FOLHA DE S. PAULO
O desafio de Obama não é só vencer a crise, mas fazê-lo de modo a reconstruir modelo econômico diferente
TANTO O livro de Brzezinsky de mesmo título deste artigo como recente editorial da "New Left Review" concordam num ponto: os EUA terão uma segunda chance para reconstruir sua abalada liderança global. A razão de ambos é parecida. Do ponto de vista militar, tardarão décadas para que algum país se aproxime do nível americano. Na economia, os chineses, que poderiam, muito parcialmente, aspirar ao menos a um segundo lugar mais afirmativo, seguem absorvidos pelos desafios internos, sem apetite para contestar por enquanto a liderança de Washington.
No discurso de posse, Obama declarou que os EUA estão dispostos a exercer esse papel, desde que ajudados pelos demais. A questão é saber em que medida as atuais condições lhes permitirão de fato fazer isso com um mínimo de efetividade.
No último número de "Foreign Affairs", Roger Altman conclui sombria análise da crise econômica com a afirmação de que ela constitui importante revés geopolítico para o Ocidente e os EUA, privando-os da credibilidade e dos recursos necessários para manter a posição que ocupavam nos assuntos mundiais. Mesmo quando passe a crise, ela terá acelerado a tendência que vem afastando de Washington o centro de gravidade do mundo. É difícil discordar do diagnóstico.
O modelo econômico anglo-saxão perdeu poder de atração com a demonstração de sua irremediável insustentabilidade. Ainda que por milagre se pudesse voltar à pré-crise, quanto tempo duraria situação em que, ano após ano, se voltaria a agravar a dependência do endividado consumidor americano em relação ao financiamento asiático? Vale a pena sair da crise apenas para colocar os EUA ainda mais à mercê da China, o inimigo estratégico, segundo os conservadores?
Isso significa que o desafio de Obama não é somente vencer a crise, mas fazê-lo de modo a reconstruir modelo econômico muito diferente do que precipitou o colapso. O país teria de aumentar a poupança, reconquistar competitividade nos setores não-financeiros e reduzir as excessivas concentração e desigualdade que caracterizam o modelo fracassado.
A meta é de uma extraordinária dificuldade e exigiria da sociedade e de dirigentes elevado grau de coesão e disposição de trilhar caminho muito mais áspero. Ora, a batalha da aprovação do pacote fiscal e o decepcionante resultado da falida tentativa de forjar consenso bipartidário demonstram que a eleição não curou as profundas divisões ideológicas americanas. O medo da depressão não se revelou tão eficaz para gerar unanimidade quanto o medo do terrorismo, tal como explorado por Bush "et caterva".
Se as divisões persistirem, como será possível fazer aceitar os tetos de emissão de gases ou o aumento durável do preço da gasolina para combater o aquecimento global? Como gerar apoio para a difícil mediação entre Israel e os palestinos ou para os sacrifícios adicionais no Afeganistão e no Paquistão?
A nova chance não é certeza; é possibilidade que terá de se tornar viável graças ao consenso interno nos EUA e à cooperação externa.
Caso uma liderança cooperativa e partilhada não veja a luz, os riscos são a introspecção e o unilateralismo. Longa fase de paralisia e desordem se abateria sobre o mundo, agravando ameaças como as do clima e do Oriente Médio, sem que haja lideranças capazes ou dispostas a garantir a paz e a estabilidade.
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