domingo, setembro 16, 2012

O atrativo do risco - CELSO MING


O Estado de S.Paulo 16/09



Nesta primeira quinzena de setembro, algumas das mega-ameaças que pairavam sobre a economia mundial foram, ao menos provisoriamente, afastadas.

Dia 7, o Banco Central Europeu (BCE), presidido pelo italiano Mario Draghi, acionou, finalmente, sua bazuca. Comprometeu-se a recomprar no mercado volume ilimitado de títulos de dívida de países da área que viessem a ser rejeitados pelo risco de calote. Com isso, Espanha e Itália, as bolas da vez, passaram a ter à sua disposição importantes barcos salva-vidas.

Depois de reiteradas ameaças de rejeição, a Suprema Corte da Alemanha aprovou dia 12 a criação do Mecanismo Europeu de Estabilização (ESM, na sigla em inglês), fundo destinado a funcionar como extintor de incêndios.

E, no dia 13, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), liderado por Ben Bernanke, anunciou nova rodada, desta vez por tempo ilimitado, de expansão de moeda destinada a baixar os juros no crédito hipotecário, reativar a economia e recuperar o emprego.

Essas iniciativas atuam positivamente sobre os principais geradores imediatos de problemas na economia mundial. Por causa disso, os investidores, entocados até agora em posições altamente conservadoras, se sentiram mais à vontade para procurar aplicações de risco.

Em outras palavras, numa paisagem de juros reais negativos no exterior (não cobrem a inflação), alguns dos principais motivos que mantiveram os investidores a distância dos mercados de ações foram, mesmo que temporariamente, removidos. Esse "temporariamente" precisa ser realçado porque, afinal, nenhum dos grandes problemas que mergulharam a economia global na crise foi seriamente atacado. Os políticos e os grandes bancos centrais até agora não fizeram outra coisa senão continuar empurrando os problemas "com a barriga".

Na semana passada, a Bolsa brasileira aproveitou esse vento. Empinou sua pipa para acima dos 62 mil pontos (veja o gráfico). Até que altura chega é boa pergunta, não só porque boa parte dos fatores que a prendiam ao chão continua atuando - como ficou dito -, mas também porque, mesmo com a robustez do consumo, nos próximos meses, os resultados das empresas podem não ser tão bons.

No entanto, a garantia do Fed de que o pinga-pinga dos juros internacionais ficará aí por mais três anos pode juntar a fome com a vontade de comer do investidor de fora; e o longo período anterior de rastejo das cotações da Bolsa brasileira pode ser visto como pechincha . A propósito, bom número de ações negociadas diariamente tem valor de mercado abaixo do valor patrimonial registrado em balanço (veja o Confira) - o que reforça a percepção de que, a longo prazo, a compra desses papéis pode ser boa oportunidade.

A sustentação desse movimento é que são elas. Nos últimos dois anos, a Bolsa brasileira quebrou seguidas apostas na recuperação. Em parte, porque o ativismo e a propensão do governo Dilma a mudar as regras do jogo não ajudam. O mesmo serve para a enorme fratura exposta da economia mundial, capaz de provocar surpresas negativas a qualquer momento.

Em todo o caso, o mercado mostra muita vontade de acreditar. Isso obviamente não basta, mas é bom ponto de partida.

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