Entrevista:O Estado inteligente
JOÃO UBALDO RIBEIRO Política de alto nível
O GLOBO - 04/04/10
Itaparica sempre foi subestimada, para infortúnio daqueles que caíram nessa armadilha, levados pela natural afabilidade e aparente indolência dos nativos. Foi assim com o temível invasor holandês em 1649, posto para fora debaixo de cacete, tendo se pirulitado tão às pressas que deixou vários representantes seus para trás, sem dúvida ancestrais do nosso vasto suprimento de mulato(a)s de olhos verdes ou azuis (zoio grin ou zoio bru, no inglês inconfundível de Picolêichon, nosso famoso vendedor de picolés). Foi igualmente assim que se passou com os portugueses em 1823 e com inúmeros outros que se atreveram a facilitar com a ilha. E não se trata apenas de feitos perdidos na poeira da História, mas de proezas recentes, como no tempo do finado Chupeta, que, convidado a compor um time contra o qual o então grande Bahia treinaria, fez três gols em quatro minutos de jogo e desmoralizou uns oito marcadores - era um canhotinha que só se vendo para acreditar, melhor que vários Maradonas juntos.
Não facilitem, pois, aqueles que julgam que, na sua placidez que engana apenas os que se guiam por exterioridades ilusórias, a Denodada Vila de Itaparica está alheia à febre eleitoral que já começa a esquentar em todo o país. Na realidade, estamos na vanguarda, como acaba de demonstrar Zecamunista, que, numa decisão surpreendente até para os que acompanham de perto sua movimentada biografia, anunciou que vai concorrer a uma vaga de deputado estadual nas eleições deste ano e todo mundo sabe que já está em campanha.
- Assim que o presidente começou a de d. Dilma, eu comecei a minha - me disse ele. - Nesse ponto, eu tenho de reconhecer que ele deu uma boa puxada. Mas, se ele é esperto, eu também sou. No mundo da política, não há lugar para os otários. Está em Lenine, se você for ler bem.
- Mas o presidente nega que está em campanha.
- É isso mesmo, eu também nego. O negócio é esse, vai fazendo e vai negando, vai fazendo e vai negando. Como diz o poeta popular, enquanto vocês filosofa, nós atocha. Pergunte a ele se não é isso. Ele não vai concordar falando, mas vai confirmar com uma risadinha, ele não vai resistir. Quer apostar?
- Eu não, todo mundo sabe que você nunca perdeu uma aposta e, além do mais, não tenho como fazer essa pergunta. E isso é outra conversa, vamos ficar na sua candidatura mesmo. Você está em campanha, mas nega, tudo bem. Só que podem fazer uma denúncia e aí o TRE multa você, você vai ter que pagar multa.
- Multa não, isso aí não é multa.
- Como não é multa? Claro que é multa, todos os jornais deram.
- Vocês da imprensa também são uns otários. Otários metidos, mas otários, se acostumam a escrever as mesmas besteiras e nem pensam mais nelas. Qual é multa, rapaz? Está certo que você seja oposição, mas deixar de reconhecer no homem as qualidades dele é burrice, tem de ver que o bicho é esperto. Não tem nada de multa, veja a genialidade dele, com um toque já desmanchou tudo. Pense aí, vá. Não lhe ocorreu nada, não viu a lição?
- É, desculpe a cegueira, não vi nada.
- Ele já mostrou claramente, de fato é cegueira sua. Mas tem que ver, o que ele não pode é dizer isso com todas as letras, tem que ficar somente na demonstração.
- Zeca, eu não estou entendendo nada dessa sua explicação.
- Então eu explico a explicação. Lula deu o corte epistemológico nessa multa, entendeu?
- Não.
- É o seguinte, não é multa nada, é despesa de campanha. Entendeu agora? Você vai lá, faz campanha, a justiça multa, você vai ao caixa e diz "pague essa multa aí". Pronto, quites com a justiça, tudo zerado. O que foi isso, foi multa? Só na cabeça empedrada de quem não quer desafiar conceitos preestabelecidos e superados, para ver a realidade objetiva. Oposição não é deixar de reconhecer o talento do oponente, é o contrário, esse corte epistemológico é um toque de gênio, vai para o trono.
- É verdade, eu não tinha pensado nisso. Mas, multa ou taxa, você vai ter de pagar de qualquer jeito.
- Eu mesmo não vou pagar nada. Você parece que não me ouviu, isso é despesa de campanha, é tudo coberto pela minha verba de campanha.
- Tudo bem, mas então você vai levantar dinheiro.
- Já estou levantando, já tenho até uma provisão para compra de votos.
- Compra de votos? Você, comprando votos?
- Com preleção. Eu compro o voto, mas, na hora do pagamento, faço uma preleção ao eleitor, mostrando a ele como aquilo está errado e exijo que ele prometa que nunca mais venderá voto. Não se pode esquecer o pragmatismo, o pessoal está acostumado a vender o voto, não se pode mudar tudo assim de repente, tem que ser uma coisa gradual, dentro de uma estratégia.
- Zeca, você está me saindo um político veterano, já estou até acreditando que você vai ser eleito. E de onde é que está saindo esse dinheiro?
- Ah, isso é com o tesoureiro da campanha. Acho que esse dinheiro vem do caixa dois, não se sabe de onde entra, não se sabe para onde sai.
- Você acha, não sabe direito?
- Aliás, nem sequer acho, pensando bem. Não sei de nada, não vi nada, ninguém me falou nada. Eu já lhe disse que aprendo com os mestres.
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