O Estado de S. Paulo - 23/02/2011
As revoltas populares iniciadas na Tunísia, que estimularam as do Egito, ameaçam certamente outros regimes totalitários. Entretanto, é prematuro imaginar a súbita conversão democrática de países tradicionalmente autocráticos, onde a hierarquia de lealdades privilegia chefes de clãs e secundariza o Estado. Dentre eles a maioria árabe islâmica de origem tribal, cuja governabilidade veio sendo viabilizada por meio de ditaduras centralizadoras, a coesão nacional tendendo a ser coercitiva, apoiada pelas Forcas Armadas e leis corânicas de controle da população. Mesmo em nações pluralistas, como o Líbano, o direito de família ainda é regido pelas religiões.
O pan-arabismo de Nasser valeu-se do nacionalismo para reforçar-lhe a liderança dos egípcios. O igualitarismo francês, imposto pela guilhotina, demora na implantação de uma cidadania que a todos obrigue nesses países.
Evidencie-se a exceção da Tunísia, que se modernizou após a independência, em 1956, liderada por Habib Bourguiba. Ele aboliu a monarquia e promoveu um republicanismo laico. Sedentarizou os nômades nas aldeias e cidades, incutindo-lhes deveres cidadãos à francesa. Proibiu a poligamia e propiciou igualdade de direitos às mulheres. Politicamente autoritário, economicamente estatizante, inspirou-se na administração ocidental herdada da França colonizadora. Investiu na saúde e na educação públicas, em todos os níveis e especialidades.
Atento à urgência de atrair investimentos estrangeiros, preocupou-se com exibir uma Tunísia estável e confiável. Para tanto, reprimiu o radicalismo de inspiração iraniana, auxiliado pelo general primeiro-ministro Ben Ali, que destituiu Bourguiba, por senilidade, em 1987. Ben Ali propôs uma reconciliação nacional, libertando prisioneiros políticos, abrandando a censura, introduzindo um multipartidarismo - embora de fachada -, dele excluindo os fundamentalistas.
O atual território tunisiano abrigou diversas civilizações: fenício-cartaginesa, romano-bizantina, árabe, turca e ocidental. Protetorado francês desde 1881, conquistado no âmbito da disputa com os ingleses do espólio de um Império Otomano falimentar e decadente, teve movimentos nacionalistas a partir da Primeira Guerra Mundial. Habib Bourguiba, um dos principais líderes rebeldes, foi preso e deportado em 1938.
Após a Segunda Guerra - que se refletiu na Tunísia ocupada pelo exército alemão, expulso com as batalhas de liberação do norte da África - iniciou-se uma guerrilha independentista, severamente reprimida pelos franceses. A embaixada da República Popular da China em Tunis instalou-se no prédio que acolheu o Estado-Maior de Rommel...
A revolta simultânea na Argélia induziu a França a não dispersar meios para manter o domínio de uma colônia mais rica e promissora do que a Tunísia. Consequentemente, optou por aceitar a sua independência, praticamente inexorável com a derrota em Bizerta, último bastião estratégico que tentou preservar.
Ben Ali prosseguiu com as reformas sociais, favorecendo a classe média, majoritária, com créditos subsidiados para a aquisição de casa própria e até de automóveis. Empenhou-se na melhoria da infraestrutura para o desenvolvimento agrícola, industrial e turístico - este, hoje, com 6 milhões de visitantes ao ano.
Aplaudido pela mesma multidão que o execra, agora, foi reeleito quatro vezes, em 23 anos de mandato. Mesmo que desconfiados das fraudes nos sufrágios em favor de um candidato único, os eleitores não se constrangiam com rumores de corrupção, e o mantiveram no poder, coagidos, mas passivos. Creditam-lhe, como uma das justificativas, dados oficiais que ostentam 90% de escolaridade básica e quase nenhuma mendicância, fatores que distinguem o país numa região de contrastes sociais muito mais graves e evidentes.
Embora mantidos os direitos civil e criminal do Estado laico, o culto islâmico da interpretação moderada do Corão serve ao governo como fator de coesão nacional. Cúmplices, as grandes potências apoiaram o regime de Ben Ali por interesses estratégicos, políticos, religiosos e econômicos, conhecedoras de seus abusos no poder.
Apesar do êxodo, principalmente para a França, de mão de obra mais qualificada e de uma elite liberal dissidente, fortemente vigiada pela polícia secreta, a economia foi prosperando na agricultura de subsistência e de exportação: trigo, cevada, azeitonas, óleo de oliva, tâmaras, carnes e pescados. Os recursos minerais são gás natural, fosfatos (importados pelo Brasil), minério de ferro, chumbo e zinco.
A indústria representava um terço do Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 25 bilhões. Empresas europeias empenhadas em se beneficiar de salários menores do que os de seus operários confiaram aos tunisianos valores agregados a produtos têxteis e metalúrgicos. Investimentos significativos de Portugal, Espanha, Inglaterra, Alemanha e França desenvolveram a fabricação em zonas francas. China e Japão concorrem na construção de pontes e estradas no acesso à capital. Tunis necessita de reforma urgente do sistema de saneamento e vias pluviais.
No entanto, a crise mundial também afetou a Tunísia, reduzindo a oferta de empregos e frustrando os diplomados pelas faculdades criadas por Ben Ali. O choque eletrônico agravou ressentimentos populares com informações sobre o assalto aos magros cofres de um país de pequeno território, mas grandioso em sua milenar relevância histórica.
Coerente, o islamismo tunisiano provavelmente prosseguirá moderado e pacífico, preservando a modernidade que o distingue de alguns parceiros regionais e o prestigia internacionalmente.
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