FOLHA DE S. PAULO
Vamos continuar com a farra do boi do crescimento do consumo ou vamos dar um freio de arrumação?
O APAGÃO elétrico que atingiu grande parte do Brasil deve servir como advertência para o governo e seus áulicos. Talvez seja mesmo um sinal dos deuses para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido por sua sorte. A euforia com os resultados recentes da economia parece ter tirado do nosso presidente um mínimo de coerência com o software que gerencia -com sucesso- a política econômica nestes sete anos de mandato.
Progressivamente estão sendo abandonados princípios importantes -de equilíbrio fiscal e estímulos aos investimentos, por exemplo- e privilegiadas as medidas de estímulo ao consumo. Agora mesmo se fala de uma bolsa telefone celular para a parcela mais pobre da população.
Não percebem o presidente e seus principais ministros que os estímulos ao consumo -via principalmente programas sociais e aumento real do salário mínimo- já atingiram o objetivo de acelerar a distribuição dos ganhos do crescimento nestes últimos anos. Mais de 23 milhões de brasileiros chegaram ao nível de uma classe média emergente e passaram a fazer parte da chamada sociedade de consumo. Com isso cresceu a demanda de bens e serviços, aumentando a escala das empresas voltadas para esse setor e criando estímulos para o investimento privado.
Mas insistir nesse caminho quando a economia já caminha para atingir o limite de produção é um erro grave. A prioridade nos próximos anos deve estar direcionada para a acumulação de poupança interna e o estímulo dos investimentos, pelo setor público e pelas empresas privadas. Para evitar desequilíbrios mais graves, será preciso desacelerar de forma importante o crescimento dos gastos correntes do governo e aumentar sua capacidade de investimento na infraestrutura econômica.
O Brasil, para crescer de forma acelerada na próxima década, vai precisar de um software econômico diferente do utilizado pelo presidente Lula depois de sua conversão ao modelo dos anos Fernando Henrique Cardoso. Esse é um desafio frequente nas economias emergentes à medida que os obstáculos e as dificuldades mudam de qualidade com o progresso e o desenvolvimento. Viver do sucesso do passado não garante as vitórias do futuro. São nesses momentos decisivos -embora não visíveis a olho nu para a maioria- que se forja o futuro de uma sociedade como a brasileira.
Em 2010, com a eleição de um novo presidente depois de 16 anos de FHC e Lula, viveremos com certeza um momento como esse. Tenho receio de que no campo do governo prevaleça a euforia com o sucesso do passado e seja deixado de lado o esforço de entender os novos desafios e as oportunidades que o futuro nos apresenta. Se isso ocorrer, a política de estímulos ao consumo vai colocar a economia brasileira diante de três cenários perigosos: ou uma aceleração da inflação, ou um crescimento perigoso do deficit em conta-corrente, ou -o que seria o pior deles- uma combinação dos dois.
Os raios que caíram no interior de São Paulo precisam ser entendidos -sejam um sinal divino ou apenas uma ocorrência estatística- como uma imagem figurada do dilema que o eleitor vai ter que enfrentar nas eleições do ano que vem. Vamos continuar com a farra do boi do crescimento do consumo ou vamos dar um freio de arrumação para podermos crescer de forma acelerada em toda a próxima década?
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