sexta-feira, setembro 14, 2012

V****** proibidas - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 14/09


RIO DE JANEIRO - Em 1972, a revista americana "Reader's Digest" criou uma série de artigos em que órgãos do corpo humano descreviam suas funções como se falassem na primeira pessoa. Os artigos partiam de entrevistas com médicos sérios. Eram muito bem escritos e saíam "assinados" pelo próprio órgão, o qual podia pertencer a "John" ou "Mary". Assim tivemos "Eu sou o pâncreas de John", "Eu sou o coração de Mary" e outros -que "Seleções", versão brasileira da revista, publicou sem problemas, apenas transformando o casal em João e Maria.
Até que o "Digest" lançou "Eu sou o pênis de João" e "Eu sou a vagina de Maria". Na época, por razões comerciais, "Seleções", apesar de ser uma revista brasileira, era feita em Portugal. Produzia-se uma edição para o Brasil e outra, com alterações, para o mercado português. Os dois países viviam sob ditadura, com censura às publicações, da qual nem "Seleções" escapava.
A censura brasileira liberou os títulos que falavam de pênis e vagina. Mas a de Portugal os proibiu. Com a revista pronta para rodar, seus editores Tito Leite e Isaac Piltcher trocaram os títulos para "Eu faço de João um homem" e "Eu faço de Maria uma mulher" -que foram aprovados. Recém-chegado a Lisboa para substituir Isaac, eu não podia acreditar no grau de moralismo da censura lusitana. E, ainda hoje, mal acredito - embora tenham se passado 40 anos.
Bem, esta semana -40 anos depois-, a loja on-line Apple reduziu a asteriscos o título de um e-book, "Vagina - Uma Nova Biografia", de Naomi Wolf. Ficou assim: "V***** - Uma Nova Biografia". Meses antes, já fizera o mesmo com outro título, "Os Monólogos da Vagina", de Eve Ansler. Todas as referências à vagina no miolo desses livros também foram transformadas em v*****.
A folhinha diz 2012, mas deve ser engano. Ainda estamos em 1972.

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