O GLOBO
A 20 dias da eleição, há tempo ainda de reverter a vantagem que a candidata oficial, Dilma Rousseff, apresenta em todas as pesquisas de opinião e impedir que ela vença no primeiro turno? As campanhas dos candidatos adversários acreditam mais do que nunca que sim, diante da onda de denúncias que a envolvem diretamente, seja com as claras vinculações de sua campanha com as quebras em série de sigilos fiscais, seja pela atuação de lobista do filho de seu braço-direito Erenice Guerra. Esta foi deixada como ministra-chefe da Casa Civil para que fosse a própria Dilma no controle das ações do governo, assim como Lula inventou Dilma para concorrer por ele como sua “laranja” eleitoral.
Erenice é Dilma assim como Dilma é Lula, e por isso chega a ser patética a explicação dada pela candidata oficial no debate da Rede TV/Folha.
“Eu tenho, até hoje, a maior e a melhor impressão da ministra Erenice. O que se tem publicado nos jornais é uma acusação contra o filho da ministra. (...) Agora, eu quero deixar claro aqui: eu não concordo, não vou aceitar, que se julgue a minha pessoa baseado com o que aconteceu com o filho de uma ex-assessora minha”.
Ora, as denúncias da revista “Veja” referentes ao filho não existiriam se a mãe não fosse ministra; só nesse caso há campo para o “tráfico de influência”.
No mínimo, um filho de qualquer autoridade da República não pode exercer a função de consultor para assuntos que sejam ligados ao governo. O conflito de interesses é óbvio, e não necessita ser definido por uma Comissão de Ética.
Basta que a ministra tenha bom senso para impedir o filho de negociar com qualquer órgão de governos, mesmo os estaduais e municipais.
E não há como separar Dilma de Erenice.
O caso dos sigilos quebrados é de difícil entendimento para a média do eleitorado, mas, segundo o Datafolha, afetou a intenção de votos em Dilma entre os eleitores de nível superior de escolaridade, onde a candidata petista perdeu cinco pontos em cinco dias.
Entre os que têm maior renda, a perda foi de oito pontos.
O caso de tráfico de influência na Casa Civil é mais evidente, e pega diretamente o esquema político montado por Dilma no Palácio do Planalto.
Um assessor envolvido já pediu demissão, e novos desdobramentos devem acontecer nos próximos dias, deixando sob pressão a campanha da candidata oficial.
Os dois adversários viáveis politicamente, José Serra, do PSDB, e Marina Silva, do Par tido Verde, têm esperanças semelhantes nos últimos dias da disputa eleitoral.
A campanha de Serra torce para que Marina cresça nas pesquisas, para ajudar a provocar um segundo turno.
Mas para isso Marina precisaria crescer em cima dos eleitores de Dilma.
Uma análise do Datafolha mostra que isso vem acontecendo de maneira sistemática desde o início dos escândalos.
Marina recebeu a maior parte das intenções de votos perdidas por Dilma entre os mais escolarizados (ganhou quatro dos cinco pontos).
Entre os de renda familiar de mais de 10 salários mínimos, ela ganhou seis dos oito pontos perdidos por Dilma.
Marina vem tirando também espaço de Serra em alguns setores, como os que ganham de 5 a 10 salários mínimos, setor onde ela cresceu oito pontos, o mesmo percentual perdido pelo candidato do PSDB.
Pelo tracking da campanha do Partido Verde, Marina aproxima-se dos 15% de intenções de voto, o que, se for confirmado nas pesquisas eleitorais que serão divulgadas ao longo da semana, pode provocar uma onda, ainda mais se o candidato Serra cair.
O Partido Verde joga ainda suas fichas nas mulheres pobres e nos evangélicos para consolidar uma “onda verde” no final da campanha.
Há uma tendência no mundo todo, analisam os estrategistas do PV, de a eleição se definir mais para o seu final.
É uma tarefa difícil a de Marina, crescer a ponto de superar o candidato do PSDB, mas tirando também votos de Dilma.
Caso cresça apenas em cima de Serra, a soma de votos dos dois não se alterará substancialmente, permitindo que Dilma vença no primeiro turno.
A campanha de Serra acredita que ele tem fôlego ainda para crescer, graças a alterações que dizem registrar no voto em São Paulo.
Eles acreditam que Serra acabará superando Dilma no estado que tem o maior colégio eleitoral, provocando uma alteração na soma final de votos, o que reduzirá a dianteira de Dilma.
Mas estão preocupados mesmo com Minas Gerais, onde a candidata oficial aumenta a dianteira.
O PSDB mineiro está em um dilema quanto ao uso da imagem de Serra na campanha de Anastasia para governador, já que lá também a luta é renhida para superar o candidato da coligação da base do governo federal, Hélio Costa.
Há o temor de que colocar Serra não ajude a campanha presidencial e prejudique a estadual, e essa queda de braço ainda está em andamento dentro do PSDB.
Para derrotar Dilma num eventual segundo turno — que ainda parece ser um objetivo ambicioso demais para os dois adversários —, seria preciso que PV e PSDB fizessem um grande acordo político que entusiasmasse o eleitorado.
Hoje, Marina sozinha parece em condições de receber mais votos que Heloisa Helena e Cristovam Buarque receberam juntos em 2006.
Mas, se com isso Serra for para o segundo turno, corre o sério risco de ver a maioria desse eleitorado voltar novamente para a candidata governista, como aconteceu na disputa de Alckmin com Lula.
No caso de Marina conseguir uma virada tão espetacular que superasse Serra e a levasse para o segundo turno, estaria criado o clima propício para enfrentar a máquina governamental.
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