sábado, julho 28, 2012

Entre dois fogos Míriam Leitão

O Globo  28/7/12

Uma intervenção externa na Síria seria um desastre, porque elevaria o número de mortes de 15 mil ou 20 mil para 100 mil, diz Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Investigação da ONU na Síria. Ele acha que o governo tem armas químicas: gás sarin e mostarda. Pinheiro é também membro da Comissão da Verdade; diz que o Exército não tem que carregar esse passado e deveria ajudar a elucidar os desaparecimentos e mortes.
O cientista político Paulo Sérgio Pinheiro trabalha há mais de vinte anos pesquisando violações de direitos humanos. É fundador e pesquisador associado do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Comandou algumas missões da ONU, como a de Mianmar e, agora, está na difícil tarefa de lidar com o mais doloroso conflito na sucessão de trocas recentes de governos em países árabes. Ele acha que a expressão “Primavera Árabe” só pode ser usada em relação à Tunísia e ao Egito, é indevida quando se trata da Líbia e da Síria. Há muito tempo, a Comissão que ele preside já definiu o caso sírio como de guerra civil.
— O momento é gravíssimo. A situação é terrível tanto pelo lado do governo, que ampliou muitíssimo sua capacidade em termos de bombardeio, quanto pelo dos rebeldes e grupos armados que ganharam capacidade de ataque muito maior, porque em boa parte alguns Estados da ONU estão financiando armas — disse Paulo Sérgio Pinheiro numa entrevista que me concedeu para o programa da Globonews.
O professor vive uma rotina inimaginável. Quando acabou a entrevista, ele foi para o aeroporto embarcar para Genebra, onde coordena o relatório sobre a investigação de crimes cometidos na Síria. Ele mora em São Paulo e toda semana tem que ir a Brasília para participar das reuniões da Comissão da Verdade. Vai a Genebra todo mês e parte do seu trabalho é ir à própria Síria. Ele fez isso em junho, mas agora foi proibido de entrar naquele país. Tem entrevistado pessoas via skype e participado de reuniões também usando o skype. Organizou-se para participar de, pelo menos, três reuniões da Comissão da Verdade por mês. Vive entre São Paulo-Genebra-Brasília e de olho na Síria.
O Exército regular da Síria tem 300 mil soldados para uma população de 23 milhões de pessoas; a mesma coisa que as Forças Armadas brasileiras para uma população de quase 200 milhões. E ainda tem mais 300 mil reservistas. Por isso ele diz, diante da pergunta sobre a violência dos dois lados, que “não há um equilíbrio”.
Pinheiro explica o que está acontecendo lá como consequência de uma delicada situação geopolítica cheia de tensões e uma situação política insustentável.
— A Síria está cercada por Irã, Líbano, Turquia, Israel e Jordânia. É um regime autoritário de 36 anos. Não estão mais em moda esses regimes dinásticos, em que o filho do presidente vira presidente, como aconteceu lá. A Síria é governada por uma minoria alauíta, mas a maioria da população é sunita. É evidente que a queda dos governos tanto na Tunísia quanto no Egito foi a tentativa de o governante passar o país aos filhos. Isso não funciona mais hoje. O pai de Bashar al-Assad foi capaz de fazer uma repressão que se estima em 20 mil mortes nos anos 80, mas agora com CNN, twitter, celular, você tira as imagens e envia na mesma hora.
Pinheiro disse que em todos os relatórios que recebeu há sinais de que a Síria tem armas químicas, gás sarin e mostarda.
— Não basta ter o gás, é preciso ter capacidade de transformar esses produtos em armas que possam ser usadas no combate. Eu somente espero que essa existência não justifique uma invasão. O risco não é apenas o governo usar essas armas, mas elas serem utilizadas por outros grupos que venham a controlar um futuro governo na Síria.
Em relação à Comissão da Verdade no Brasil, o professor Paulo Sérgio Pinheiro disse esperar que, ao fim dos dois anos de trabalho, os brasileiros possam ter em mãos um relatório com uma narrativa que reflita com a maior veracidade possível os fatos que levaram à morte ou ao desaparecimento de mais de 400 brasileiros durante a ditadura militar.
— Por um lado, a comissão chega tarde, porque o regime autoritário militar terminou em 1985. Por outro lado, não estamos tão atrasados assim, porque desde 1995 tem havido a continuidade de uma política de governo para elucidar esses crimes. Não começamos do zero. A comissão se beneficia, principalmente, da luta dos familiares nos últimos 40 anos.
Pinheiro diz que as Forças Armadas ainda hoje repetem “interpretações míticas e ideologizadas” sobre os fatos passados e são as únicas na região a não admitir que houve tortura.
— Não é mais aceitável que se continue a ensinar aos jovens militares, que não têm nada a ver com esse passado horrendo, que não houve tortura. As Forças Armadas de hoje não têm nada a ver com os crimes cometidos por seus antecessores nos governos militares. Espero que o trabalho da Comissão da Verdade sirva para os comandos militares entenderem que nós somos seus melhores aliados para livrar a instituição dessa responsabilidade.
Ele afirma que o Exército tem colaborado nas buscas para encontrar as ossadas de desaparecidos da guerrilha do Araguaia e que tem ouvido seguidos relatos sobre esse espírito de colaboração.

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