Inflação: é bom não relaxar ROLF KUNTZ
O ESTADÃO - 08/06/11
Há boas notícias sobre a inflação, mas é melhor esperar um pouco antes de celebrar a contenção dos preços. Os mercados parecem acomodar-se, depois de meses de forte instabilidade, e o governo reforça o discurso otimista. É seu papel, mas um pouco de prudência é sempre recomendável, porque ainda há muito risco tanto no exterior quanto no País. Além disso, os novos números não apontam numa única direção. Para maior clareza, é bom começar pelas informações mais amplas e, neste caso, mais positivas.
Um dia antes da nova decisão do Banco Central (BC) sobre os juros básicos, dois dos mais importantes conjuntos de indicadores foram divulgados. Referência da política oficial, o IPCA, Índice de Preços ao Consumidor Amplo, subiu 0,47% em maio. Em abril havia subido 0,77%. Variação mais notável apareceu no IGP-DI, o Índice Geral de Preços calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Aumentou apenas 0,01% no mês passado. A alta havia sido de 0,5% em abril.
O resultado de maio, excelente, foi determinado principalmente pelos preços ao produtor, com peso de 60%. Esses preços diminuíram 0,63%, graças ao recuo das cotações das matérias-primas e dos bens intermediários.
Os preços ao consumidor entram no IGP-DI com peso de 30%. Subiram 0,51%, em ritmo ainda acelerado, mas bem mais moderado que o do mês anterior, 0,95%. O terceiro grande componente, com peso de 10%, é formado pelo custo da construção, com alta de 2,94%.
A melhor notícia embutida no índice da FGV é o recuo dos preços ao produtor. Esse dado prenuncia menor pressão sobre o varejo nos meses seguintes. Seria muito bom se a história terminasse nesse ponto. Mas os fatos são um pouco mais complicados.
A inflação vai depender no segundo semestre principalmente da demanda. Há sinais de arrefecimento da economia, mas também nesse caso os indicadores são mistos. O crédito ao consumidor cresceu menos em abril do que em março, mas ainda cresceu, segundo o BC. A renda do trabalhador vem sendo corroída pela inflação, mas aumentos salariais acima dos ganhos de produtividade têm sido registrados. Importantes acordos salariais serão discutidos a partir de agosto pelos sindicatos mais poderosos. Haverá tentativas de conseguir bem mais que a compensação pela alta de preços em 12 meses. Nesta altura, o IPCA acumula uma alta de 6,55%. Poderá haver algum recuo nos próximos dois meses, mas, mesmo assim, a negociação partirá de uma base elevada. Os empresários cederão tanto mais facilmente quanto maior for sua expectativa de repasse aos preços.
Os efeitos da demanda ainda são muito sensíveis nos números divulgados nesta terça-feira. Houve aceleração de aumentos em cinco dos nove grupos de bens e serviços incluídos no IPCA. Os aumentos maiores ocorreram nos itens alimentação e bebidas, habitação, artigos de residência, despesas pessoais e comunicação.
Além disso, o índice de difusão - a parcela de bens e serviços com alta de preços - passou de 59,38% em abril para 64,84% em maio. Segundo Rosenberg & Associados, foi o maior número desde março, quando chegou a 68,23%. Um alto grau de contaminação dos preços ocorre quando os participantes do jogo conseguem repassar aumentos com facilidade. Isso se dá num ambiente de ampla liquidez e demanda muito ativa.
Porta-vozes do setor industrial têm procurado realçar os sinais de arrefecimento da atividade. É um discurso costumeiro, usado como argumento contra a alta de juros. Mas os últimos dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), distribuídos também na terça-feira, mostraram um cenário nada sombrio. Descontados os fatores sazonais, o faturamento real cresceu 4,3% de março para abril. Pelo mesmo critério, o número de horas de trabalho aumentou 1,5%. O uso da capacidade instalada diminuiu ligeiramente, de 82% para 81,6%, mas ainda permaneceu elevado.
Os freios aplicados pelo BC, por meio de restrições ao crédito e elevação de juros, podem ter produzido algum efeito, mas muito suave até agora. Ontem, especialistas citados pelos meios de comunicação davam como certo pelo menos mais um aumento de juros neste ano. Alguns davam como prováveis dois aumentos.
Pelo menos dois pontos parecem claros. Os efeitos da política sobre a demanda interna foram limitados e o risco da transmissão de aumentos por indexação, no segundo semestre, permanece considerável. O segundo ponto é o risco externo: é cedo para afastar a hipótese de um novo choque de preços internacionais, embora o perigo possa parecer menor, neste momento.
A inflação, dizem funcionários do governo, ficará este ano dentro do limite oficial - provavelmente abaixo de 6,5%. Mas qualquer número abaixo do teto será realmente bom?
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