O Globo
Em dezembro, quando a delegação brasileira estiver em Copenhague, chefiada pela ministra Dilma Rousseff, o Brasil estará fazendo um leilão de energia, para 2015, em que devem sair vencedores três usinas a carvão importado, três usinas a carvão nacional e uma a gás natural liquefeito. Esse será apenas o sinal mais explícito, e em hora mais constrangedora, da opção brasileira por sujar a matriz
Como é possível andar na direção oposta da que se deveria andar? Simples.
Basta fazer um planejamento energético preso a ideias do passado.
— No Brasil só se pensa em barragem ou térmica a combustível fóssil. Isso porque o planejamento do setor energético brasileiro envelheceu.
Precisamos de um Plano Real na energia que faça o Brasil pensar de forma moderna sobre essa questão — diz Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
Uma das características comuns nos dois últimos governos foi que a maior parte da nova capacidade instalada é de origem térmica, na maioria, fóssil. Confira nos dois gráficos abaixo enviados por Adriano Pires. Da energia nova contratada nos leilões de energia do governo Lula, 63% são de termelétricas e 37% de hidrelétricas. No outro gráfico, repare a divisão das térmicas: só 3% de biomassa, que é renovável. O resto é fóssil, mas alguns piores, como carvão mineral, que responde por 17%, e óleo combustível, 45%.
Que não fale o roto do rasgado. O governo do PSDB também privilegiou as térmicas.
É uma armadilha: toda a estrutura técnica do setor elétrico só consegue pensar em hidrelétricas.
Que são uma opção melhor, mas que terão cada vez mais dificuldade de ter licenças ambientais pelos danos que causam na hora da construção da usina e das linhas de transmissão. Como as grandes barragens também interessam aos políticos, a gestão politizada favorece isso também. A licença ambiental emperra, em muitos casos em obstáculos reais, e a segunda opção do setor é sempre fóssil.
— Não se pensa em usar todas as fontes que a natureza nos deu. Não se pensa que o Brasil é continental, e que a tendência agora é descentralizar, especializando por área: o Nordeste é mais propício a eólica, Rio e Espírito Santo, gás natural — o mais limpo dos fósseis — São Paulo tem muita biomassa do bagaço da cana — diz Adriano Pires.
Enquanto isso, a China, que tem abundante carvão barato, está procurando outras fontes. De 2004 a 2008, ela construiu o equivalente a uma Itaipu em energia eólica: 14 mil megawatts. A meta era chegar a 30 mil MW até 2020, mas o novo plano de revitalização da energia renovável aumentou para impressionantes 100 mil MW de energia eólica até 2020, porque a meta de 30 mil será alcançada em 2010. A China tem hoje a quarta maior capacidade instalada em energia do vento, depois dos Estados Unidos, Alemanha e Espanha.
A indústria chinesa de painéis para energia fotovoltaica (solar) já é a segunda do mundo, depois do Japão. O carvão, dominante em sua matriz, está provocando desastres.
Um deles: a chuva ácida cai em 30% das terras chinesas, destruindo safras e contaminando águas.
Há 15 anos o Brasil vem errando na área de energia.
Investe menos do que precisa, está ampliando a presença de energia fóssil, deixa o país sujeito aos apagões e ocupa o comando do setor com partidos políticos. O que mudou entre um governo e outro é o partido que recebe o quinhão elétrico. Era o então PFL no governo passado, é o PMDB no atual governo.
No Brasil a maneira como é feito o cálculo dos custos das novas fontes de energia faz com que elas estejam fora do leilão, sejam mais caras do que suas competidoras a combustível fóssil.
— Com o pré-sal, a tendência é aumentar, porque haverá maior oferta de petróleo aqui dentro — diz Adriano Pires.
O governo Fernando Henrique, segundo o estudo do CBIE, aumentou em 48% a capacidade instalada, de 54 mil para 80 mil MW. O governo Lula, na hipótese otimista, vai aumentar até o fim do mandato 43% da capacidade.
Os dois são equivalentes.
Nos dois governos, a nova energia é mais fóssil do que renovável. O governo Fernando Henrique começou a privatizar, depois parou, mas não deixava as estatais investirem. O governo Lula, sob o comando de Dilma, deu mais poderes às estatais.
Nos dois períodos, o Brasil fez escolhas erradas e que não levam em consideração um ponto fundamental: o mundo está mudando.
Na nova versão Dilma-baixaemissão, que interpreta atualmente, a ministra terá o constrangimento de estar lá em Copenhague dizendo que o Brasil se compromete com metas de redução das emissões, enquanto aqui o modelo energético, do qual ela é uma das inspiradoras, estará contratando as mais sujas das opções de energia.
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