O GLOBO - 12/09/10
Na sabatina do GLOBO com o candidato tucano José Serra, uma pergunta de Arnaldo Bloch levantou um tema que tem predominado no debate político nos últimos anos: quão realmente semelhantes são os projetos de PT e PSDB e, na atual conjuntura eleitoral, se realmente tanto faz votar em Dilma ou Serra para presidente.
Serra pareceu genuinamente espantado com a comparação, como se o ofendesse, e definiu com sarcasmo as opiniões de dois ícones da cultura moderna brasileira.
Chico Buarque dizer que tanto faz se vencer Dilma ou Serra seria positivo para ele, Serra, já que Chico Buarque apoia declaradamente Lula e diz que votará em Dilma por causa dele.
Já o cineasta Cacá Diegues dizer que Serra e Dilma representam a mesma coisa é um mau sinal para Serra, que foi companheiro dele na UNE e esperava que tivesse uma opinião mais favorável a seu respeito.
Serra ainda alfinetou tucanos que defendem a aproximação com o PT, classificandoos de “animais mais exóticos” do que o normal.
Claro que Serra está sob o fogo cerrado de uma campanha que luta desesperadamente para não naufragar já no primeiro turno e não está disposto a abrir a guarda para o adversário, mas o fato é que existem tucanos de alta plumagem, como o ex-governador de Minas Aécio Neves, que trabalham com a ideia de uma aproximação com o PT num eventual governo Dilma.
E existem governistas importantes, como o governador de Pernambuco Eduardo Campos, do PSB, que defendem essa aproximação como maneira de neutralizar a força que o PMDB terá.
A decisão da Executiva Nacional do PT de proibir a coligação com o PSDB em Belo Horizonte, quando Aécio e Fernando Pimentel negociaram o apoio conjunto a uma candidatura do PSB à prefeitura em 2008, mostrou, porém, como é difícil esta aproximação.
Quando pensou em fundar um partido político, Fernando Henrique Cardoso procurou Frei Betto, ex-assessor especial do presidente Lula. Pensava utilizar a experiência com as Comissões Eclesiais de Base (CEBs) para fundar um partido socialista.
Frei Betto não se interessou pelo projeto, que considerou elitista, e se engajou mais tarde na criação do Partido dos Trabalhadores.
O PSDB nasceu assim sem as bases operárias que caracterizam os partidos social-democratas europeus. E o PT, visto por muitos como tendo evoluído para um partido socialdemocrata, nos últimos anos do segundo governo Lula viu crescer novamente a força do grupo que ainda defende uma “utopia socialista” como o objetivo final.
O PT tem uma antiga diferença com a Internacional Socialista, que reúne os maiores partidos da social-democracia do mundo, que apostou no PDT de Leonel Brizola como seu representante no Brasil.
Por influência de Brizola, o PSDB foi rejeitado na Internacional, sob a alegação de que se aliara à direita para governar, mas o crescimento da importância do PT com Lula, e o declínio do PDT com a morte de Brizola fazem com que Lula seja reconhecido como o principal líder da esquerda brasileira.
Mas o PT precisará definirse ideologicamente entre o papel que o mundo vê para Lula, de representante de uma esquerda social-democrata, e a guinada socialista defendida por setores importantes do partido.
PT e PSDB, de tantas características comuns, repartem nos últimos anos também a mesma acusação, a de serem “udenistas”, o que, no jargão político, significa moralista, golpista.
O PT, apelidado de “UDN de macacão” por Leonel Brizola, durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso viveu atrás de escândalos e até o impeachment do presidente pedia.
Chegando ao governo, sofreu com o próprio veneno e acusa o PSDB de golpismo.
Serra relembrou na sabatina do GLOBO que, ao contrário, o PSDB, procurado por emissários petistas para negociar na crise do mensalão, em 2005, aceitou não pedir o impeachment de Lula.
São tortuosos os caminhos que levam a uma união, e muitos os obstáculos que se opõem a ela, sendo PT e PSDB partidos que têm origem semelhante, mas que foram se distanciando nas práticas.
Serra hoje tem razão ao dizer que os partidos são muito diferentes, embora já tenham sido mais próximos em alguns momentos do próprio governo Lula. Fernando Henrique surpreendeu quando revelou que, fazendo a transição para o governo Lula de maneira republicana reconhecida pelo próprio presidente eleito em 2002, esperava que o PT chamasse o PSDB para governarem juntos.
Lula, no início do governo, chegou a acenar com essa possibilidade, mas há obstáculos importantes dentro dos partidos, a começar pelas brigas internas em São Paulo, onde estão os principais líderes políticos dos dois lados.
Mas há principalmente a visão do papel do Estado de cada um, que é fundamentalmente diferente, embora os dois sejam favoráveis a uma atuação direta nos setores sociais, como a formação da rede de proteção social que começou com o PSDB e foi ampliada pelo Bolsa Família do PT.
Uma das diferenças é exatamente essa: o PSDB acha que programa social bom é o que diminui a cada ano, e não o que aumenta.
Reduzir o número de famílias abrangidas pelo Bolsa Família significaria que muitas delas teriam sido incluídas no mercado de trabalho, o que significaria o sucesso do programa.
O governo Lula, ao contrário, festeja o aumento para 11 milhões dos bolsistas, numa visão assistencialista, na opinião dos tucanos.
O aumento da máquina estatal, e seu aparelhamento pelos militantes petistas, é outro ponto fundamental de discordância entre os dois grupos políticos, com o PT dizendo que apenas fortalece a máquina estatal que a visão neoliberal do PSDB desmontou, e os tucanos acusando os petistas de usarem politicamente o Estado, abrindo mão da eficiência e não evitando desperdícios do dinheiro público.
Nessa campanha eleitoral, com a quebra dos sigilos fiscais de pessoas ligadas ao PSDB e parentes do candidato José Serra, essa desavença chegou a seu ponto máximo.
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