O Globo - 18/02/2010
Mesmo com toda a crise, é improvável que o Supremo Tribunal Federal decrete a intervenção federal na capital.
Sem o apoio de seu partido, o DEM, que deve iniciar o processo de expulsão na semana que vem, e sem ter sido recebido pelo presidente Lula, a quem pediria ajuda para continuar à frente do governo, o governador em exercício, Paulo Octávio, não tem sustentação política para permanecer no cargo.
Ele foi aconselhado a tentar montar uma equipe suprapartidária no governo, com notáveis do Distrito Federal, abrindo mão do apoio da aliança partidária que sustentava o governo de José Roberto Arruda, de quem era vice.
Mas Paulo Octávio, acusado também de participação nos esquemas de corrupção do governo anterior, e enfrentando também pedidos de impeachment, não tem mais nem prestígio político nem condições objetivas para dar essa guinada, ficando cada vez mais patente que a máquina política montada na capital do país está inteiramente contaminada.
Há indicações seguras de que ele chegou a sondar personalidades do mundo político, e não apenas de Brasília, para que assumissem o controle do governo, dando-lhe o respaldo político de que necessita, mas até o momento não encontrou quem se dispusesse a assumir o fardo.
Mesmo porque o tempo de governo é pequeno — dez meses — e a maior parte dos potenciais pretendentes se candidatará nas eleições de outubro.
O fato de o presidente Lula não ter recebido ontem o governador Paulo Octávio deve ser interpretado como mais um passo para a sua saída do cargo.
Lula não quer dar a impressão de que está envolvido em uma operação política para salvar Paulo Octávio, e quer que ele, segundo expressão de um assessor, "sofra um pouco".
Seu sofrimento, por enquanto, é também o sofrimento do DEM, e isso é bom para os interesses políticos do governo.
Como se vê, depois de uma primeira reação cautelosa, quando chegou mesmo a lamentar a prisão de Arruda, o presidente Lula está utilizando a crise política do DEM de Brasília para fortalecer a posição do PT na disputa eleitoral da capital.
O timing político está contra Paulo Octávio, pois a tendência do DEM é não lhe dar mais tempo para demonstrar sua capacidade de atuação política.
Enquanto ele espera um apoio de seu partido, o DEM exige que ele demonstre ser capaz de unir a sociedade civil da capital para um governo de recomeço, sem estar contaminado pelo escândalo dos panetones, o que é impossível para ele, que só não está mais atolado nos escândalos porque não surgiu, até agora, nenhum filme flagrandoo em situação irregular.
Mas há inúmeros papéis com indícios de que ele foi par tícipe das falcatruas, e depoimentos diversos incriminando-o.
Para tentar evitar a intervenção federal, a Câmara Distrital, que era dominada por Arruda, já tem maioria para cassar três dos principais envolvidos nos escândalos, os que se tornaram mais notórios devido à aparição nos filmes feitos por Durval Ferreira, o ex-secretário de Arruda que entrou no programa de delação premiada da Polícia Federal e detonou o esquema do governador.
O ex-presidente da Câmara, Leonardo Prudente (sem partido), que ficou famoso escondendo dinheiro até nas meias; a deputada Eurides Brito (PMDB), que aparece nas filmagens estufando sua bolsa com maços de dinheiro; e Júnior Brunelli (PSC) que, abraçado a Durval e a Prudente, participa de uma "oração" de agradecimento pelo suborno.
O mais provável, porém, é que as cassações não sejam suficientes para passar a impressão de que a Câmara de Brasília está saneada.
O governador preso José Roberto Arruda não pretende renunciar formalmente ao cargo, segundo pessoas que estiveram com ele, mas está disposto a garantir que ficará fora do governo até o fim das investigações.
Se não for cassado por seus antigos aliados na Câmara Distrital — hipótese possível, mas ainda improvável —, ele continuará governador, embora afastado.
Pela lei, o presidente da Câmara, Wilson Lima, do PR, teria que assumir um mandato-tampão até o final do governo, mas há informações de que ele não aceitará a missão, alegando que teria que se desincompatibilizar no início de abril para disputar as eleições.
Caberia então, nesse caso, ao presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal assumir o governo até o final do mandato de Arruda. Um retrato da decadência da política do Distrito Federal, o fim da picada que Arruda abriu na política, à base da ganância e arrogância, e que o levou à prisão.
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