O ESTADO DE S. PAULO
Um ano antes da eleição em que, após outras três tentativas frustradas, Lula foi guindado à Presidência da República, o então novo marqueteiro do PT, Duda Mendonça, publicou um livro que merece ser ressaltado. O título é Casos e Coisas.
Entre outras afirmações, Duda vaticinou que o Partido dos Trabalhadores, em função da coesão, da motivação e da uniformidade ideológica de seus membros, haveria, mais cedo ou mais tarde, de alcançar o poder nacional.
Duda realçou que alguns retoques na imagem de Lula e do partido deveriam ser feitos de imediato. Entre eles, o principal era o de eliminar qualquer resquício da ideia de luta de classes, tão cara aos intelectuais marxistas. E foi mais além. O ideal, mesmo, era suprimir todos os vestígios que lembrassem luta. Segundo o marqueteiro, o bordão preferido dos petistas - "a luta continua!" - era terrivelmente contraproducente. A palavra luta lembrava briga, confusão. E se havia algo de que os brasileiros, em geral, queriam distância, era isso.
Dito e feito. Nunca mais nenhum petista - a não ser alguns desavisados - se valeu de tal slogan. Nunca mais, também, foi utilizado o argumento de que haveria uma contraposição entre os anseios dos proletários e dos seus patrões burgueses. Não havia mais por que dividi-los em duas classes em tudo opostas e conflitantes. A partir de então seríamos todos brasileiros. Com princípios, conceitos e objetivos iguais em tudo. O atual slogan do governo de Lula, "um Brasil de todos", é um eloquente exemplo dessa então nova postura.
Lula jamais venceria eleições majoritárias enquanto provocasse receio e ojeriza nas camadas mais elevadas da sociedade. Se não pudesse tê-las ao seu lado, deveria, ao menos, neutralizá-las.
Tudo deveria começar com uma mudança radical de atitude, começando por sua aparência pessoal. Lula aparou a barba e corrigiu os dentes. Foram comprados ternos bem cortados, camisas sob medida e gravatas de bom gosto. Passou também a se apresentar com o rosto bronzeado e sem suor.
O tom do discurso mudou. Saiu o Lula combativo, feroz e ameaçador para dar lugar à versão "paz e amor".
Quer dizer, então, que o novo Lula é uma farsa? Não. O seu compromisso com o marxismo e com a Teologia da Libertação era apenas circunstancial. No início de sua carreira pública, como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, no final dos anos 70, Lula não só tinha nenhum dos cacoetes da esquerda brasileira, como também se mostrava refratário a qualquer participação dela em sua pregação.
Chegou a declarar, à época, que intelectuais e estudantes só serviam para atrapalhar.
Lula despontava perante a opinião pública como um líder operário de massas de perfil moderno, destituído dos vícios ideológicos que inviabilizaram os sindicalistas de antes de 1964.
Mais tarde, depois de fundado o PT, ele percebeu que o apoio do pensamento de esquerda era fundamental para motivar a militância, passando, então, a permitir que professores, estudantes e padres o municiassem de argumentos.
Lula, em sua origem, não era um esquerdista. E após a chegada de Duda Mendonça deixou logo de sê-lo. Não há nada de insincero ou artificial, portanto, em seu atual perfil.
Lula, no poder, tem-se revelado ora liberal, ortodoxo e conservador, ora esquerdista, "progressista" e nacionalista, ora clientelista e assistencialista. Qual deles é o verdadeiro Lula?
Talvez todos.
Sua política econômica é, em todos os sentidos, de cunho liberal. Ou seja, não faz apostas contra as forças do mercado, não demoniza a iniciativa privada e, no geral, procura não atentar contra o direito de propriedade e o fiel cumprimento dos contratos. É melhor que seja assim. Ao agir dessa forma, Lula ganha alguns inimigos dentro das esquerdas, mas, em contrapartida, passa a ser respeitado na comunidade internacional e no meio empresarial.
Seu lado esquerdista e terceiro-mundista se revela, principalmente, na política externa, na área fundiária e, até recentemente, no que tange ao meio ambiente.
Aí vale de tudo: cortejar Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e, agora, Fernando Lugo, do Paraguai, mesmo quando estes manifestam intenções belicosas e contrárias aos interesses do Brasil, despender tempo e dinheiro em viagens aos países pobres da África, rosnar e vociferar contra os Estados Unidos, e vai por aí em diante.
Na política fundiária, o governo de Lula transfere recursos para o MST, nada faz contra as invasões de terras e fecha os olhos para tudo de ilegal que ocorre nesse campo.
Mas é do clientelismo e do assistencialismo - práticas atrasadas e antiquadas de nossa democracia - que Lula extrai suas maiores forças.
Este governo abrigou mais de 30 mil petistas na administração pública federal. Os que não estão diretamente empregados no governo são favorecidos por este por meio de contratos de prestação de serviços e de fornecimento de produtos. Tudo isso sai muito caro para o Brasil, que cada vez mais desperdiça recursos, quer por corrupção, quer por incompetência.
Há, por fim, o cume do assistencialismo, que é o famigerado Bolsa-Família. Já são bastante conhecidos os inconvenientes provocados por tal programa. Ao dar dinheiro vivo às pessoas sem exigir nenhum tipo de contrapartida, o governo está incentivando a irresponsabilidade, o parasitismo e o espírito da mendicância. Está dando o peixe, abstendo-se de ensinar a pescar. O problema é que o Bolsa-Família alcança 11 milhões de famílias, em todos os rincões da Nação. Ou seja, não dá mais para voltar atrás.
Lula é tudo isso e entende, também, que a coerência é um princípio descartável quando se exerce o poder.
Lula é popular. Com tudo isso e apesar de tudo isso.
Arquivo do blog
-
►
2012
(836)
-
►
Maio
(77)
- Lula e Gilmar Mendes: conversa errada, no local er...
- Celso de Mello: ação de Lula foi indecorosa - O Gl...
- De parar o trânsito Miriam Leitão
- Danuza Leão - Olé
- Espalha brasa:: Dora Kramer
- As bienais e as vanguardas:: Ferreira Gullar
- Falsos remédios :: Suely Caldas
- "A Decadência do Ocidente":: Vinicius Torres Freir...
- O euro, ou vai ou racha:: Celso Ming
- Crescimento modesto em 2012:: José Roberto Mendonç...
- O "B" e o "C":: Merval Pereira
- Fernando Gabeira Coisa Nossa
- Marco Antônio Villa Verdade ? que verdade?
- Mantega cria o “realismo fantástico” do câmbio
- Augusto Nunes Vaccarezza mostrou que no peito de a...
- Reinaldo Azevedo 20/5/12
- Suely Caldas. Dilemas do setor elétrico
- “Cosa Nostra” - DORA KRAMER
- Freada na Argentina - CELSO MING O Estado de S...
- Tiro no pé - MERVAL PEREIRA
- Há espaço para crescer mais - ALBERTO TAMER
- Campo da floresta - MIRIAM LEITÃO
- Seca a CPI do Cachoeira - EDITORIAL O ESTADÃO
- Sobre a Comissão da Verdade - CELSO LAFER
- A nova ordem e a força social - GAUDÊNCIO TORQUATO...
- Um pequeno grande jornal - FERREIRA GULLAR
- De sacolinhas e pieguices - DANUZA LEÃO
- A mulher a ciência e o coco João Ubaldo
- Agenda econômica em fase de mudança. Editorial O G...
- camarada que pôs fogo na crise - VINICIUS TORRES F...
- Cláudio Humberto
- Maratona e reina dos bancos. Vinicius Torres Freir...
- Celso Ming. Energia mais barata
- Exceção a velha regra. Dora Kramer
- Pêndulo da balança. Miriam leitão
- Meia verdade,meia mentira. Carlos Alberto Sardenbe...
- Agricultura salva PIB
- A v aia dos prefeitos. Editorial O Globo
- Para fazer a lei `pegar' - EDITORIAL O ESTADÃO
- Um luxo Merval Pereira
- Querem salvar a Delta via BNDES - SÉRGIO GUERRA
- A crise europeia está em plena forma - GILLES LAPO...
- Como apagar o desejo de consumir drogas - FERNANDO...
- Maílson da Nóbrega (VEJA)
- Augusto Nunes:..Volta ao palco o papagaio de pirat...
- O preço do crescimento :Raul Velloso
- Fatalidades e voluntária os Pedro Malan
- Merval Pereira Sem revanchismos
- Lucia Guimarães Uma trama em que em que terrorismo...
- 'Carcará' e Falcão contra a liberdade de expressão...
-
►
Maio
(77)
-
▼
2009
(3759)
-
▼
Fevereiro
(181)
- El derrumbe de la ilusión Joaquín Morales Solá
- ¿Por qué se van? Por Mariano Grondona
- Ex-ministro José Cechin tira dúvidas sobre fundos ...
- VEJA Recomenda
- Editoriais dos principais jornais do Brasil
- E LOBÃO AINDA É MINISTRO
- Clima de mudança Paul Krugman
- MST: Dilma e ministro defendem repasses
- Tudo pelo 'social' EDITORIAL de O GLOBO
- Dora Kramer Barbárie consentida
- O castelo, os príncipes e o rei nu Marco Aurélio N...
- Míriam Leitão Ousadia de Obama
- A Crise
- Carta ao Leitor Otimismo contra a crise
- O MST invade, destrói e mata
- UM MENINO E DOIS PAÍSES
- Diplomacia O caso do garoto Sean Goldman preoc...
- Especial Os riscos das cotas raciais
- Contrato de divisão de bens: paz negociada
- Falar outra língua é básico
- Guia VEJA de Medicina e Saúde
- A indústria brasileira de games
- Por que algumas pessoas travam diante do perigo
- Crise Dez razões para estarmos otimistas
- Como economizar com água e energia
- Música Yan Pascal Tortelier: leveza à frente d...
- Watchmen, de Zack Snyder
- Frost/Nixon, com Frank Langella
- PT e PMDB brigam pelo controle de fundo
- VEJA Recomenda
- VEJA Entrevista: Pelé
- MILLÔR
- Radar
- André Petry A volta dos mortos
- Maílson da Nóbrega Por que o Brasil não quebra
- Diogo Mainardi Quatipuru, quem?
- J.R. Guzzo Nota zero
- História e crise Panorama Econômico :: Miriam Leit...
- Dinheiro público para invasores Evandro Éboli
- A bandidagem Janio de Freitas DEU NA
- O bloco da quinta-feira Fernando Gabeira
- Real baixeza Dora Kramer
- Lula é popular João Mellão Neto
- Furnas adia mudança de fundo
- Dilma desperta a oposição Villas-Bôas Corrêa
- Míriam Leitão De olho no pacote
- Precarização no governo do PT
- Folia e crise
- Brasil perde momento para discutir nova matriz ene...
- O novo antissemitismo
- Depois de Jarbas, Pedro Simon critica PMDB
- Proteção de investimentos no exterior Rubens Barb...
- Ter ou não ter Panorama Econômico :: Miriam Leitão...
- O sistema bancário no limiar do colapso Paul Krugm...
- E Lula engoliu a oposição...
- Em Furnas, o carnaval começa na quinta ELIO GASPA...
- Furnas e o seu fundo de pensão
- Furnas: troca em fundo de pensão gera protesto
- O retrovisor embaçado Clóvis Rossiπ
- Mirian Leitão Trivial variado
- A face da demagogia Villas-Bôas Corrêa
- VEJA Carta ao Leitor É preciso punir
- Os efeitos do furacão Jarbas Vasconcelos
- Governadores no banco dos réus
- Brasileira mentiu à polícia suíça
- Japão Recessão, depois de duas décadas de esta...
- O impacto da desaceleração numa economia
- Estados Unidos Os 25 culpados pela crise econô...
- Venezuela Um voto pela tirania
- A surpreendente mãe de óctuplos
- O vento está a favor do Brasil
- Células-tronco: tratamento desastroso na Rússia
- Acidente O choque entre dois submarinos nuclear...
- Presídios administrados pela iniciativa privada
- A calvície ronda, também, as mulheres
- VEJA Entrevista Camille Pagliae
- Lya Luft
- MILLÔR
- Radar
- Diogo Mainardi
- Roberto Pompeu de Toledo
- VEJA Recomenda
- Clipping de 18/02/2009
- Eu sou, mas quem não é?
- Dora Kramer Verdade inconveniente
- Plano N - Mírian Leitão
- Em busca do prestígio perdido Merval Pereira
- O Brasil virou um grande PMDB Arnaldo Jabor
- Clipping 17/02/2009
- Uma decepção e dois trilhões Vinicius Torres Frei...
- Suely Caldas O livro da gestão Lula
- Clipping de 16/02/2009
- Clipping de 15/02/2009
- Clipping de 14/02/2009
- A metástase chega ao comércio internacional Luiz C...
- Somos todos socialistas? Alberto Dines
- Segunda chance Rubens Ricupero
- Por qué no te callas? Ferreira Gullar
- Oposição empacada Merval Pereira
- A bananosa tucana Gaudêncio Torquato
- A crise financeira - riscos e incertezas Celso La...
- Campanha desbragada
- Míriam Leitão Verão do caudilho
- Dora Kramer O segredo dos indolentes
- Joaquín Morales Solá Acuerdos para gobernar cuando...
- Mariano Grondona Los dos triángulos y la pirámide
- VEJA Carta ao Leitor
- Sucessão Dilma Rousseff: uma candidata em camp...
- Tesouro O governo vai atrás de calote de 20 bi ...
- Crime Grupos de extermínio: deputados sob ameaç...
- Congresso Edmar Moreira seguirá tranquilo como...
- O desafio de sanear os bancos americanos
- Bancos públicos abrem os cofres às empresas
- Venezuela Chávez, dez anos de estragos
- Suíça O estranho caso da advogada brasileira
- Israel Eleições mostram país mais à direita
- Polícia Gangue de classe média: 55 traficantes...
- Especial A nova adolescência
- Espaço Satélites russo e americano se chocam
- Próstata: exame de urina poderá diagnosticar cânce...
- Educação Os ladrões de qualidade
- Educação"Menos opinião e mais ciência"
- Gustavo Ioschpe Falência educacional: complô ou ló...
- VEJA Entrevista: Jarbas Vasconcelos
- Claudio de Moura Castro Vamos de mal a pior?
- MILLÔR
- Radar
- Diogo Mainardi Preconceito ai funghi
- J.R. Guzzo Fecho de ouro
- Plano americano - Mírian Leitão
- VEJA Recomenda
- PODCAST Diogo Mainardi A quarta dose de rum
- Barack Obama diante do retrato da África
- Israel depois das eleições
- Battisti é nosso! João Mellão Neto
- Para Itália, refúgio a Battisti viola Convenção de...
- O centro destrutivo Paul Krugman
- Clipping de 10/02/2009
- Rubens Barbosa,O COMERCIO EXTERIOR E A CRISE
- El Gobierno aísla cada vez más al país del mundo J...
- ¿El primero o el último de los "odiadores"? Por Ma...
- VEJA Carta ao Leitor
- VEJA Entrevista Fernando Pimentel
- Lya Luft
- MILLÔR
- Radar
- PMDB: a força do centrão
- Prestígio inabalável mesmo com a crise
- Espionagem Ministro admite participação da Abin...
- Juros Como o spread bancário afeta o crédito d...
- Estados Unidos Os erros de Obama na formação da...
- Especial A Darwin o que é de Darwin..
- Maílson da Nóbrega Um argentino na diretoria do Ba...
- Reinaldo Azevedo Um homem sem (certas) qualidades
- Diogo Mainardi ¡Uuu, aaa, Diego no se va!
- VEJA Recomenda
- Clipping 04/02/2009
- Clipping de 03/02/2009
- Quanto o Brasil pode crescer este ano? Ilan Goldf...
- Celso Ming Os limites do Estado
- Dora Kramer Antes, durante e depois
- A nossa Câmara dos Lordes Vinicius Torres Freire
- Miriam Leitão Tempo das quedas
- Passada a crise, o emprego volta? José Pastore
- Clóvis Rossi A rua começa a rugir
- Merval Pereira Pressões internas
- Problema deles Eliane Cantanhêde
- Carlos Alberto Sardenberg Os esqueletos do governo...
- A intervenção estatal Suely Caldas
- CLÓVIS ROSSI Não é tsunami, há culpados
- VINICIUS TORRES FREIRE A fictícia "idade de ouro"...
- FERREIRA GULLAR Caras e bocas
- Optimistas, aun en medio de las ruinas Por Joaquín...
- El Gobierno y la cuestión de la verdad Por Mariano...
- Merval Pereira Mudança de modelo
- Míriam Leitão Cara metade DEU EM
- Eliane Cantanhêde Múltiplas personalidades
- Fernando Henrique Cardoso Perdidos na crise
- Dora Kramer Jogo de profissional
- EDITORIAIS1/2/2009 - EDITORIAIS DO JORNAIS
- Augusto Nunes Sete Dias
-
▼
Fevereiro
(181)
- Blog do Lampreia
- Caio Blinder
- Adriano Pires
- Democracia Politica e novo reformismo
- Blog do VILLA
- Augusto Nunes
- Reinaldo Azevedo
- Conteudo Livre
- Indice anterior a 4 dezembro de 2005
- Google News
- INDICE ATUALIZADO
- INDICE ATE4 DEZEMBRO 2005
- Blog Noblat
- e-agora
- CLIPPING DE NOTICIAS
- truthout
- BLOG JOSIAS DE SOUZA