O GLOBO
A sabedoria popular tem frases que explicam bem o momento atual da economia brasileira, que poderia ser definido como aquele em que o relógio parado aponta a hora certa, ou simplesmente pelo ditado “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. As autoridades brasileiras, depois de rejeitarem, a começar por Lula, a gravidade da crise internacional, agora dizem que o Brasil foi o último país a entrar nela e será o primeiro a sair, em condições melhores do que os demais competidores.
Mesmo que tenha sido o último, nada impediu que o Brasil fosse dos países mais atingidos pela crise. No último trimestre do ano passado, o PIB brasileiro teve queda de 15,2%, se adotarmos o critério da maioria dos países, inclusive os europeus e os Estados Unidos, que anualizam as perdas. Por essa mesma metodologia, o PIB americano caiu 6,8%, e o da Europa, 6%.
Na mesma faixa do Brasil caíram Singapura, com 16,4%; Coréia, com 20%; Taiwan, com 22%. Em consequência, a partir de janeiro deste ano o panorama econômico tornouse o contrário do que acontecia nos últimos cinco anos, com a economia tendo crescimento negativo, piorando a distribuição de renda.
As autoridades brasileiras insistem, porém, em olhar pelo retrovisor, defendendo a tese de que as vantagens comparativas do Brasil em relação aos demais países, vistas dentro da crise, são os antigos defeitos pelo modelo econômico que agora está sendo revisado.
Foi o que defendeu o senador Aloísio Mercadante, por exemplo, no Fórum Econômico Mundial no Rio, esta semana, quando rebateu o fato de que o Brasil estaria mal classificado em um índice de competitividade, entre 132 países do mundo. “Temos que ver esse ranking no próximo ano, pois metade dos países que estão à frente do Brasil quebrou com a crise internacional”, alegou.
Para ilustrar sua tese, Mercadante disse que o depósito compulsório dos bancos brasileiros, que era um peso para o desempenho em comparação com os bancos estrangeiros, foi o que deu garantia de solidez ao nosso sistema financeiro, enquanto os maiores bancos do mundo estão quebrados.
Nosso sistema bancário, sólido e altamente regulado, é um dos pontos destacados pelos governistas, que passaram anos a fio criticando o Proer, o programa de reestruturação dos bancos que impôs as regras que hoje são apontadas como exemplos para o sistema financeiro internacional.
Modelo imposto por um governo que os petistas acusavam de neoliberal e hoje é elogiado justamente por suas características regulatórias.
Um dos paradigmas que o governo considera que foi quebrado pela crise econômica é o da demonização dos bancos públicos, que na atual situação estão irrigando o mercado com financiamentos que os bancos privados mostram-se mais cautelosos em retomar.
O elogio aos bancos públicos parece a muitos, no entanto, como a história do relógio parado, que está sempre certo duas vezes por dia.
A longo prazo, seus efeitos perniciosos no sistema financeiro continuariam existentes, embora, no momento, eles tenham importante papel a desempenhar.
Além disso, o dinheiro dos bancos públicos, quando o Brasil cresceu muito no “milagre econômico”, era usado também para grandes investimentos, ao contrário de hoje, em que essa expansão dos bancos públicos seria parecida com a questão fiscal: não estão aumentando sua atuação para construir, mas para consertar erros já cometidos, e fortalecer empresas que já têm forte presença no mercado, seja a Petrobras, que buscou empréstimo na Caixa Econômica, sejam financiamentos do BNDES para a compra da Brasil Telecom pela Oi.
Outro ponto destacado pelo governo é a diferença entre o déficit público dos Estados Unidos, que pode ultrapassar os 10% do PIB, e o nosso, de cerca de 1%. Além do fato de que o nosso déficit aumentará com a redução do superávit primário, os Estados Unidos pode fazer isso porque produz dólar, moeda que até o momento o mundo inteiro compra.
O fechamento relativo da economia brasileira, e a falta de um mercado de crédito mais amplo foram outros erros que se transformaram em virtudes, evitando que nos tornássemos vulneráveis a esses canais de transmissão da crise. Escapamos da bolha imobiliária que atingiu vários países, e da redução do fluxo internacional de financiamento, que atingiu fortemente apenas as nossas empresas de ponta, mais ligadas ao comércio exterior.
Para se ter uma ideia de como estamos ainda longe de sermos um país aberto ao mundo, a China tem em execução nada menos que 88 tratados bilaterais de comércio, a Índia, 47, e o Chile, nosso vizinho, 39. O Brasil tem 14 desses tratados ainda dependentes da autorização do Congresso, e nenhum com os Estados Unidos.
Ao analisar nossas supostas vantagem comparativas, autoridades chegam a fazer um paralelo entre o crescimento do Brasil e o dos Estados Unidos, ambos baseados, sobretudo, no consumo interno.
Enquanto no Brasil o consumo aumentou, devido à melhoria da distribuição de renda e ao crescimento da classe média, nos Estados Unidos o crescimento deu-se devido aos ganhos do sistema financeiro e à concentração de renda, o que os coloca hoje em situação delicada.
A questão é saber se o nosso consumo interno também é sustentável, pois não se baseia em ganhos de produção nem em mudanças estruturais, mas em programas assistencialistas como o Bolsa Família, e no aumento real do salário-mínimo, que impulsiona as aposentadorias.
Um sintoma negativo é a classe C, que vinha crescendo e chegara a 53,8% da população, em dezembro de 2008, ter caído para 52% em janeiro, e manter-se como a classe social predominante mais pela queda de poder aquisitivo de pessoas que estavam na classe AB do que pela subida de integrantes da classe D, como vinha ocorrendo nos últimos anos.
E-mail para esta coluna: merval@oglobo.com.br
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