Uma boa imagem para explicar a evolução da crise econômica que atinge o mundo é a da metástase. O crescimento mundial foi extraordinário nos três anos anteriores a junho de 2007, quando a crise do chamado subprime estourou, atingindo o pico de 5% ao ano. A leitura que prevaleceu inicialmente foi a de uma crise no sistema bancário americano. Em meados de 2008 a avaliação já tinha mudado de intensidade. Mas não havia ocorrido ainda uma mudança na qualidade da crise, vista ainda como conjuntural e, portanto, reversível pela combinação da política monetária tradicional e uma pontual redução dos impostos.
Até então ainda reinava a euforia do passado, mas análises sobre o caráter sistêmico da crise circulavam com mais intensidade. O momento há muito alertado por uns poucos de uma mudança profunda e estrutural no processo de endividamento do consumidor em vários países parecia estar finalmente chegando. Sendo isto verdade, além da crise meramente bancária teríamos um desequilíbrio macroeconômico de grandes proporções, com uma queda profunda da atividade econômica.
Foi neste momento de transição que a falência do banco Lehman Brothers ocorreu, adicionando um novo elemento de desconfiança nos mercados. A paralisia quase total das operações bancárias chegou a parcelas do mercado que ainda estavam preservadas. O exemplo mais dramático foi o das chamadas cartas de crédito, instrumento básico das operações de comércio internacional. Ocorreu uma descontinuidade importante no volume do comércio, fato atestado pela queda vertiginosa dos valores dos fretes marítimos. Passamos a viver então uma nova fase do processo de metástase do tecido econômico global.
As estatísticas recentes, vindas de economias tão diferentes como a americana e a dos tigres asiáticos, são de uma violência extraordinária. Nos últimos três meses as exportações americanas caíram mais de 25% em termos anuais, revertendo completamente o desempenho de uma fonte importante do crescimento da economia americana. Na Ásia, a queda das exportações foi também dramática, chegando a quase 40% em países como a Coreia, o Japão e Taiwan, e cerca de 20% no caso da China.
É preciso entender o que este colapso das exportações, no mundo todo, representa para o crescimento no futuro próximo. Mais do que um simples movimento conjuntural, este comportamento pode representar uma mudança estrutural importante no arcabouço funcional da economia mundial. O crescimento do comércio internacional nos últimos anos foi peça importante para este período de bonança que parece chegar ao fim. O maior risco hoje é o efeito que uma mudança permanente de padrão de consumo nos Estados Unidos pode ter sobre esta dinâmica do passado. Se a taxa de poupança dos americanos atingir, como esperado por muitos analistas, 10% de sua renda, a desaceleração de demanda mundial será ainda mais expressiva.
Dada a composição da oferta de bens na economia americana, esta nova realidade vai afetar de maneira intensa as exportações de economias importantes. Os últimos meses mostraram claramente que o aumento do consumo no mundo emergente, inclusive nos chamados BRICs, ainda não é suficiente para contrabalançar os efeitos do consumidor americano reduzindo seus gastos. A Alemanha, o Japão, a China e mesmo economias como a brasileira, terão redução em suas taxas de crescimento. Este impacto vai depender da participação das exportações no PIB de cada país.
Sabemos que a integração sem precedentes do comércio mundial nos últimos anos levou a um aumento significativo da produtividade global, criando um longo período de crescimento elevado com baixa inflação. Os benefícios dessa globalização foram amplamente sentidos no Brasil. O PIB brasileiro cresceu espantosos 6,8% em setembro de 2008 em relação a setembro de 2007, com contribuição negativa do setor externo de quase 3%, ou seja, o crescimento das importações acima do das exportações, permitiu uma alta de 7% do consumo das famílias e de 20% dos investimentos. E o mais importante, esse crescimento se deu sem um descontrole da inflação.
A contração atual do comércio internacional foi largamente sentida em todo o mundo, sendo os países mais dependentes do comércio mundial, os mais afetados. A Ásia aparece com destaque. As exportações líquidas da China, por exemplo, contribuíram diretamente com 3% do crescimento médio de 10% dos últimos quatro anos. Porém, esse é apenas o efeito direto do comércio exterior no crescimento do PIB chinês. Grande parte dos investimentos - que representam 40% do PIB na China - são voltados para as exportações. Num recente artigo divulgado pela Goldman Sachs, estima-se que o impacto total das exportações no PIB chega a espantosos 48%, o que engloba não só os efeitos diretos das exportações líquidas, mas também o encadeamento destas com a demanda doméstica, especialmente o investimento.
O que ocorreu na Coreia no quarto trimestre de 2008 ilustra bem a correlação entre exportações e crescimento interno. O PIB contraiu-se em 5,6% (contra o trimestre anterior), apesar de seu comércio exterior ter adicionado 0,7 ponto percentual, em função da queda das importações ter ultrapassado a das exportações no período. Mesmo assim, houve queda de 5% do consumo das famílias e de 9% dos investimentos.
VALOR ECONÔMICO
A crise dos anos 90 mostrou aos asiáticos que o crescimento com déficit em conta corrente e forte entrada de capitais especulativos é uma receita perigosa. A decisão de não mais permitir déficits em conta corrente levou a políticas direcionadas à manutenção de taxas de câmbio subvalorizadas, superávits em conta corrente e acúmulo de reservas. O resultado foi um grande aumento da participação do comércio exterior na economia destes países, gerando uma crença de invulnerabilidade. Agora percebemos que a temida parada súbita de capitais foi substituída pela parada súbita no comércio de bens, em função da correção, em andamento, nos Estados Unidos.
Por tudo isto, um enorme medo ainda domina os mercados. Este comportamento deriva principalmente da insegurança diante de um novo e ainda desconhecido equilíbrio macroeconômico do mundo global.
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