O Globo - 16/09/2010
Lembrar a proximidade de José Dirceu irrita a campanha de Dilma, mas ninguém ousa entrar com um pedido no Tribunal Superior Eleitoral para tirar do ar o comercial do PSDB que alerta que o ex-ministro e deputado cassado, considerado pelo procurador-geral da República o “chefe da quadrilha” do mensalão, voltará ao poder em um eventual governo petista.
Nem Dilma ousou negar essa possibilidade, quando perguntada. Pois Dirceu tratou de deixar bem claro que ele é um dos que mandam nos bastidores da candidatura Dilma, e qual é o projeto que ela representa.
Falando em uma assembleia de sindicalistas na Bahia, ele disse que a vitória de Dilma será a vitória do PT, ressaltando que Lula é muito maior do que o partido.
O raciocínio político de Dirceu como sempre é competente para seus interesses, e interessa a ele esquecer que Dilma só está sendo eleita, provavelmente no primeiro turno, porque por trás dela está Lula, e não o PT.
Interessa a ele, para o exercício de poder dentro do partido, transformar a eleição de uma candidata petista sem tradição partidária, imposta pelo presidente a seus correligionários justamente para não fortalecer nenhum deles, em uma vitória da facção política que comanda.
Ele não esconde que trabalhou na composição dos palanques estaduais para a candidatura Dilma, e que viaja o país como dirigente partidário.
Só esclarece que não se interessa em ter um lugar no futuro governo, para alívio da campanha de Dilma.
Mas Dirceu não esconde que pretende influir na construção do futuro governo Dilma, e já começou a chamar para si a disputa interna com o PMDB.
Delimitar espaços dentro da heterogênea coligação que sustentará o futuro governo, mas sobretudo avisar ao PMDB que será recebido com agrados desse tipo quando colocar seu jogo na mesa para “repartir o pão”, como cunhou o candidato a vice e presidente do PMDB Michel Temer.
Essa divisão dos cargos será a parte mais delicada de toda a operação que o presidente Lula montou, e já é possível prever que até mesmo a proeminência de Lula será colocada em xeque.
Ao classificar a vitória de Dilma como “do partido”, e por isso muito mais importante do que a de Lula, Dirceu mandou um recado direto para a provável futura presidenta: o projeto é petista, não é lulista nem de Dilma.
Acontece que Lula já anunciou que pretende continuar atuando na política partidária, e pelo apetite com que se atira na campanha presidencial, está considerando sim esta uma terceira eleição consecutiva, com todos os direitos de que se julga detentor.
Já havia a desconfiança de que não será difícil a ele tentar comandar a presidente puxando os cordéis, mas agora a disputa parece se desviará para dentro do partido, que Lula domina por ser o presidente popular que é.
Mas fora do poder, terá o mesmo respeito, e a mesma capacidade de atuação política que tem hoje? Dirceu sinaliza que não, antes mesmo que Lula comece a receber o café frio no Palácio do Planalto. Se esta eleição é mais importante que a de Lula por representar o projeto do partido, então o partido, e não Lula, decidirá ao lado de Dilma.
Vemos então que a provável futura presidenta já tem dois a quererem tutelála.
Falta ainda o PMDB, que se prepara para ganhar corpo e disputar palmo a palmo os espaços do governo com o PT.
Dirceu trata de desqualificar os parceiros mais importantes para que não venham com a boca muito aberta para a divisão do butim do Estado.
Mas o PMDB tem planos mais ambiciosos que a mera “repartição do pão”. Quer opinar sobre os rumos do governo, quer se colocar como o defensor dos valores democráticos em um governo que, como avisa Dirceu, será mais do PT do que de Lula ou Dilma.
É previsível que essa declaração de força de Dirceu vá parar na campanha do tucano José Serra, que já tem musiquinha e tudo alertando para o perigo que seria um governo do PT sem Lula para controlar os petistas.
E na fala de Dirceu aos sindicalistas já apareceu um dos temas que serão razão de disputa no Congresso, o tal controle social dos meios de comunicação.
Ao criticar os jornais e televisões, ele diz que seus comandos já estão querendo decidir quem participará de um futuro governo Dilma, e que seu primeiro ano será de luta contra os meios de comunicação.
Essa é outradisputa particular de Dirceu, agora com seu ex-colega de ministério Antônio Palocci.
O ex-ministro da Fazenda foi colocado na campanha de Dilma por Lula, para que orientasse a candidata especialmente sobre economia.
Sua presença em cargo importante no governo, como a chefia do Gabinete Civil, como Lula quer, seria uma indicação de que ele daria o compasso do novo governo.
Essa hipótese ganhou força com o novo escândalo que estourou no Gabinete Civil, com o filho da ministra Erenice Guerra admitindo que fez uma “consultoria” para uma firma que negociava com órgão do governo.
Aliás, foi essa a explicação esdrúxula que foi aceita pelo presidente Lula e os ministros que compõem o núcleo político do governo, o que só torna mais escandaloso ainda o caso.
Não deveria ser preciso uma Comissão de Ética para identificar essa “consultoria” como uma falta gravíssima contra a ética pública.
Mas, voltando ao ministério de Dilma, com a provável inviabilização política da permanência de Erenice no Gabinete Civil como Dilma queria, a possibilidade de Palocci vir a ocupá-lo aumenta.
A não ser que a futura presidenta resolva peitar logo de cara o presidente Lula.
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