Entrevista:O Estado inteligente
Sempre às quintas - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 20/07
Acontece só a cada 45 dias, mas não é fácil. Jornalista de economia tem que atravessar 77 parágrafos da ata do Copom para contar para os leitores o que o Banco Central está pensando. Nesta 168ª ata, ele informou que os juros vão continuar caindo; há possibilidade de recuperação da economia no segundo semestre. Que o mundo está crescendo menos do que se esperava e que a situação continua feia lá fora.
É sempre às quintas-feiras a divulgação da ata, uma semana depois da reunião. Eles dizem o que acham no dialeto deles e o mais interessante sempre está nas entrelinhas, nas palavras suprimidas ou aparecidas. Os fluentes em "coponês" vão com lupa à cata de cada sinal. A palavra "parcimônia" está lá de novo no parágrafo 35. O BC tem dito que os juros vão continuar a cair, mas "com parcimônia".
Há outros dados justificando a queda. Por exemplo: "a taxa de crescimento acumulada em quatro trimestres recuou para 1,9%, ratificando a visão de que a economia tem crescido abaixo do seu potencial". Já o IBC-Br, um índice desenvolvido por eles para medir o ritmo da economia, mostra um número ainda pior: 1,7% em doze meses. O país cresce pouco.
A leitura da ata do Copom é um exercício de paciência e descoberta de palavras- chave que vão mostrando o cenário econômico na visão do Banco Central. Vocês podem perguntar: para que tudo isso?
Houve um tempo em que a taxa de juros era decidida de forma improvisada, ninguém sabia o que pensava o Banco Central e quem tivesse um amigo lá poderia se dar muito bem. Foi na era da inflação louca. Depois, veio o período do câmbio quase fixo que amansou a taxa. Em 1999, o país adotou o atual sistema que inclui atas e relatórios.
Primeiro com a ajuda da política cambial, depois com as metas de inflação, o Brasil venceu um inimigo persistente. Nos anos 1940, a inflação pulou para dois dígitos e lá ficou por meio século. Só foi derrotada no Plano Real, há 18 anos. Por isso, tem que ficar sendo vigiada.
E é vigiadíssima. Para vocês terem uma ideia, nos três primeiros parágrafos da ata, eles falam das medidas de núcleo de inflação, média de inflação, núcleo por dupla ponderação, médias aparadas, inflação subjacente, preços livres, preços administrados, dos bens comercializados, de serviços, IGP-DI, IPCA, IPC, INCC e IPP/IT. Esse último é o Índice de Preços ao Produtor - Indústria de Transformação. E assim, com a taxa de inflação analisada, esquadrinhada, virada do avesso e radiografada, chegaram os doutores à conclusão de que ela terminará o ano em torno de 4,5% e, com isso, o país completará oito anos de cumprimento da meta. Claro, no ano passado, passou raspando na cerca com um quase gol de mão: adiamento da elevação dos impostos sobre cigarro e do reajuste dos preços da gasolina. Aliás, o BC disse que continua prevendo 0% de elevação do preço do combustível, apesar do rufar de tambores da Petrobras.
Com a inflação em declínio, melhoram as expectativas dos agentes, informa o Banco Central. Acontece assim: quando a taxa cai, há mais renda disponível, o que eleva o consumo.
No mundo, o Copom viu "incerteza acima do usual". Conta que piorou a situação desde a última reunião, um mês e meio atrás. Vê "riscos elevados para a estabilidade financeira global". O mundo vai crescer menos do que se imaginava, avisa. Um dos números: o PIB do primeiro trimestre dos Estados Unidos indica um crescimento de 1,9%; no último trimestre do ano passado, estava a 3%. Mas informa que não "contempla a ocorrência de eventos extremos no mercado financeiro internacional". Menos mal, mas com o mundo assim, o Brasil é afetado pela queda do investimento e do comércio.
O Copom disse que todos os países estão baixando juros, ou melhor, que a "política monetária é expansionista". A China, inclusive, cortou duas vezes os juros nos últimos dois meses.
As commodities estão com queda de preço. As metálicas caíram 26,2% em 12 meses e as agrícolas, 12,5%. E isso com quebra de safra de soja e de milho. A notícia pode ser boa, porque derruba a inflação. "Mantém o viés desinflacionário". Mas tem uma complicação: derruba o saldo comercial. Ele caiu US$ 4 bilhões de um mês para o outro. Isso não chega a preocupar um país que tem US$ 373 bilhões de reservas, US$ 21 bilhões a mais do que em dezembro.
Segundo o comitê: "a demanda doméstica continuará robusta". Ou seja, os brasileiros manterão o ritmo de compras, porque apesar de a indústria estar em queda e a economia crescendo menos, o mercado de trabalho vai bem e o crédito ajuda na compra nossa de cada dia. Sempre que fala de crédito, o BC diz que a expansão está sendo "moderada". Cresceu 18% nos últimos 12 meses.
Tem um recadinho lá para a Fazenda. "O comitê considera oportunas iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio das operações de crédito". Só pode estar falando da TJLP que caiu, aumentando o subsídio. Tem também um alerta nada simpático contra a "concessão de aumentos de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade".
No final, eles contam que votaram de forma unânime pela queda dos juros para 8%. São oito os votantes. Todos, homens. Essa coluna considera oportuna uma política expansionista da diversidade nesse comitê, mesmo que seja tempestivamente e com parcimônia.
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