O Estado de S.Paulo - 25/02/2010
Entre as mais polêmicas novidades apresentadas pelos top-economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) está a proposta de que os bancos centrais dos países de alta renda operem sua política monetária (política de juros) de modo a controlar a inflação não mais a 2% ao ano, como é agora, mas com meta declarada de 4%.
Nunca na história monetária recente do planeta Terra os juros estiveram tão baixos por período tão prolongado. Nos Estados Unidos, por exemplo, estão entre zero e 0,25% ao ano desde dezembro de 2008 e tão cedo não sairão daí. Juros baixos são fartura de dinheiro. Os bancos centrais dos países centrais tiveram de inundar os mercados com recursos para compensar o estrago na economia causado pelo estancamento do crédito e a retração dos negócios. Dinheiro demais tende a puxar os preços das matérias-primas (commodities), provocar inflação e assoprar bolhas, antes que a economia esteja em condições de se recuperar.
A partir do momento em que a inflação voltasse a se mostrar, os bancos centrais teriam de puxar pelos juros, ou seja, teriam de retirar recursos da economia. No entanto, essa operação, conhecida como estratégia de saída, corre o risco de matar a recuperação da economia, num ambiente de forte desemprego e de consumidor atolado em dívidas.
A ideia proposta por Olivier Blanchard (economista-chefe do FMI), Giovanni Dell"Ariccia (consultor do Departamento de Pesquisa do FMI) e Paolo Mauro (chefe de divisão do Departamento de Assuntos Fiscais do FMI) é a de que os bancos centrais dobrem a meta de inflação e deixem que os preços subam mais do que habitualmente para que os juros básicos possam permanecer à altura do tapete por mais tempo e, dessa forma, não matar no ovo a recuperação econômica.
A proposta feita por quem foi feita já é, por si só, uma demonstração de que as autoridades monetárias estão se sentindo como vespas sem ferrão diante da iminência de ataque ao ninho. Mas a aceitação dessa proposta pode provocar desarranjos ainda maiores à economia global.
A partir do momento em que os bancos centrais aceitassem uma inflação mais alta, enormes panelas de pressão seriam destampadas. Ontem, em depoimento no Congresso americano, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, advertiu que, a partir do momento em que os bancos centrais passassem a trabalhar com uma inflação de 4%, o risco imediato seria o de que a inflação saltasse para 5%, 6% ou 7%.
Os agentes econômicos tentariam se defender de uma alta ainda mais acentuada de preços e seria inevitável uma esticada nas cotações das commodities e dos serviços. Mais à frente, os bancos centrais teriam ainda mais dificuldades para controlar a inflação.
Agora, imaginem o que poderia acontecer com os títulos de dívida. Só o Tesouro dos Estados Unidos tem hoje cerca de US$ 7,2 trilhões em títulos públicos em poder do mercado, rendendo juros de 3% ou 4% ao ano. A certeza de que a inflação saltaria para 4% indicaria que o retorno dessas aplicações seria negativo. E a simples mudança de metas, como definição de política, poderia provocar uma rejeição desses títulos, num momento em que todos os grandes países do mundo estão fortemente endividados.
Confira
Reversão- O Banco Central decidiu pela retirada do alívio dado aos bancos nos recolhimentos compulsórios adotados a partir de outubro de 2008. Na prática, o dinheiro fica mais raro e mais caro para o crédito.
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O argumento apresentado pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, foi o de que era preciso voltar ao normal. Mas avisou que a decisão tem a ver com ''práticas prudenciais''.
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Vai ter ainda de ser esclarecido se esse endurecimento monetário está sendo tomado agora para adiar o endurecimento que viria com nova alta dos juros básicos (Selic) ou se nada muda no que se previa antes.
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