quarta-feira, setembro 19, 2012

Conversa de velhos - ROBERTO DaMATTA


O Estado de S.Paulo - 19/09


Para o Roque nos seus 80 anos

Entreouvi, outro dia, uma conversa entre dois velhos. Eram "antropólogos" e estavam jantando. Eu pairava no ar de todas as possibilidades que constroem o que chamamos de literatura, ao mesmo tempo em que participava do bate-papo.

* * * *

Os velhos chegaram e, como velhos amigos, apertaram alegremente suas velhas mãos. Sentaram-se um em frente do outro. Eram antigos. Ambos usavam blazers e era visível o prazer que sentiam naquele encontro. O gosto do encontro tão comum, mas tão escondido entre os seres humanos, contaminava os garçons que os recebiam. Escolheram um lugar bem iluminado porque já não enxergavam bem nem de perto nem de longe, nem no claro nem no escuro. Não eram mais vampiros e um deles, para piorar o problema, tinha um baita terçol no olho esquerdo.

- Você se lembra daquele nosso jantar em Belém, em agosto de 1962, quando terminávamos uma temporada de pesquisa de campo entre os índios e, sem dinheiro, escolhemos a comida pelo lado direito da coluna - pelo preço?

- Lembro que você pediu uma salada de tomate, mas naquele tempo não havia verduras em Belém. Depois roubamos os ovos e o leite dos zoólogos americanos que dividiam a hospedagem gratuita conosco no Museu Goeldi...

- Mas agora somos "ricos" e podemos comer de tudo! - afirmou com garantia orgulhosa o mais falante dos dois.

- Garçom, por favor, dois uísques Joãozinho Caminhador com gelo e soda!

Não havia soda, mas a bebida foi devidamente servida com água gasosa. E os velhos beberam sem brindar. E eu percebi que o brinde era a bênção do encontro.

Liquidaram rapidamente a primeira rodada e, na segunda, brindaram aos ausentes e logo verificaram que eram muitos. Falaram de dois colegas queridos - uma professora e um professor - mortos recentes e, em seguida, dos antigos. Todos os seus mentores haviam morrido. Eram órfãos e brindaram a uma honrosa, nostálgica e orgulhosa orfandade.

- Devem estar precisando de antropólogos no outro mundo. Talvez um congresso ou reunião...

- Talvez uma tentativa de entender este nosso sempre surpreendente país.

- Não vamos estragar o papo falando em política - disse o mais ponderado dos dois velhos que eram ambos igualmente ponderados.

- E ela, como vai? - perguntou timidamente o velho sem tersol.

- No mesmo. Está viva e morta ao mesmo tempo - falou o velho com o tersol.

As lentes que cobriam os quatro olhos dos dois velhos não escondiam aquele constante lacrimejar que faz com que o olhar dos velhos seja sempre molhado por alguma coisa. Uma lembrança ou um esquecimento. Uma falta ou uma grata presença. Os velhos se satisfazem com muito e com pouco ao mesmo tempo.

- Eu lembro dela em Belém, grávida do seu primeiro filho e sempre sorrindo.

- Sempre sorrindo. Até hoje sorrindo...

* * * *

Esses velhos eram amigos havia muito tempo. Se eu fosse um fabulador, diria que eles haviam se conhecido no tempo em que animais falavam e havia no mundo uma inocência tão palpável quanto a mesa na qual o garçom botou os pratos de uma gostosa comida fumegante.

- Lembra quando os índios visitaram você e nós os levamos para uma visita ao Museu Nacional, onde almoçaram?

- Eles ficaram impressionados com o número de pessoas nas ruas e com a feiura das mulheres na praia. Imagine...

- Você também sabe o que ocorreu quando voltei à aldeia meses depois dessa visita, não?

- Não lembro...

- Eles pensaram que o Museu fosse a minha casa e me cobraram duramente pela sovinice de "branco". Eu era imensamente rico, morava num castelo, mas dava poucos presentes.

- Mas eu lembro - disse o velho do tersol - do seu desespero no avião, cujo trem de aterragem não descia. E como você imaginou o desastre e se preparou para o pior. Mas primeiro pensou em duas crianças que estavam sentadas ao seu lado. Você tentaria tirá-las do avião de qualquer modo. Eu fiquei impressionado com esse altruísmo numa situação que justifica todos os egoísmos.

O velho mais calado olhou para dentro do seu copo como se estivesse procurando alguma coisa. Em seguida, mirou os olhos do amigo. A mim me pareceu que os olhos de ambos ficaram um pouco mais molhados.

* * * *

Era uma conversa de velhos e os velhos têm muitas histórias.

Haviam se encontrado do mesmo modo em outras ocasiões. Numa delas, um dos velhos ia bem e o outro andava mal. Agora, a mesa havia virado. O velho do tersol vivia perdas muito dolorosas. Empatavam, contudo, no gosto pelo compartilhar da comida que comiam.

* * * *

O olhar era o mesmo do primeiro encontro num Congresso de Estudantes de História na Faculdade Nacional de Filosofia em 1960. A vida havia passado dentro e fora de cada um deles, cujos destinos se ligavam pelo interesse na velha disciplina do entendimento humano pelo humano. Jamais tiveram ressentimentos ou inveja um do outro. Nenhum assunto foi proibido entre os dois. Entre eles reinava uma rara solidariedade que não precisa de doença, discórdia, morte, política ou desastre para se manifestar.

- Não sei se vou fazer uma festa nos meus 80 anos. É muito trabalho.

- Faça o que achar melhor, mas lembre-se de que nem todos chegam aos 80. Sobreviver é vencer, como dizia Thomas Mann.

Terminaram o jantar na dúvida. Mas combinaram um encontro nos 80 anos de uma querida amiga. Em seguida, levantaram e deixaram o restaurante como haviam entrado: discretos e triviais como se chega a este mundo.

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