sexta-feira, junho 27, 2014

Nas lentes do BC Miriam Leitão

Nas lentes do BC | OCP Online

O GLOBO

Nas lentes do BC

Para quem acusa a imprensa de inventar motivos para pessimismo, recomenda-se a leitura do Relatório de Inflação do Banco Central. Lá estão dados, números, projeções que sustentam: o país vai crescer menos do que se imaginava este ano. Nada além de 1,6%. O gasto público está crescendo 14,1%, acima do ritmo de alta da receita, que é de 9,9%. A indústria e o investimento vão encolher.

Não há nada de errado com o Banco Central. Ele está apenas constatando os fatos e fazendo projeções para o país com base nesses dados. Pelo BC, a alta do PIB foi ficando cada vez mais acanhada — previa 2% e caiu para 1,6% — a inflação permanece resistente, o déficit externo será de US$ 80 bi. Apesar de a inflação estar em queda no mundo, o índice no Brasil permanecerá acima do centro da meta.

Não é um quadro animador e não é muito diferente da tendência apontada pelos institutos, consultorias e departamentos econômicos dos bancos. Há diferença em intensidade, mas, em geral, o que todos estão alertando é que o ano está com números ruins. Se o governo, por estar em campanha, achar que essa conjuntura é desconfortável, pode inventar outra. Mas terá que chamar os marqueteiros e não os economistas.

O BC define como "consistente com a meta" de 1,9% do PIB de superávit primário o que está acontecendo nas contas públicas, mas qualquer pessoa vendo esses números sabe que não é sustentável aumentar consistentemente a despesa além do aumento da receita. Nenhum orçamento doméstico aguentaria isso por muito tempo.

A inflação mensal recuou nos últimos meses, pelo fim dos fatores sazonais, lembra o BC. "Não obstante a inflação ao consumidor em doze meses tende a aumentar no curto prazo", disse, e isso também não é diferente da constatação geral. O BC acredita que a diferença da inflação de preços administrados e de preços livres ter se reduzido é indicação de que a inflação reprimida nos preços que o governo controla está diminuindo.

Nisso, há visões bem mais pessimistas. Sim, houve aumento de energia este ano, mas eles nem de longe ajudam a dissolver o caroço criado pela MP 579, aquela que reduziu os preços do setor energético. As empresas distribuidoras estão vivendo de empréstimos para cobrir a diferença entre custo e preço. Isso está se acumulando e não se dissolvendo. Em algum momento terá que ser corrigido.

Os números do BC para a indústria são negativos. Ela encolherá 0,4% este ano, na previsão do Banco, com queda de 1,9% na indústria de transformação no último trimestre e nova queda de 1,4% no primeiro trimestre do ano que vem.

O BC espera retração dos investimentos e estagnação da indústria, com desaceleração do consumo das famílias e do governo. A construção civil no mesmo período terá queda de 2,2% e 1,5%. Na formação bruta de capital fixo, a taxa de investimento, o BC também está prevendo queda no fim deste ano e começo do próximo, de 2,4% e 0,6%.

Segundo o departamento econômico da corretora Tullett Prebon Brasil, este é o sexto Relatório de Inflação consecutivo com aumento das projeções de inflação para 2014 e 2015. O IPCA, agora, tende a ficar em 6,4% e 5,7% nos dois anos, contra projeções de 6,1% e 5,5% feitas em março. Isso aconteceu mesmo com estimativas mais baixas para o dólar e o aumento da Selic. No cenário de referência, utilizado pelo BC, a chance do índice oficial de preços superar o teto da meta subiu de 38%, no RI de março, para 46%, agora.

O binóculo de projeções do Banco Central tem alcance até o segundo trimestre de 2016 e nem daqui a dois anos espera-se o IPCA no centro da meta. A estimativa é de preços variando 5,1% no cenário de referência e 5% no cenário de mercado. Se acontecer, o país terá inflação acima do centro da meta por seis anos seguidos. A última vez que o IPCA esteve em 4,5% foi agosto de 2010.

A pergunta que alguns se faziam ontem é: se subiram as projeções de inflação, por que o Banco Central parou de subir os juros? A resposta implícita está na fraqueza da atividade econômica. O BC piorou seu cenário para os investimentos, indústria, construção civil e consumo do governo e das famílias. O governo não pode atacar o mensageiro pelo quadro desanimador da economia. É mais inteligente olhar a economia pelas lentes do Banco Central.

Os pontos-chave

1º - Relatório de Inflação do Banco Central reduziu projeção de PIB e subiu a de inflação pela sexta vez.

2º - BC espera queda do investimento, da indústria, e alta menor do consumo das famílias e do governo.

3º - Governo acusa a imprensa de ser pessimista. BC mostrou os mesmos números ruins do mercado.



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