domingo, junho 22, 2014

O joio e o trigo - Zeina Latif e Marcos de Barros Lisboak

O joio e o trigo - Economia - Estadão

Estadão  

As recorrentes frustrações com os resultados da economia têm levado a frequentes críticas à atual gestão da política econômica.

A crítica disseminada, no entanto, acaba por obscurecer diferenças importantes na gravidade dos problemas a serem enfrentados.

Existe uma compreensível frustração com a condução da política monetária, sobretudo em comparação com a década passada. A menor clareza na comunicação, o eventual experimentalismo e a dificuldade com o reconhecimento de equívocos e alterações no diagnóstico colaboram para críticas pontuais ao Banco Central.

Essas críticas, no entanto, deveriam ser compatíveis com a severidade dos problemas e as circunstâncias. Controlando-se pelo atual governo, a política monetária seguiu um rumo responsável, garantindo uma relativa estabilidade dos preços, sobretudo tendo em vista a confusa agenda econômica e as pressões políticas de um governo que prefere a percepção aos fatos.

Não se pode comparar os eventuais equívocos da gestão monetária ao retrocesso institucional promovido pela autoridade fiscal, cujas consequências para os próximos anos serão ainda mais severas do que o desempenho medíocre recente da economia. Como uma família pródiga, acumulamos dívidas com pouca transparência sobre suas implicações futuras. O caso recente mais exemplar talvez seja do PSI, em que o BNDES reconhece recursos recebidos do Tesouro para a concessão de créditos no ano corrente. O Tesouro, por sua vez, apenas irá assumir que concedeu os recursos em dois anos.

Os recentes empréstimos aos governos estaduais, concedidos com aval da União, sustaram temporariamente o pagamento das dívidas, permitindo o aumento dos gastos correntes dos governos estaduais. Quando o pagamento das dívidas for retomado, diversos Estados encontrarão uma situação fiscal bem mais difícil. Parte relevante dos municípios está com dificuldade em cumprir as suas obrigações legais, comprometendo a execução das políticas públicas nos próximos anos. A política fiscal desorganiza as contas públicas, torna obscura a concessão de benefícios e transfere recursos da sociedade para benefícios privados, com pouca transparência sobre seus custos e resultados.

O cumprimento da meta de inflação requer a condução adequada da política fiscal. O governo parece preferir mascarar os problemas ao enfrentamento das dificuldades, ampliando os desafios para a próxima administração. A política monetária não consegue compensar perfeitamente a política fiscal, cujas consequências se disseminam de forma preocupante pela economia, afetando a composição e o nível da demanda agregada, ampliando as expectativas inflacionárias e prejudicando a expansão da oferta ao desestimular investimentos e ganhos de produtividade. A rápida convergência da inflação para a meta exigiria um grande sacrifício da atividade e do emprego, com impacto negativo sobre a avaliação de risco do País e contraproducente tendo em vista o restante da política econômica.

Corrigir equívocos de política monetária é relativamente simples. Maior clareza na comunicação sobre objetivos e diagnósticos permitiria ajustes mais eficazes, colaborando para o ambiente macroeconômico e maior crescimento. Simples, mas insuficiente, caso não se enfrentem as distorções e o desequilíbrio fiscal construídos nos últimos sete anos. Aqui o problema é grave, e o total da conta a ser paga é opaco por opção da atual administração. Sem a necessária clareza dos desafios fiscais e a garantia de uma inversão da trajetória atual, as distorções criadas e a insegurança sobre os riscos futuros comprometem o crescimento e, simultaneamente, o controle da inflação.

Neste governo, a política monetária destoa pela responsabilidade possível. Avanços na sua gestão podem ser feitos de forma relativamente simples e eficaz em um melhor ambiente macroeconômico. A atual política fiscal, por outro lado, compromete o futuro e ameaça as conquistas, inclusive as sociais, das últimas duas décadas. Vamos concentrar a discussão no essencial.

*Zeina Latif e Marcos de Barros Lisboa são, respectivamente, economista-chefe da XP Investimentos e vice-presidente do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa

Excepcionalmente, Suely Caldas não escreve seu artigo hoje.



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