quinta-feira, setembro 27, 2012

Economia ainda de cama - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 27/09


Recuperação da economia brasileira da lerdeza de 2011-2012 também é lerda, indicam dados recentes


O CÉU PARECIA desanuviar para a economia brasileira na última semana e pouco. Apareciam vários "brotos verdes", como se dizia da economia americana em 2009, muito mal comparando, pois estamos muito longe daquela calamidade.

Mas então aparecem os números sobre o crédito de agosto, divulgados pelo BC. O total de empréstimos novos caiu pelo segundo mês consecutivo. A inadimplência continua alta, mais ou menos estagnada.

Por outro lado, os dados preliminares de setembro parecem melhorar, mas é cedo para dizer. As taxas de juros caem, estão em "baixa recorde". Enfim, o Banco Central revisou para cima o ritmo de crescimento do crédito para o ano inteiro, revisão forçada pela alta forçada dos empréstimos concedidos pelos bancos públicos.

Não se trata de grande notícia nem de desastre, claro. Mas as notícias boas dos últimos dez dias também não eram lá muito mais que "brotos verdes" muito tenros ainda.

A atividade da indústria melhorou em julho e agosto, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria. A confiança do consumidor melhorou um bocado em setembro, depois de quatro meses de baixa, segundo a FGV.

Indicadores alternativos de inadimplência dão conta de que as "novas safras" de crédito são menos problemáticas. Isto é, os empréstimos mais recentes são pagos no dia certo.

Porém, o mercado de trabalho "formal" piora. Neste ano, o saldo da criação de empregos, a "criação de emprego", é 24,5% menor que no mesmo período de 2011, segundo o Ministério do Trabalho, embora os dados do IBGE ainda mostrem um mercado apertado e quente.

Por último, mas muito importante, é bom lembrar que a crise europeia está lá, fervendo, ficando publicamente feia de novo agora.

Grande motivo para sustos? Não exatamente. Mas, em outubro do ano passado, os indicadores davam conta de que havíamos chegado ao fundo do poço. Chegamos. Mas havia uns buracos nesse fundo, onde tropeçamos, e o poço era bem largo. Ficamos nele até agora.

Isto é, a reação da economia tem sido extremamente lenta. Agora já faz um ano que o Banco Central começou sua campanha de redução de juros. Sim, vamos ver o efeito maior disso lá por fevereiro do ano que vem e nos meses seguintes. Por ora, porém, vamos devagar.

Talvez essa lerdeza seja a explicação ao menos parcial do fato de o Banco Central ter liberado mais dinheiro para os bancos realizarem operações (o BC reduziu o compulsório, o dinheiro que os bancos têm de deixar parado na autoridade monetária).

A lerdeza pode ter também motivado a retomada da campanha do governo contra os juros altos -Dilma Rousseff e cia. agora batem contra as taxas lunáticas dos cartões de crédito. O Bradesco se mexeu, o Itaú deve ir pelo mesmo caminho.

Enfim, o governo está colocando mais capital nos bancos estatais, Banco do Brasil e Caixa, a fim de permitir que eles continuem a emprestar muito mais rapidamente que a banca privada.

Sim, há muito estímulo monetário (juro baixo) no forno, o governo põe mais dinheiro na economia (baixa imposto, gasta mais), há investimentos grandes programados para o futuro próximo. Mas a convalescença é bem demorada.

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