Entrevista:O Estado inteligente
A sombra presente - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 26/07
Não direi que um fantasma ronda a Europa. Ele já chegou. Não assombra apenas a Zona do Euro, atinge também o Reino Unido. Os ingleses tiveram o terceiro trimestre de encolhimento do PIB e temem a perda da classificação de triplo A. A Espanha admite que o inevitável bate à porta: o país vai quebrar pela falência múltipla das regiões autônomas. Sem qualquer autonomia de voo, elas pedem socorro à União, que também pede socorro .
As partes da Espanha querem ser financiadas pelo Estado espanhol, que está sendo socorrido pelo comando da Zona do Euro. Até agora, o socorro não é direto. Tentou-se a ficção da ajuda aos bancos, que foi aprovada no final de junho, mas ainda não implementada. Agora, com as dificuldades das suas partes, é a própria Espanha que está totalmente encrencada .
O Reino Unido comemorava o fato de estar livre do peso da moeda comum e fazia admoestações à Alemanha por erros na condução da crise. Mas também tem alto endividamento, também tem gastos excessivos e, ontem, foi anunciado o terceiro trimestre de queda do PIB, confirmando a recessão. O número de -0,7% para o segundo trimestre do ano foi maior do que o previsto e provocou vários debates no país, além de elevar os temores de que a nota de risco possa ser rebaixada .
Mas existem diferenças. A Inglaterra sofre a crise em forma de recessão. O governo conservador vive a ironia de governar um país menor do que o que recebeu dos trabalhistas, aos quais tanto acusou de não saber administrar a crise. O que acontece na Espanha é uma crise de confiança, o risco da insolvência. Ontem, José Antonio Herce, sócio da consultoria AFI (Analistas Financeiros Internacionais) e professor de Economia da Universidade Complutense de Madri, admitiu em conversa com Valéria Maniero que a crise espanhola passou para uma nova fase. O momento atual foi consequência da demora das decisões, da piora da recessão econômica e do pedido de socorro das regiões autônomas.
- O risco mais grave é de uma estagnação da atividade e do emprego que dure anos. Isso é o que aconteceria se o Tesouro precisasse ser resgatado, e há probabilidade alta de que isso aconteça - disse Herce .
Ele acredita que com o colchão de liquidez que tem, o país aguenta até o outono - que começa no fim de setembro, mas não mais do que isso. A tentativa - aparentemente inútil - de evitar o resgate do país é para não submeter a Espanha a medidas de cortes ainda mais severas. As atuais já levaram o país a dois anos de recessão. O fantasma agora é de novos e mais profundos ajustes determinados pelos credores, através da chamada troica, que fiscalizariam as contas em caso de resgate. A Espanha tem pouquíssima chance - se é que tem alguma - de evitar o resgate pela Zona do Euro .
Ontem, a empresa espanhola Telefônica anunciou em Madri que vai suspender o pagamento de dividendos e cortar uma parcela dos salários dos altos executivos como parte do processo para se proteger da crise do país.
A Catalunha tem 7,5 milhões de habitantes, representa 16% da população espanhola, 18,7% do PIB, mas é a região mais rica. A renda per capita é 17% superior à do conjunto da Espanha. É a mais endividada, 21% do PIB, acima de Valência e Castilla-La Mancha, por exemplo. A importância econômica da Catalunha para a Espanha é enorme .
O que Patricia Gabaldón, do IE Business School, escola de Negócios de Madri, contou ilustra bem como são esses eventos. Há sempre um círculo vicioso. No caso: a crise fez com que a capacidade de arrecadação das regiões caísse e elas tiveram dificuldade de cumprir seus compromissos financeiros; como a falta de confiança dos mercados eleva o custo da dívida, essas regiões ficaram sem capacidade de se financiar .
- Ao pedir financiamento ao Fundo de Liquidez, as comunidades autônomas terão que enfrentar condições orçamentárias duras. Uma parte importante do ajuste espanhol é transferida para as regiões. Dado o nível de dívida que já tinham, não são capazes de fazer frente aos compromissos - diz Patricia Gabaldón.
Não há solução de curto prazo para nenhum desses países em dificuldade. A Grécia caminha para sair da Zona do Euro. Hoje, os economistas se dividem apenas sobre em quanto tempo isso ocorrerá. A maioria das apostas é para o ano que vem. Isso, que antes parecia ser um grande problema, já se dá hoje como favas contadas .
A complicação da Espanha é que o país é grande, o quarto maior, já vinha adotando medidas de austeridade que não funcionaram e está com um quadro social dramático pela dimensão do desemprego .
- A verdadeira tragédia para a Espanha e para a Europa seria deixar que as coisas chegassem ao ponto extremo em que estivesse comprometida a própria sobrevivência do euro. Isso é algo que as futuras gerações teriam o direito de censurar na atual geração de líderes europeus, que estão se mostrando dramaticamente incapazes de controlar os problemas - disse José Antonio Herce .
O fantasma da crise econômica profunda que, por contágio, atinge vários países já é uma realidade entre os europeus. O que ainda ronda a região é o do colapso da experiência de uma moeda comum .
Arquivo do blog
-
▼
2012
(2586)
-
▼
julho
(301)
- Pressões - MERVAL PEREIRA
- Muito mais que descortês - MIRIAM LEITÃO
- Sombras sobre o Estado - EDITORIAL FOLHA DE SP
- O último empurrão - JOSÉ PAULO KUPFER
- A bronca errada de Dilma - EDITORIAL O ESTADÃO
- O que Chávez esconde - EDITORIAL O ESTADÃO
- A musa abusou Dora Kramer
- O IGP-M surpreende Celso Ming
- A culpa também é do Brasil Tamara Avetikian
- Hora da verdade - RICARDO NOBLAT
- Lula, Dirceu e a "farsa" - MELCHIADES FILHO
- PAC da privatização - CARLOS ALBERTO SARDENBERG
- Cinco perguntas - J. R. GUZZO
- A legalização do Valerioduto - GUILHERME FIÚZA
- Técnica, mas política - MERVAL PEREIRA
- Alcance restrito - DORA KRAMER
- Contradições petistas - SUELY CALDAS
- Inflação como salvação - CELSO MING
- Agosto, mês de definições - ALBERTO TAMER
- O julgamento - MÍRIAM LEITÃO
- A eletricidade e o custo Brasil - EDITORIAL O ESTADÃO
- O estado de violência - GAUDÊNCIO TORQUATO
- O ''Dossiê Golpe de 64'' saiu da gaveta - ELIO GAS...
- Toda arte é atual - FERREIRA GULLAR
- Um julgamento para além do mensalão - EDITORIAL O ...
- À espera do mensalão - EDITORIAL FOLHA DE SP
- Não sirvo, sirvo-me - JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Não sirvo, sirvo-me - JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Entre dois fogos Míriam Leitão
- Seca lá, bom tempo cá CELSO MING
- Ruy Castro - "Grrrnnf!", disse ele
- Não basta apenas anunciar concessões - EDITORIAL O...
- Eu e o bóson - RUY CASTRO
- E o mundo não se acabou - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE ...
- A crise da gerência da crise - EDITORIAL O ESTADÃO
- A piada de Delúbio - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA
- Ritmo do trabalho - MIRIAM LEITÃO
- Mais perto da autonomia -Gilles Lapouge
- Idoso profissional Nelson Motta
- A sombra da suspeita —Dora Kramer
- O despreparo dos bancos Celso Ming
- Em greve e invisíveis Marcio Tavares D'Amaral
- Brasília por dentro João Mellão Neto
- A sombra presente - MIRIAM LEITÃO
- O lulismo e os salários federais - EDITORIAL O EST...
- Cultura do biombo Dora Kramer
- Só pensam naquilo Celso Ming
- China afeta menos o Brasil Alberto Tamer
- Contra o consumidor, de novo Carlos Alberto Sarden...
- Mambembe DORA KRAMER
- Estimada presidente Dilma Rousseff,: Elio Gaspari
- Com vento e sol - MIRIAM LEITÃO
- Continuam chegando - CELSO MING
- O mundo rosa de Tombini - EDITORIAL O ESTADÃO
- O desbalanço externo - ROLF KUNTZ
- Fácil matar - RUY CASTRO
- A antidiplomacia de Dilma - Editorial Estadão
- Moinhos de vento -Míriam Leitão
- O novo voo da galinha Luis Eduardo Assis
- Notícias da CPI Dora Kramer
- A Espanha geme Celso Ming
- Réquiem para o Mercosul Rubens Barbosa
- Qual o papel do Estado? Kemal Dervis
- Perigo na roça Xico Graziano
- Mensaleiros no tribunal Marco Antonio Villa
- Clichês da violência - VINICIUS MOTA
- Visão estratégica da matriz energética - ADRIANO P...
- Falta alguém - RICARDO NOBLAT
- Do pescoço para baixo - RUY CASTRO
- Chantagem na reta final - REVISTA VEJA
- A boa notícia, um alerta e os impostos Roberto Abd...
- Jornalismo e violência Carlos Alberto di Franco
- Luz, câmera, esculhambação - JOÃO UBALDO RIBEIRO
- A praça é da tropa - DORA KRAMER
- A busca da produtividade - JOSÉ ROBERTO DE MENDONÇ...
- As esfumaçadas greves federais - GAUDÊNCIO TORQUATO
- O dentro sem fora - FERREIRA GULLAR
- Ter um passado é fundamental - DANUZA LEÃO
- A república de São Bernardo - REVISTA ÉPOCA
- A Argentina sob ataque - CELSO MING
- Recuperação a caminho - ALBERTO TAMER
- Saindo do armário Elena Landau
- Mundo obscuro Míriam Leitão
- Gerentona? —Élio Gaspari
- Choque de alimentos? - CELSO MING
- A sugestiva rebelião de juízes - EDITORIAL O GLOBO
- A erosão do sistema partidário - EDITORIAL O ESTADÃO
- Até quando abusarão da nossa paciência? - SERGIO A...
- Do FMI, com carinho - MIRIAM LEITÃO
- Novo celeiro do mundo - EDITORIAL O ESTADÃO
- Abaixo do tomate - RUY CASTRO
- Um tiro na nuca da nação - GUILHERME FIUZA
- Leleco no divã - NELSON MOTTA
- Procriação - DORA KRAMER
- O recado do Banco Central - CELSO MING
- Mobilidade emperrada - EDITORIAL O ESTADÃO
- Sempre às quintas - MIRIAM LEITÃO
- Nunca fomos tão felizes - FERNANDO GABEIRA
- Coragem para mudar Rogério Furkim Werneck
- 20/07/2012
- É dando que se recebe - EDITORIAL FOLHA DE SP
- O novo sócio - MÍRIAM LEITÃO
- Gente que se enrosca Dora Kramer
- FMI, o risco é deflação Alberto Tamer
- Grande risco CELSO MING
- Um balanço da 'democracia' de Chávez O Globo Edito...
- Receita europeia para a Espanha só agrava a crise ...
- LDO mal remendada Editorial Estadão
- Greves colocam Dilma em encruzilhada Editorial O G...
- Anatomia do chavismo Editorial Estadão
- Analfabetos na universidade Editorial Estadão
- Transição ordenada, o objetivo de Obama David Ign...
- Dilma e suas circunstâncias Roberto Macedo
- Contra o consumidor Carlos Aberto Sardenberg
- A chave egipcia Demétrio Magnoli
- Todavia, cresce - MÍRIAM LEITÃO
- Gastança e ineficiência - EDITORIAL O ESTADÃO
- Apogeu aos cinco anos - RUY CASTRO
- Um novo patrono para o Engenhão - ELIO GASPARI
- À procura de uma estratégia Celso Ming
- Melhor de três Dora Kramer
- Por que fracassam os pacotes econômicos? Paulo Ha...
- Sem fôlego para correr Rolf Kuntz
- A rede covarde da maledicência impune José Nêumanne
- A maldição do vencedor João Paulo da Silveira Rib...
- Não é adivinhação Carlos Alberto Sardenberg
- Os alertas do FMI - EDITORIAL O ESTADÃO
- Fora dos trilhos - EDITORIAL FOLHA DE SP