Política externa de Dilma afasta-se da de Lula só na retórica ALEXANDER RAGIR
O ESTADÃO - 23/09/11
A presidente Dilma Rousseff parecia sugerir que seria menos condescendente com ditadores do que seu predecessor, quando criticou a situação de direitos humanos no Irã, antes de assumir o cargo em janeiro. Até agora, a mudança em relação a seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, tem sido mais de estilo do que de conteúdo, dizem analistas.
Lula irritou o governo Obama ao manter laços estreitos com o Irã. Ele recebeu o presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2009 e visitou Teerã no ano seguinte. As relações Brasil-EUA chegaram a seu nível mais baixo no ano passado quando o embaixador do Brasil na ONU votou contra a adoção de sanções mais rigorosas contra o programa nuclear do Irã e Lula ajudou a Turquia a intermediar um acordo para o fornecimento de combustível nuclear a Teerã.
Dilma, ao contrário, recebeu Barack Obama em Brasília menos de três meses após chegar à presidência, e comparou sua eleição como primeira mulher brasileira a assumir o cargo de presidente com a histórica vitória dele - o primeiro negro a tornar-se chefe de Estado americano. Embora Dilma evite a retórica de seu ex-chefe, que comparou a repressão aos protestos em favor da democracia em Teerã a uma briga entre torcidas de futebol no Rio de Janeiro, o governo dela também assumiu posições que não agradaram aos EUA.
Em março, o Brasil absteve-se na resolução da ONU que autorizou ataques aéreos na Líbia. Em junho, Dilma não quis se encontrar com a dissidente iraniana e premio Nobel da Paz, Shirin Ebadi. Dois meses depois, o Brasil juntou-se a África do Sul e Índia para bloquear medidas nas Nações Unidas que buscavam pressionar a Síria para pôr fim à repressão no país. Em abril, falando a formandos do Instituto Rio Branco, Dilma pediu um sistema internacional "realmente multipolar", que possa refletir a mudança do equilíbrio de poder no século 21.
"Houve uma mudança de estilo em relação a Lula, mas não acredito que se trate de muito mais do que isso", afirma Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da FGV-RJ. "Quanto mais poderosos os países como o Brasil se tornarem, mais tensões veremos."
Segundo o deputado americano Eliot Engel, democrata e membro de uma subcomissão da Câmara dos Representantes para a América Latina, a campanha do Brasil por um assento permanente no Conselho de Segurança pode estar sendo prejudicada pelo fato de a presidente não confrontar "países desestabilizadores" como Irã, Líbia e Síria. "Embora Dilma tenha afastado o Brasil da intimidade com o Irã, que era muito evidente no governo do seu predecessor, o Brasil ainda parece afagar e encontrar desculpas para esses regimes perigosos", afirmou Eliot Engel, que copreside o Congressional Brazil Caucus, bancada que trabalha para fortalecer as relações bilaterais, em comunicado antes do discurso da presidente (na quarta-feira).
Dois estilos. Lula visitou mais de cem países durante seus oito anos de governo; Dilma Rousseff, pelo contrário, tem se concentrado em questões domésticas. Embora ela tenha se afastado de Lula em assuntos como a contenção dos gastos e o combate à corrupção, sua equipe de política externa assemelha-se à de Lula: o chanceler Antonio Patriota foi o diplomata número 2 do governo anterior. "Lula encarava a política externa como um grande instrumento de marketing para projetar o poder econômico do Brasil", avalia o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia. "Dilma tem outros problemas para resolver."
Para Alexandre Barros, chefe da empresa de consultoria de risco político com sede em Brasília, Early Warning, a política externa de Dilma Rousseff não tem por objetivo provocar. "Sempre foi uma fantasia americana que o Brasil se alinharia com os Estados Unidos", diz . "Não se trata de ser contra alguma coisa. O Brasil simplesmente tem os próprios interesses."
No caso da Líbia, esses interesses incluem investimentos como a construção de um novo terminal no aeroporto de Trípoli pela Odebrecht, e a exploração de petróleo pela Petrobrás. Durante o governo Lula, o comércio com o Irã mais do que dobrou, chegando a US$ 1,2 bilhão por ano. Teerã, hoje, é o segundo maior comprador de carne brasileira. Compra 20% dos US$ 2 bilhões exportados ao ano.
É CORRESPONDENTE NO RIO DE JANEIRO.
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