seus colegas, foi divulgada pela internet e logo chamou a atenção de toda a sociedade.
A repercussão negativa daquela atitude bárbara de uma turba de estudantes universitários, gritando “estupra” e xingando a colega, tomou conta dos sites de relacionamento e dos blogs, colocando de um lado aquela reação de vândalos representando o lado atrasado e preconceituoso de nossa sociedade, em contraponto ao país moderno que deveria estar sendo criado e incentivado também dentro das universidades.
A sociedade civil global que está se formando com as novas tecnologias, segundo a definição do sociólogo Manuel Castells, da Universidade Southern Califórnia, nos Estados Unidos, tem uma nova maneira de encarar o mundo, tentando preencher o que Castells define de “vazio de representação”.
É esse sentimento que faz surgir “mobilizações espontâneas usando sistemas autônomos de comunicação”. Internet e comunicação sem fio, como os telefones celulares, fazendo a ligação global, horizontal, de comunicação, proveem um espaço público como instrumento de organização e meio de debate, diálogo e decisões coletivas, ressalta Castells.
O uso político desses instrumentos de comunicação instantânea já era fenômeno moderno conhecido, cujo fato mais exemplar continua sendo a campanha, através de mensagens de telefone celular, que acabou ajudando a derrotar o primeiro-ministro Aznar na Espanha depois do atentado terrorista em 2004, um exemplo clássico da potencialidade de mobilização dos novos meios de comunicação.
Esse caso da Uniban é um avanço em certo sentido, porque a comunicação entre os setores da sociedade que se envolveram no debate se deu em defesa de valores que não são os meramente partidários, mas que representam um amadurecimento político no sentido mais amplo do termo.
A primeira reação da Uniban foi tentar arrostar a opinião pública, na falta de condição moral de enfrentar os arruaceiros, seja por pensarem como eles, seja por temerem ficar sem o dinheiro das mensalidades.
Uma nota oficial da instituição que deveria ensinar cidadania a seus alunos transferiu a culpa para uma suposta “atitude provocativa” da aluna, que queria chamar a atenção para si, e o que aconteceu em seguida foi caracterizado como uma “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”.
A aluna Geisy foi expulsa por “flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”.
Essa hipocrisia oficial, no entanto, não teve respaldo da maioria da sociedade, e várias instâncias institucionais começaram a se manifestar, a começar pelo Ministério da Educação que fez muito bem em pedir explicações a uma universidade que decididamente não tem como funcionar como um estabelecimento de ensino quando incentiva comportamentos retrógrados e humilha uma estudante, dando péssimo exemplo de cidadania a quem deveria preparar para a vida em comunidade.
O recuo da Universidade Bandeirantes (Uniban), de São Bernardo do Campo, da decisão de expulsar a estudante de turismo Geisy Arruda é o resultado da reação da parte saudável e moderna de nossa sociedade, que já não admite com tanta naturalidade quanto a direção da Universidade imaginou que agressões desse tipo sejam realizadas.
A aluna Geisy Arruda deu entrevistas dizendo que a sua primeira reação foi a de se sentir culpada por tudo o que aconteceu, se sentir “um lixo”. É a reação natural de toda pessoa que se transforma, por pressões sociais hipócritas, de vítima em culpada.
Esses modernos meios de comunicação, como a internet ou o twitter, por serem quase incontroláveis por sua própria natureza, são o tormento tanto de governos quanto de sociedades autoritárias.
Por uma coincidência feliz, a blogueira cubana Yoani Sanchez, do blog Desde Cuba, que relatou ter sido vítima recentemente de um ataque de membros do serviço secreto de Cuba, que a agrediram e ameaçaram por suas críticas, fez uma comparação com sua situação e a de vítimas de violência, seja política, seja social.
“Depois da agressão, há certos míopes que culpam a própria vítima pelo ocorrido.
Se é uma mulher que foi violada, alguém explica que sua saia era muito curta, ou que se movia provocativamente”, comenta Yoani Sanchez, referindose ao fato de que as várias pessoas que presenciaram a agressão de que foi vítima não se apresentaram para servir de testemunha, com receio da repressão da ditadura cubana.
Para se desculparem do medo, criam a ideia de que “a vítima é a causadora e o agressor é um mero executor de uma lição merecida, um simples corregedor de nossos desvios”.
Essa foi a tentativa primeira da Uniban, a de demonizar a vítima e transformar seus algozes em meros defensores do “ambiente escolar” sadio.
Seu recuo não pode ser meramente tático.
Cometi uma injustiça com o ministro Joaquim Barbosa na coluna de domingo. O ministro é apenas o relator das denúncias, em ambos os casos, do então procurador geral da República, Antônio Fernando de Souza. Ou seja, não foi o ministro quem deu tratamento diferenciado ao presidente Lula, no mensalão, e ao senador Eduardo Azeredo, no chamado mensalão mineiro, mas sim o procurador-geral, a quem deveria ter sido dirigido o pedido de esclarecimento que fiz na coluna.
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