quarta-feira, junho 25, 2014

Fora da concentração Miriam Leitão

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24.06.2014
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COLUNA NO GLOBO


Como me concentrar, queridos leitores, na economia e suas aflições: a indústria que cai, a inflação que se aproxima do teto, o PIB que não dá sinais de vida, se toda hora há um jogo emocionante puxando a atenção? Perdida entre índices, eu quero é me espantar com a Costa Rica, ver as corridas do holandês Robben e saborear vitórias brasileiras como a de ontem.

Não há nada mais emocionante do que o inesperado. Claro, quando não é contra a gente. Se é o Brasil, o que se espera é mesmo a vitória sobre Camarões e, depois, sobre o Chile, nosso próximo adversário. Horrível aquele empate sem graça com o México. Muito melhor o resultado de ontem, ainda que precise mais.

De imprevisíveis, essa Copa está cheia. E justamente quando parecia que tudo seria a mesmice de um futebol excessivamente europeizado. Que nada! Algo aconteceu que passou a subverter tudo o que já está estabelecido. Ou quase tudo. O que será que produziu tanto resultado surpreendente nesta Copa até agora?

Uma fonte entra no meu e-mail, na manhã de sábado, com uma longa análise. A mensagem registrava como assunto. "Caso você goste de futebol". Dois detalhes para entender minha perplexidade com a mensagem: primeiro, dele só tinha recebido até então análises econômicas. Segundo, por temperamento e pela camisa do cargo que ocupa, ele só fala com o compromisso de que seu nome não apareça.

Argumento que suas opiniões futebolísticas nada têm que exijam o anonimato, mas não consigo fazê-lo sair do seu armário de equações econômicas e entrar em campo com a bola no pé. Queria uma entrevista sobre tema que não se espera que ele fale, mas ele fica na retranca. Queria apenas um bate bola de sábado.

"Aqui na Copa do Brasil, o futebol está sendo como era antigamente. Imprevisível. Pura emoção, surpreendente, com os placares esquecidos do passado, vitórias de virada, onde grandes campeões caem na primeira rodada, onde pequeninos ganham de gigantes, onde o ambiente é de festa e carinhosamente latino."

E vai por aí meu missivista cujo nome ele não quer impresso. Mas o que me encanta é o fato de que ele não me traz índices ou avaliações sobre tendências das crises, projeções fiscais ou do grau de liquidez nos campos europeus. Fala de outros fenômenos, outros números, ainda que de vez em quando empregue seu jargão. "Alta volatilidade, grande variância, oscilação de performance" é o que ele acha que marcam essa copa. Podia usar "resiliência" de certos times que, mesmo quando derrotados, não se entregam.

E assim fomos conversando nessa troca de mensagens. Claro que um dos assuntos é a rapidez com que a campeã Espanha foi eliminada. "Ironicamente, quem inventou o futebol da Espanha moderna foi o Johan Cruyff, no Barcelona, o esquema vencedor que a sua própria Holanda acaba de enterrar".

É divertido trocar de assunto com certas pessoas com quem converso temas de uma aridez tão grande quanto o calor líquido de Manaus, que exigiu paradas técnicas para não desidratar os times dos Estados Unidos e de Portugal no domingo. Jogão, cheio de surpresas até os 48 minutos. O que foi aquilo? Os Estados Unidos quase viram cabeça de chave. Já sabem jogar futebol. Só precisarão agora aprender o nome do esporte. Vai ser fácil, basta lembrar a eles o sentido da palavra: "foot". Não é exatamente com os pés que se joga aquele esporte que eles chamam de futebol.

Fora do campo, há aflições menores do que se temia, mas que poderiam ter sido evitadas. Vi um fornecedor de uma grande empresa americana no Brasil tentando explicar que a internet não estava "funcionando". Foi necessário repetir várias vezes e depois se desculpar pelas falhas da tecnologia de informação do Brasil.

Voltando ao missivista inesperado, ele usou a lógica da profissão para mostrar números – ontem publicados nos jornais – da média maior de gols nesta fase do que em muitas das últimas copas, mas de vez em quando suas respostas não eram econômicas. "A explicação emocional para isso (o que está acontecendo na Copa) é que somos o país do futebol e que soprou um espírito de Mané Garrincha e de pelada no exato momento em que se pensava que o esporte tinha virado algo cerebral combinado com exemplar preparo físico e taticamente convergindo para um padrão global homogêneo".


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