quarta-feira, junho 25, 2014

Um jogo de lavar a alma ZUENIR Ventura

O Globo

Que a seleção continue assim, jogando mal, mas fazendo mais gols do que sofrendo

Dizem os entendidos, com razão, que mais uma vez o nosso time não correspondeu à expectativa contra Camarões — jogou bem apenas um tempo, não tem um meio de campo à altura, a defesa não é totalmente confiável e o ataque vive às custas de Neymar. Venceu, mas não convenceu. Tudo bem, mas desde quando no futebol ganha só quem joga melhor e não quem faz mais gols? Da mesma maneira, pode-se afirmar que não foi um gol de placa, longe disso, o de Fred. Em pé ou deitado, ele já fez outros mais bonitos. Mas foi o que lhe proporcionou uma das mais esfuziantes comemorações de sua carreira. Como ainda não tinha marcado na Copa, estava sendo estigmatizado com piadas maldosas. Ouvi muito: "Quando é que ele vai entrar em campo?" Por isso, ele podia ter tripudiado, exigindo com um gesto malcriado o silêncio dos críticos. Mas não, preferiu sair correndo ao encontro dos companheiros, com a boca escancarada para exprimir num grito de gol toda a alegria que vinha reprimindo desde o começo da Copa. Só Fred explica.

Em matéria de desforra civilizada, Neymar também foi um exemplo. "Sem jogar tudo o que sabe", como dizem alguns (imagina se jogasse), teve naturais ímpetos de revidar repetidas agressões desferidas com os pés e as mãos, dentro e fora do campo, como foi o caso daquele violento empurrão nas costas que um camaronês lhe deu já na linha de fundo. No entanto, ele acabou se contendo e transformando sua revolta numa coreografia de balé, com dribles desconcertantes, passes precisos e gols geniais. Respondeu assim não só aos agressores, como aos que o acusam de fragilidade, de ser um cai-cai e um fingidor que simula a maioria das faltas que lhe fazem.

Enfim, com exceção do artilheiro, a partida contra Camarões não foi um jogo para encantar os olhos, mas para lavar a alma. Que a seleção continue assim, jogando mal, mas fazendo mais gols do que sofrendo.

O que tem de simpático o país e de alegre sua torcida ("chi, chi, chi, le, le, le, viva Chile") têm de arrogantes certos jogadores como Valdivia, que, aliás, joga no Palmeiras, de São Paulo. Recalcado porque seu time e nosso próximo adversário é um velho freguês em Copas, ele diz que agora vai ser diferente: "O Chile não se cansa e, no fim, a história fica no museu." Tomara que morda a língua.

Mudando de assunto. Nessa aliança política de alhos com bugalhos aqui no Rio, já classificada de "suruba", pelo deputado federal Alfredo Sirkis, e de "bacanal", pelo prefeito Eduardo Paes, há — para manter o nível e o gênero das metáforas — um estupro, o do eleitor.



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