terça-feira, junho 24, 2014

Heinz, o rejeitado - Jose CasadoJornal

Heinz, o rejeitado - Jornal O Globo

O Globo

Ele não foi visto com a credencial da Fifa na arquibancada do 4 a 1 do Brasil sobre Camarões, ontem, em Brasília. Nem em Manaus, domingo, quando americanos ficaram "olhando para o nada, como se não pudessem acreditar no que viam" — na descrição do repórter Cláudio Nogueira —, diante do 2 a 2 aos 50 do segundo tempo.

Fã de futebol, assistiu a quase todas as Copas dos últimos 60 anos e não esquece a primeira paixão infantil no gramado: um obscuro time de Fürth, cidade da Bavária (Alemanha) onde nasceu com o prenome de Heinz, num 27 de maio de 91 anos atrás. Na época de ascensão do nazismo, Fürth era um lugar perigoso para crianças de origem judia. Fugia de casa, enlouquecia os pais, que preferiam vê-lo na ópera, driblava os nazistas apenas para assistir aos jogos locais. Jamais entendeu como seu time pôde ganhar três campeonatos. A guerra o levou para os Estados Unidos.

Suas digitais são perceptíveis nos bastidores da gradativa ascensão do futebol entre americanos — audiência crescente em um mercado promissor. Teve papel relevante, por exemplo, na difusão local do esporte, nos anos 70, quando ajudou a projetar Pelé no New York Cosmos. Em 1994, mergulhou na organização da Copa dos EUA.

Diplomata, se tornou personagem dos mais influentes do século passado. Entre seus títulos constam o de Prêmio Nobel da Paz (1973), de membro honorário do Comitê Olímpico Internacional e de conselheiro na Fifa de Joseph Blatter, o controvertido presidente da entidade. Aprendeu a ver no gramado e na torcida algo além da paixão por uma competição de atletismo ou por um concurso de estilos.

Acha que na disputa pela taça da Copa é possível identificar o caráter político de cada país: "É um jogo muito tático e em sua complexidade se converte em fascinante reflexo das atitudes nacionais" — escreveu em 1986. "Por que nenhuma equipe de país comunista (exceto a Hungria, em 1954) chegou às semifinais ou à final da Copa?" Responde: "Planejamento excessivo, estereotipado, destrói a criatividade indispensável para o futebol eficaz."

Oito décadas depois dos campeonatos alemães sob o nazismo, "Heinz" de Fürth, atual Henry Alfred Kissinger, queria assistir à Copa do Brasil. Consultas informais foram feitas ao governo brasileiro, com a exibição de sua credencial de conselheiro da cúpula da Fifa. Não houve um veto explícito, mas lembrou-se que ele correria riscos em território brasileiro, inclusive de prisão — há meia dúzia de organizações civis internacionais sempre mobilizadas com esse objetivo.

Ex-conselheiro de política externa dos presidentes dos EUA dos anos 50 aos 70, Kissinger é acusado de cumplicidade em crimes de Estado no Timor (1975), no Chile e no Uruguai (1973) — nesses casos em parceria com governos brasileiros —, além do respaldo a ditaduras sanguinárias como a argentina e a chilena. Na Copa de 1978 foi o convidado de honra da Junta Militar que torturava prisioneiros em torno do estádio, em Buenos Aires.

Crimes contra a Humanidade são considerados imprescritíveis, também no Brasil. Por isso, mesmo com o passe livre da Fifa, o "Heinz" de Fürth virou um torcedor rejeitado nesta Copa, confinado à tela da televisão na Ilha de Manhattan, onde vive.



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