Crime e corrupção no Rio GILBERTO VELHO
O GLOBO - 10/09/11
Não foram muitas as pessoas que acreditaram que a implantação das UPPs, por si só, fosse resolver ou, mesmo, controlar a criminalidade na região metropolitana do Rio de Janeiro. Isso não significa que não houvesse o reconhecimento da importância e dos méritos da iniciativa. Pode-se dizer que em várias áreas pobres da cidade melhorou a segurança da população. No entanto, o que se evidencia, de modo inescapável, é que a violência tem profundas raízes na nossa sociedade e contamina os mais diferentes setores de atividades. A corrupção está entranhada na vida social, minando iniciativas, ações e tentativas de melhorar a qualidade de vida dos habitantes do Rio de Janeiro e de outras grandes cidades. Há várias questões importantes a serem discutidas em torno das UPPs, sem ignorar os benefícios por elas trazidos. Até que ponto a presença das tropas pacificadoras, policiais e/ou das Forças Armadas, susta a violência? Certamente contém as suas manifestações mais evidentes, mas não tem condições de ir mais fundo, no enfrentamento de suas raízes. Só um projeto contínuo envolvendo, sobretudo, educação e trabalho, teria um potencial de, a longo prazo, superar a atração da criminalidade. Pois esta, não nos iludamos, é um modo de vida associado a aspirações, desejos e ambições, que correspondem a novos perfis e trajetórias sociais.
Não se trata, também, só de focalizar aqueles que são diretamente envolvidos com os crimes, pois suas ações repercutem, de várias maneiras, sobre as suas redes de relações, parentes, vizinhos e conhecidos, etc. Se, de um lado, constituem uma ameaça, por outro abrem possibilidades de um tipo de ascensão social baseado no acesso a bens de consumo e a símbolos de prestígio. É importante, assim, não esquecer do que já foi apontado por diversos autores, a carga simbólica associada ao acesso e uso de armas. O tráfico destas, não custa insistir, está indissoluvelmente vinculado ao de drogas. Outro ponto fundamental, ligado à implantação das UPPs, são os efeitos causados no aumento inegável de assaltos, roubos, sequestros e agressões em geral às classes médias, em vários pontos da cidade. Criou-se um clima de que o protesto dessas classes médias não deve ser levado muito a sério, porque afinal de contas "tem uma situação muito melhor do que a dos pobres". Ora, estamos falando não só de perda de bens, mas, como tem ocorrido recentemente, de vidas humanas. Pois esta é uma mudança assustadora nos costumes e hábitos brasileiros. Sabemos que, historicamente, as vidas de pessoas humildes pouco valor tinham, em contextos de exploração e dominação. Mas, hoje, assistimos a uma desvalorização generalizada, fazendo com que homens, mulheres, jovens, crianças e idosos, de todas as classes, estejam sujeitos às formas mais bárbaras de violência. Infelizmente, não podemos ignorar que, em diversas situações, esses crimes são praticados por pessoas das agências de segurança pública, especialmente a polícia.
Assim, quando a presidente da República fala das prioridades de saúde, educação e segurança, é preciso que se compreenda esta última como uma área que mal foi tocada nos últimos anos. As medidas tomadas até agora podem aplacar alguns sintomas e indícios, mas estão longe de chegar perto do âmago das questões que as produzem.
GILBERTO VELHO é antropólogo.
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