terça-feira, setembro 11, 2012

Esqueçam o que eu disse - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 11/09


Até a semana passada, o último presidente da França eleito com um discurso socialista a mudar rapidamente seus pontos de vista fora François Mitterrand. Eleito em 1981, ele levou um ano e meio para adotar uma política econômica reconhecidamente ortodoxa. O atual presidente, também socialista, François Hollande, levou apenas quatro meses para abandonar seus compromissos anteriores.

Ele foi eleito em 6 de maio e assumiu uma semana depois, com uma plataforma tipicamente contra "tudo o que está aí". Rejeitou a política econômica de seu antecessor, Nicolas Sarkozy, que priorizara a austeridade, para pregar uma política econômica voltada para o aumento inteligente das despesas públicas, que geraria crescimento econômico e emprego. E, é claro, não seria o caudatário da durona chanceler da Alemanha, Angela Merkel, ao contrário de Sarkozy.

Pois, nesse fim de semana, Hollande foi obrigado a engolir seu discurso anterior. Em vez de acelerado crescimento do PIB, admitiu um avanço neste ano "apenas superior a zero" e, em 2013, de 0,8%, não mais de 1,2% como projetado anteriormente. Em vez de menos austeridade, impôs um pacote fiscal de 33 bilhões de euros, dos quais 20 bilhões de euros virão de elevação de impostos, e outros 13 bilhões de euros, de redução das despesas públicas - portanto, de menos consumo. Mais ainda, avisou que encaminhará reformas das leis trabalhistas. Não disse quais, mas não precisa explicar que serão reduzidos os custos de contratação de mão de obra, logo, de suspensão de certos direitos trabalhistas.

Hollande evitou a expressão "mais sacrifícios". Mas disse quase o mesmo: pediu "o maior esforço econômico em 30 anos". Alívio à vista? Sim, mas somente para 2014 ou, quem sabe, 2015.

Em Portugal, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho não mudou sua retórica, sempre arraigadamente conservadora. Mas apertou ainda mais os cintos dos portugueses. Em janeiro, com o apoio do sindicato socialista, definira uma reforma trabalhista que facilitará demissões e diminuirá feriados. Reduziu também o tempo máximo de pagamento do seguro-desemprego, de três para dois anos. E, agora, determinou a elevação de 11% para 18% da contribuição dos trabalhadores à previdência.

Ninguém pode alegar que a Alemanha impõe uma política econômica suicida ao resto da área do euro. A guinada da França ou o reforço da austeridade de Portugal são apenas consequências da falta de opção. Quando o rombo orçamentário segue alto demais e faltam interessados em continuar comprando títulos de dívida nas mesmas proporções, o que sobra é mais aperto.

Países com moeda própria ainda poderiam adotar políticas heterodoxas, como imprimir dinheiro para pagar as contas, mesmo sabendo que práticas desse tipo também custam caro em inflação e perda de confiança. Mas não é o caso dos sócios do bloco do euro - que também não pretendem voltar à moeda própria, cientes de que isso lhes custaria ainda mais caro.

As decisões tomadas por França e Portugal indicam que a recessão e o desemprego vão se aprofundar na área do euro. E mais, apontam não só que a transferência da conta da crise ainda vai continuar mas, também, que a fase de ajuste vai se esticar por mais tempo do que se imaginava há alguns meses.

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