Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, setembro 12, 2011

Necessário, mas insuficiente JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S.Paulo - 12/09/11


É possível extrair algo do comportamento do eleitor em 2010 que valha para o pleito municipal de 2012? Uma constatação é que o voto nas capitais foi sensivelmente diferente do voto no interior. No primeiro turno da eleição presidencial, Dilma Rousseff (PT) teve 40% dos votos válidos nas capitais, contra 49% no resto do País. A disputa do governo contra a oposição foi muito mais dura nessas 27 cidades. Entender o porquê ajuda a medir as chances de governistas e oposicionistas em 2012.

Não foi a oposição tucana que dificultou as coisas para a candidata de Lula nas capitais. No primeiro turno, José Serra (PSDB) recebeu proporcionalmente menos votos nessas cidades (30%) do que no resto do País (33%). Quem fez a diferença nesses centros foi Marina Silva (então no PV). Enquanto ela teve apenas 16% dos votos válidos no interior, sua votação chegou a 28% nas capitais. Foi a mais votada em Brasília, Belo Horizonte e Vitória.

Pesquisas do Ibope feitas ao longo da campanha de 2010 indicam que o eleitorado de Marina era dividido entre dois segmentos muito diferentes entre si: de um lado, um eleitor de classe média alta que estudou acima da média e estava desencantado com PT e PSDB; e de outro, evangélicos que desconfiavam das opiniões de Dilma e Serra sobre questões como aborto. Será possível comprovar isso na esfera municipal?

O cruzamento dos resultados eleitorais com as informações de renda do Censo 2010, divulgadas recentemente, e o novo mapa da religião publicado pela Fundação Getúlio Vargas apontam que sim.

Há enormes diferenças de comportamento do eleitor de capital para capital: no primeiro turno, a votação de Dilma variou de 16% em Rio Branco (AC) a 57% em São Luís (MA). E a de Serra, de 7% em Manaus (AM) a 51% em Boa Vista (RR). Para além das peculiaridades regionais, é possível identificar tendências.

Em 3 de cada 4 municípios que não são capitais, quanto maior era a abrangência do Bolsa Família em 2010, maior foi a votação de Dilma. Já nas capitais, a força da correlação entre os programas assistencialistas do governo federal e o comportamento do eleitor foi reduzida à menos da metade. Dois outros fatores diluíram essa influência: renda e religião.

Segundo estudo de Marcelo Neri, da FGV, há maior proporção de evangélicos nas capitais. E, entre elas, há grandes disparidades: de 10% em Teresina (PI) a 43% em Rio Branco (AC). Embora haja exceções, em regra Dilma teve menos votos nas capitais onde há maior porcentual de evangélicos. Sua votação também foi proporcionalmente menor nas capitais com renda per capita mais alta. Essas duas correlações foram mais fortes do que entre voto e Bolsa Família.

Para Marina Silva, as relações foram inversas às de Dilma. Em grande parte das capitais, quanto mais evangélicos, maior sua votação. Mas a conexão mais forte não foi religiosa, e sim de poder aquisitivo. Quanto maior o crescimento absoluto da renda acima da inflação, melhor o desempenho da então candidata do PV. Ou seja: ao menos nas capitais, Marina faturou politicamente mais do que Dilma e Serra os reais extras que os eleitores embolsaram ao longo da década passada.

Como interpretar essas correlações? Do ponto de vista estrito, comprovam-se as inferências do Ibope. Marina teve dois eleitores distintos, um mais rico e outro mais pobre, que votaram nela por motivos diferentes: o primeiro, para criar uma alternativa política ao PSDB e ao PT (e, eventualmente, defender o meio ambiente), o segundo, na candidata da sua fé, que por ser evangélica se mostrou mais confiável contra mudanças como a legalização do aborto no Brasil.

Mas é possível extrapolar os resultados para 2012. A principal constatação é que quando há outros fatores intervenientes, como religião, a influência econômica sobre o voto é amenizada. A segunda é que nos lugares onde a riqueza já era mais alta, os incrementos de renda, por maiores que tenham sido, não foram traduzidos automaticamente em predisposição do eleitor de votar na candidata do governo identificado como o responsável por esses ganhos.

Não bastará ao governo manter a economia crescendo, a inflação sob controle e o Bolsa Família funcionando. Essas são condições necessárias, mas não suficientes para Dilma e sua base aliada vencerem as eleições municipais de 2012. São necessárias obras e políticas com impacto local. E isso só é viável com uma máquina administrativa bem azeitada.

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