Inflação a 6%, corte incerto de gastos e silêncio oficial na economia
criam dúvidas demais na praça do mercado
O ENTORNO da presidente Dilma Rousseff ficou meio assim, digamos,
amuado com a inflação de janeiro.
O IPCA, o índice de inflação "oficial", foi o maior para o mês de
janeiro desde os tempos ruins de inflação perigosamente alta no início
do governo Lula, em 2003. Obviamente, a situação não é nem parecida
com a de então. A inflação de janeiro daquele ano foi de 2,25%; a
anual, acumulada em 12 meses, andava na casa de 14%. O governo estava
meio quebrado, e a economia ainda vivia a ressaca da desvalorização
cambial de 2002, quando o dólar foi a R$ 4. Mas a inflação de janeiro
passado foi de 0,83% e chegou a 6% em 12 meses, por onde deve andar
por dois ou três meses.
Não obstante o desconforto planaltino, esses números ruins não são
novidade alguma. Desde o final do ano passado ficara claro que o
cenário oficial de perspectivas tranquilas para a inflação desandara.
O preço das commodities não parava de subir, os reajustes salariais
foram fortes e os aumentos de preços, que até pouco antes se
concentravam em bens menos sujeitos às pressões do comércio mundial,
espraiavam-se por todo tipo de produto, serviço ou setor.
Ainda em meados do ano passado havia dúvidas sobre a tendência dos
preços. Em julho, o Banco Central passara a avisar que a Selic, a taxa
"básica" de juros, não passaria de 10,75%. Desde maio, a inflação
anual, acumulada em 12 meses, passara a cair. A tese geral no governo
e no BC era de "inflação passageira". Mas consultorias e economistas
de bancos pediam juros a 11,5% no final de 2010. Pelo jeito, tinham
mais razão do que o BC. Essa discussão, no entanto, morreu no final do
ano passado, ressalte-se.
Por que o governo então ficou tão incomodado com o índice de janeiro?
Não se trata de preocupação nos ministérios econômicos. O clima ficou
tenso foi no Planalto mesmo, diz-se nos corredores do palácio. Teria
então caído a ficha de que, para ajudar a combater a inflação, o corte
de gastos federais terá de ser ainda maior do que o previsto nos
estudos prévios de Fazenda e de Planejamento? Ou porque, talvez, os
juros venham a subir muito mais do que o previsto até agora, avariando
ainda mais o balanço fiscal do governo (e por uns bons dois anos)?
Por enquanto, é para algo em torno de 11,5% que o Banco Central deve
levar a Selic no final do ano, segundo os indícios que aparecem nos
seus textos oficiais e nas entrevistas de autoridades. No mercado,
porém, a julgar pelas taxas de juros futuros, acredita-se que a Selic
deveria ir para uns 12,5% no final do ano. Mas, na ata do Copom de
setembro do ano passado, o pessoal do BC escrevera que a taxa de juros
necessária para colocar a inflação na meta de 4,5% ao ano seria agora
menor.
Continuam a acreditar nisso? Continuam a acreditar em apenas repique
temporário da inflação? Acreditam que ainda dispõem de mais "medidas
administrativas" ("prudenciais" e similares) para conter o consumo e a
inflação? Isto é, estariam em estudo mais medidas de controle do
crédito por meio de redução de prazos de financiamento, exigência de
mais depósitos compulsórios, de mais reservas para operações de
financiamento etc.?
As incertezas sobre decisões macroeconômicas básicas (juros e gasto
público) aumentaram muito em apenas um mês de governo Dilma.
Quarta-feira, Fevereiro 09, 2011
O silêncio duvidoso de Dilma VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 09/02/11
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