Entrevista:O Estado inteligente
Celso Ming - Maior que a crise
O forte avanço do PIB no segundo trimestre do ano surpreendeu até os mais otimistas.
Há várias formas de medir esse crescimento. Vamos ficar com duas: foi de 6,0%, se o acumulado do ano for comparado com igual período do ano anterior; e foi de 6,1%, se comparado o segundo trimestre deste ano com o segundo trimestre de 2007.
Esse bom resultado foi obtido num ambiente externo prostrado por uma séria e prolongada crise financeira cujo fim não se enxerga nem mesmo agora.
E é realizado no contexto de uma política monetária implacável, assim considerada mesmo antes do aperto de 2,50 pontos porcentuais nos juros básicos que o Banco Central impôs a partir de abril. Ou seja, está demonstrado que nem “os juros mais altos do mundo” são impedimento irreversível para um bom desempenho do setor produtivo.
O resultado está solidamente fincado no aumento do consumo interno (Consumo das Famílias), que marcha ao ritmo de 6,7% ao ano. Este, por sua vez, vai sendo empurrado por quatro fatores convergentes: aumento de 8,1% da massa salarial; disparada de 32,9% no crédito ao consumidor; aumento de 5,3% da despesa do setor público, que gera renda; e salto de 16,2% do investimento que, num primeiro momento, também implica pagamentos e aumento de renda.
Por falar em investimento, conhecido entre os técnicos como Formação Bruta de Capital Fixo, não dá para deixar de festejar seu sólido avanço (em relação ao trimestre anterior). É uma magnitude que se repete há quatro trimestres (14,6%, 16,0%, 15,2% e 16,2%), o que mostra a disposição do setor produtivo de aumentar sua capacidade de suprimento ao mercado. O bom desempenho do setor de máquinas e equipamentos (que cresce a 19,9% ao ano) e as importações do setor, que avançam 51,7%, já vinham reforçando esse ponto de vista.
Alguns analistas enfatizam que o crescimento expressivo do investimento garante atendimento futuro do consumo sem risco de inflação. E nisso criticam o Banco Central quando insiste em que o consumo cresce perigosamente acima da capacidade de oferta da economia (produção mais importações).
O problema aí é que o investimento pesa apenas 21% do PIB, e o consumo passa dos 78%.
A principal justificativa do Banco Central para o atual aperto monetário é a de que a lei da oferta e da procura está pendendo para o lado da procura e que, por isso, é preciso contê-la de maneira a adequá-la à oferta.
Em outras palavras, por esse ponto de vista, o avanço do PIB está superior ao crescimento potencial e não é sustentável, insiste o Banco Central. Assim, os novos números devem reforçar a argumentação da próxima Ata do Copom para que o aperto continue.
Alguns observadores prevêem desempenho medíocre do setor produtivo no ano que vem. No entanto, ainda que seja comprovada uma desaceleração da produção nos seis meses seguintes, os bons resultados deste primeiro semestre parecem suficientes para garantir um crescimento econômico neste ano em torno dos 5% e, além disso, prover um bom arrasto para 2009.
Quer dizer, por enquanto o Brasil está se mostrando maior do que a crise.
CONFIRA
Sem surpresa - Ao contrário do que ocorreu com o PIB, o Copom decidiu ontem o que 98 entre 100 analistas esperavam. E, assim, manteve a dose de alta dos juros em 0,75 ponto porcentual, para 13,75% ao ano.
Desta vez os críticos nem poderão usar o conhecido argumento de que os juros altos estão inibindo a produção e o investimento. Não foi o que apontaram os números do PIB (veja texto ao lado).
Além do risco de inflação de demanda, a Ata a ser publicada na próxima quinta-feira deve repisar que a desvalorização do real deixou de trabalhar para conter a inflação.
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