Entrevista:O Estado inteligente
Novo ciclo Miriam Leitão
O Globo - 27/04/2010
Há 14 semanas seguidas, as expectativas de inflação para este ano pioram no Brasil. Somente de janeiro a abril, o IPCA-15 acumulou alta de 2,51%, mais da metade da meta para todo o ano. As projeções para o crescimento do PIB giram em torno de 6%; já não há mais ociosidade na indústria, que deve crescer perto de 10% em 2010. Amanhã, o Banco Central começará a subir a taxa de juros.
O economista e professor da PUC-Rio Luiz Roberto Cunha acha que as expectativas de inflação estão se deteriorando porque já começam a ser contaminadas pelo temor de mudança na política econômica no ano que vem: — Os candidatos já disseram que estão comprometidos com o tripé metas de inflação, câmbio flutuante e ajuste fiscal, mas isso não garante que a política monetária será a mesma dos oito anos do governo Lula.
Luiz Roberto Cunha acha que os juros subirão até 11,25% este ano, mas nem por isso está garantido que a inflação ficará nos 4,5% do centro da meta.
Isso certamente vai criar muito ruído. Aliás, ruído é que não falta neste assunto. O mercado acha que o Banco Central não está se comunicando adequadamente. Na última reunião, o Copom não subiu os juros, mas divulgou uma ata tão dura que parecia ser a explicação de uma alta.
O interessante é que quando se compara com a situação internacional, o Brasil sempre fica diferente. Veja no gráfico, na comparação da trajetória de inflação entre os quatro países do Bric. O Brasil parece mais estável. Não caiu muito quando veio a crise, não está subindo tanto agora. Mas os juros, na comparação, estão sempre entre os mais altos.
Mas os indicadores do Brasil, comparados com meses atrás, mostram claramente que a inflação está subindo, num contexto de aquecimento da demanda.
A projeção do economista Luis Otávio Leal, do Banco ABC Brasil, é de que o PIB encerrou o 1otrimestre deste ano com crescimento de 2,2% na comparação com o trimestre anterior. Isso daria uma taxa anualizada de 9%, que estaria acima do limite da economia de crescer sem gerar inflação. Ele aposta em aumento dos juros em 0,5 ponto percentual e lembra que além da piora das expectativas, a inflação corrente também está pressionada: — Fala-se muito que a inflação está puxada pelos alimentos, mas temos visto um choque atrás do outro. Primeiro, dos alimentos in natura, depois, do açúcar, e agora, da carne. Mas o fato é que se não houvesse demanda, esses aumentos não iriam se sustentar — explicou.
Desde a última reunião do Copom, o Boletim Focus piorou a projeção para o IPCA deste ano em 0,39 ponto percentual, saindo de 5,02% para 5,41%. O mesmo aconteceu com a inflação de 2011, indo de 4,60% para 4,80%.
— É bastante coisa para 45 dias, principalmente em relação à inflação do ano que vem — disse Leal.
Os economistas estão bastante divididos em relação ao tamanho do aperto.
Uns apostam em alta de 0,5 p.p., outros, de 0,75 p.p. O Bank of America prevê aumento de 0,50 ponto. Essa é a mesma aposta da Tendências Consultoria. A Ativa corretora acha que a alta deveria ser de 0,75 p.p., mas acredita que o Banco Central só subirá a taxa em meio ponto. O economista José Júlio Senna, da MCM Consultores, prevê o aumento maior, com o Banco Central atuando para compensar o atraso por não ter subido os juros na última reunião.
— Fico com a sensação de que o BC já está atrasado, e se não mostrar firmeza agora pode ficar ainda mais atrás da curva — disse.
Carlos Thadeu de Freitas, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), avalia que seria um erro tentar compensar o tempo perdido.
Uma alta muito forte nos juros poderia trazer mais valorização ao real.
— O Banco Central precisa olhar para a frente e não ficar olhando para o que já aconteceu — defende.
Essa discussão fica ainda mais confusa quando se pensa no contexto eleitoral. O Ministério da Fazenda e outros integrantes do governo são contrários a alta dos juros, mas a inflação desagrada mais o eleitorado do que a alta dos juros. Qual será a decisão do BC? Certamente, vai subir os juros.
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