Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, janeiro 22, 2009

ROBERTO DAMATTA - O homem no topo

O GLOBO
Em 1982, recebi de presente duas intrigantes caricaturas.

Numa delas, um sujeito pronto para dormir não via, mas suspeitava de um monstro escondido bem debaixo de sua cama. Na outra, um escalador solitário no topo de uma elevada e íngreme montanha descobria que, se desse um passo adiante, cairia. Era o homem no topo de todas as possibilidades.

Hoje, depois que muita água correu debaixo da minha ponte, eu vejo com clareza o significado do presente.

A primeira caricatura era uma advertência.

Pois, naquela época, eu colhia os resultados dos meus estudos do Brasil não como nação e sistema político-econômico, como era trivial realizar, mas como uma sociedade e ideologia. No afã de abrir um caminho sociológico nessa direção naquele período ainda sombrio da vida nacional, é possível que todos, menos eu, vissem o monstro debaixo da minha cama. E, no entanto, lá estava ele, deixando ver a dimensão misteriosa de toda a cama. Já que o leito, como diz Thomas Mann, é uma mobília metafísica: nela somos concebidos e ali somos paradoxal e rotineiramente levados a uma agradável experiência com a morte. Por meio do sono reparador, comprometido com o doce abandono da vida ativa e consciente.

Muito mais intrigante, entretanto, era o desenho do homem no topo de todas as possibilidades, uma admoestação direta sobre os perigos do sucesso.

Pois a caricatura do homem vitorioso e desamparado no exíguo píncaro da mais alta montanha mostrava um escalador atônito com o fato de ter chegado a esse local tão ambicionado, somente para descobrir a fatalidade que seria dar um passo adiante. A planície tem uma amplidão barata, mas, como compensação, no cume só há espaço para uma pessoa.

O paradoxo de quem está no auge de qualquer coisa é que o cume imobiliza.

Chegando lá, você começa a perceber, como nos desenhos dos célebres cartunistas americanos, Liza Swerling e Ralph Lazar, que só lhe resta continuar subindo, cair ou descer.

Aliás, é precisamente isso que todos esperam. Só os mais rematados idiotas não sabem que o êxito é uma gaiolinha frágil e minúscula presa por um prego enferrujado numa parede de barro. Não é, pois, por acaso que quem está no topo sinta-se vigiado, perseguido, malquisto, irritado, injustiçado e ressentido. No topo, o sujeito sofre de vertigens, azias, medos, raiva, vaidade, onipotência e pode perder a cabeça.

 Quanto maior o gigante, maior o tombo.

Essa, penso, é a frase usada para quem é bem-sucedido no Brasil.

Entre nós, o “subir na vida” (essa banal metáfora do sucesso) comporta — como em outros lugares — a imagem da escalada, mas também fala de um significativo crescimento.

Entre nós, sucesso, prestígio e poder aumentam o tamanho. Fazem o sujeito virar “homem grande” (não necessariamente “grande homem”), promovendo gigantismo e obesidade. Muita banha, no corpo, na mente e na fala. Um a agigantamento frequentemente mantido a triste puxa-saquismo e vergonhosa condescendência. O “por que não te calas” do rei de Espanha ao Chávez não foi só uma admoestação política, foi sobretudo uma receita de regime alimentar.

Hoje, dia 21, Obama está inaugurando o seu período presidencial, já que, no mundo político-cultural americano, o sujeito não “toma posse”, mas abre uma etapa histórica que leva o seu nome. É o seu primeiro dia no topo de todas as possibilidades em termos de política e de poder.

Suas responsabilidades são incomensuráveis.

Os dilemas morais que enfrentará com a premente obrigação de decidir são imensos. No topo do país mais poderoso do mundo, ele será visto pelos adeptos do terrorismo ideológico e intelectual como responsável por todo o mal do mundo.

Poucas pessoas chegam tão perto da divindade, quanto esses sujeitos no topo das grandes potências. Eis um ser humano que ocupa um papel social dotado, entre outras coisas, da capacidade de redimir ou destruir não somente seus inimigos, mas o planeta. Eis a mais plena imagem do homem no topo de todas as possibilidades.

Que esse Deus patriarcal, onipotente, onisciente e onipresente do Islã e de Israel, o tenha! E que o seu carisma — esse dom necessário para romper com as barras da jaula de ferro que estamos metidos — não o abandone.

 Em alemão, presente e veneno são designados por uma mesma palavra: gift. De fato, dado (ou recebido) em excesso o presente, como os remédios, envenena. Ele escraviza ou simplesmente mata seus recebedores, os quais, como mostrou Marcel Mauss, ficam aprisionados aos seus doadores. Foi o caso do cavalo de Tróia, e é exatamente o que ocorre quando o nosso velho clientelismo nos atrela aos favores daqueles que — no topo da montanha — se afirmam como superiores porque sabem que suas dádivas, favores e bolsas escravizam. Afinal, chegar no topo é um presente ou um veneno? Há, como diz o Ancelmo Gois, controvérsias...
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