Governo federal é ameaça à Copa EDITORIAL O Globo
- 17/09/2011
Os torcedores brasileiros estão preocupados com as idas e vindas na escalação do time que representará o país na Copa do Mundo. Mas, a mil dias do pontapé inicial da festa do futebol que aqui será realizada em 2014, o verdadeiro sinal de alerta está em outro campo: com os prazos para obras e procedimentos legais - com os quais o governo brasileiro se comprometeu perante a Fifa - encolhendo, o Brasil corre o sério risco de sediar um fiasco. Até lá, o técnico Mano Menezes e a seleção podem colher resultados mais animadores nos gramados. Mesmo assim, o desempenho do time nacional no torneio dependerá não só da qualidade dos craques, mas também do imponderável que faz a magia do futebol.
Mas na questão dos preparativos para a Copa - legislação específica para o evento, obras de infraestrutura nas cidades-sede e nos estádios, ações concretas para modernizar o gerenciamento de aeroportos etc. -, o circunstancial não pode entrar em campo. Ou o poder público age, fazendo de fato a sua parte, ou de pouco adiantará formar uma nova geração de jogadores fora de série. Aqui, por ironia, a equipe a ser enfrentada antes de a bola rolar é a do próprio governo federal, com seu leniente e até agora tíbio esquema de providências para o Mundial.
É extremamente preocupante constatar como estão emperradas as iniciativas burocráticas, que demandam tempo até serem de fato implementadas. Somente ontem, a Casa Civil da Presidência submeteu à presidente Dilma Rousseff o projeto da Lei Geral da Copa, conjunto de regras legais que disciplinam as atividades diretamente ligadas ao evento - desde a venda de ingressos ao trabalho de estrangeiros envolvidos nos preparativos. Trata-se de uma espécie de primeiro pontapé para deflagrar um processo que desembocará na partida de abertura do torneio. Dilma assinou a mensagem, que enfim deverá chegar ao Legislativo na segunda-feira. Isso depois de o ministro dos Esportes, Orlando Silva, ter adiado a remessa do texto por pelo menos três vezes desde abril.
Em relação às obras pactuadas com a Fifa, o quadro, a depender do setor, parece ser um pouco menos grave. De maneira geral, o cronograma de construção ou de reforma de estádios está sob controle, embora não totalmente livre de atropelos, graças principalmente a iniciativas dos governos estaduais para garantir o curso das intervenções. Em Minas, inclusive, estima-se que os trabalhos estejam à frente do prazo estipulado. Mas o quadro geral é inquietante, à luz do balanço dando conta de que 52 das 81 obras do evento ainda não começaram. As mais atrasadas são aquelas que cimentaram o esforço nacional para promover a Copa, que ficariam como legado para as cidades. Juntem-se a isso as incertezas quanto às licitações dos aeroportos, que têm gerado desconfianças na iniciativa privada, parceira fundamental para o sucesso não só do Mundial, mas, à frente, das Olimpíadas no Rio. E também a falta de uma política clara para as telecomunicações de ponta, notadamente a regulamentação para implantar, ao menos nas sedes, a tecnologia de celulares 4G, de altíssima velocidade.
Os desafios são gigantescos, e o governo federal precisa equacioná-los urgentemente. Tanto quanto uma seleção de alto nível, o país tem o dever de mostrar ao mundo que também é capaz de promover a maior de todas as competições de futebol.
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