O roto e o rasgado CELSO MING
O ESTADÃO - 29/09/11
Buscar culpados em vez de soluções é prática milenar do ser humano. E é o que se repete agora com a sucessão de recriminações que tomam o noticiário sobre a crise mundial.
Autoridades tanto dos Estados Unidos como da área do euros e dedicam agora a um bate-boca aflitivo que se propõe a descarregar mutuamente sobre o outro lado a culpa pela falta de soluções para a crise.
Em meados de setembro, por exemplo, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Tim Geithner, desembarcou na Polônia para um encontro sem precedentes com as autoridades da União Europeia. Lá, desfilou um rosário de queixas sobre a maneira como os líderes do bloco vinham conduzindo a busca de uma saída.
Condenou a adoção de políticas de austeridade, todas recessivas. Em vez delas, então, que os governos da área adotassem políticas de gastança pública- reclamou.No fim da semana passada, durante a assembleia do Fundo Monetário Internacional,em Washington, Geithner redobrou a dose de recriminações e cobrou urgência.
Segunda-feira,foi a vez de o presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, reclamar de que "a crise europeia está assustando o mundo". Ele também condenou a lentidão na adoção de políticas destinadas a superar a crise.
As autoridades do outro lado do Atlântico foram bem mais rápidas no gatilho quando se tratou de revidar ao tiroteio.
O primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, importante liderança da União Europeia, disparou: "Nem os desempregados gregos nem os trabalhadores irlandeses quebraram o Lehman Brothers". E acrescentou que as encrencas enfrentadas por Grécia,Irlandae Portugal não se devem à sua participação na zona do euro.
O ministro das Finanças da Alemanha, o durão Wolfgang Schäuble, revidou com outra advertência: "É sempre melhor dar conselhos do que tomar decisões".
E a vice-presidente da Espanha, Elena Salgado,lembrou naTVE(principal emissora do país) que o governo dos Estados Unidos não estava em condições de fazer cobranças assim, por ter fica do paralisado(pela facção republicana do Tea Party) quando da aprovação de propostas para aumentar o teto do endividamento e foi forçado a ceder diante da oposição.
As autoridades se recriminam mutuamente, como fica claro. Mas a cada César o que é de cada César. Os dois lados fizeram e seguem perpetrando lambanças.
As soluções não vêm porque a vontade política em colocá-las em marcha não consegue vencer as resistências.
Até agora, por exemplo, o governo dos Estados Unidos não deu um passo sequer para reduzir as dívidas hipotecárias do consumidor americano - principal razão da paralisia da economia. E, por enquanto,as autoridades da área do euro se mexem apenas para ganhar tempo, não para construir um atalho que tire os Estados quebrados da encalacrada em que estão metidos.
Pela lógica do processo, o problemão sobrará para os grandes bancos centrais.
Serão eles chamados a socorrer, com ilimitadas emissões de moeda, a rede bancária avariada pela sucessão de calotes soberanos que vêm aí. E já se sabe: também serão os bancos centrais os principais alvos dos ataques dos dois lados do Atlântico, se mais adiante a inflação mostrar a cara.
Inolvidable Ontem, o diário madrilenho El Pais noticiou o sucesso do ex-presidente Lula entre os grandes grupos econômicos locais: "Lula, a estrela convidada das empresas espanholas". Ele está sendo a atração, hoje, em Londres, patrocinada pelo Banco Santander, em comemoração ao Dia do Investidor. Em meados de outubro, será a vez da Endesa.
E, há alguns meses, aconteceu com a Telefónica e com o BBVA.
É o povão consumindo Também ontem, a presidente Dilma Rousseff creditou às façanhas do governo Lula o fortalecimento do mercado interno, que garantiu a melhor resistência da economia contra a crise global. É inegável que a administração Lula ajudou a fortalecer o mercado interno. Mas nunca é demais lembrar: foi a partir do Plano Real, que derrubou a inflação, que o poder aquisitivo do povão deixou de ser corroído.
A explicação esperada O Banco Central divulga hoje o Relatório Trimestral de Inflação. No foco: as explicações sobre a desinflação a ser provocada pela crise externa.
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