À toa na tarde FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 02/10/11
Os sábados e os domingos são os seus piores dias, a não ser quando alguém o convida para um almoço ou uma visita a algum museu.
Ele mesmo não toma nunca a iniciativa. Se não o convidam, fica só e deprimido. De ficar só, já se havia habituado, mas deprimido não; é novidade de uns tempos para cá.
Chegou a consultar um médico que, depois de ouvi-lo o aconselhou a não tomar remédio nenhum, pois no seu caso de nada adiantaria e deixaria sequelas.
Assim que, quando se depara com um sábado vazio, entra em depressão e tudo o que pode fazer é sair andando pela rua, a passos lentos, sem rumo.
Desta vez escolheu o calçadão da Avenida Atlântica, já que não fazia frio e tarde estava iluminada. Foi até o escritório, pegou as chaves, calçou os sapatos e vestiu o casaco azul, leve, que costumava usar.
Ao vesti-lo, hesitou um instante, talvez fosse sentir calor. Ainda assim, friorento como era, vestiu o casaco, pôs o chaveiro no bolso e se encaminhou para a saída. Mas, como o telefone soou na sala, voltou para atendê-lo, já tomado pela esperança de que alguém ia convidá-lo para ir a um bar talvez. Era engano.
E já que pensava num passeio demorado que preenchesse boa parte daquela tarde vazia, decidiu ir ao banheiro fazer xixi. Urinou, lavou as mãos na pia e finalmente tomou o rumo da rua.
Apenas, antes de sair, certificou-se de que as chaves do apartamento estavam no bolso. Bateu a porta, tomou o elevador e finalmente chegou à rua. Tomou a direção da praia.
Mal atravessou a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, começou a soprar um vento que se foi intensificando à medida que andava. Ao descortinar a paisagem da praia, sentiu-se animado. E fez uma reflexão, especialmente ao reparar nas nuvens leves e brancas sobre o céu azul. "É tolice pensar que o mundo pode acabar de repente".
Nos últimos meses, sem qualquer explicação, teme que uma catástrofe cósmica ponha fim a tudo. Então, se perguntava, que sentido tem a vida Mas agora, sorria reconciliado com a existência ao perceber aquele céu azul e aquelas nuvens leves eram eternos.
Foi, portanto, sorrindo, que cruzou as pistas da Avenida Atlântica e chegou ao calçadão, por onde iam e vinham banhistas de calção e biquínis, turistas de bermudas e bonés, idosos e idosas fazendo cooper.
O mar estava agitado e o vento era agora quase uma ventania, que fazia farfalhar os coqueiros, ali, junto ao calçadão. Abotoou o casaco para se proteger da ventania.
Na areia, grupos de rapazes jogavam futebol. Eram times, com técnico, torcida e camisa própria. Deteve-se um instante para apreciar o jogo, que foi interrompido por uma discussão. Parecia questão de vida e morte. Como não tinha nada a ver com aquilo, seguiu em frente, sem pressa nem ansiedade.
Daí a pouco estava à altura da Rua Prado Júnior, onde morou uma amiga, que costumava receber os amigos para jantar e bater papo. Como essa lembrança o entristeceu, tratou de livrar-se dela e voltou-se para o mar, cujas ondas furiosas avançavam sobre a areia, lá longe, sem barulho.
Logo chegou ao final do Leme e sentou-se num dos bancos da praça e descansar, antes de tomar o caminho de volta. Ali ficou por algum tempo, vendo as crianças que brincavam e os carros que passavam. Via-os e não pensava em nada.
No mesmo passo lento, fez o caminho de volta. O porteiro abriu-lhe a porta do prédio e ele tomou o elevador, mas, ao chegar à porta do apartamento, procurou o molho de chaves e não o encontrou.
E agora, como vou entrar em casa? Lembrou-se que mantinha escondida uma chave junto à entrada de serviço mas lembrou-se que a tirara de lá.
Voltou à portaria, o porteiro o aconselhou a ir até a esquina chamar o cara que faz cópias de chaves e conserta fechaduras. Ele correu até lá mas, sábado, o homem não trabalha. Teria então que arrombar a porta do apartamento. Mas como?
Foi aí que se perguntou onde teria perdido as chaves. No caminho não foi. Só pode ter sido quando sentara no banco da praça, o bolso do casaco era raso. Mas andar de novo até lá, isso nunca.
E se eu for em meu carro? Foi. Estacionou, caminhou até o banco e as chaves estavam lá, no chão de areia. Juntou-as, só faltou beijá-las.
E passou o resto do sábado, feliz como se alguém o tivesse chamado para um almoço ou algum passeio.
Arquivo do blog
-
▼
2011
(2527)
-
▼
Outubro
(224)
- Agnelo na mira REVISTA ÉPOCA
- Escândalo latente REVISTA VEJA
- À moda stalinista ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
- Histórias e males da inflação – Parte 1 MAÍLSON DA...
- O Brasil vai ao Mundial desfalcado de Orlando Silv...
- Capitanias hereditárias no século 21 PAULO BROSSA...
- Esperando em vão PAULO GUEDES
- O primeiro grande erro de Dilma RENATO JANINE RIBE...
- E se a população mundial encolher? COLUM LYNCH
- Eles bebem. Você paga!
- Além da Indignação Carta ao leitor
- Não confesso que vivi LÚCIA GUIMARÃES
- Juventude sequestrada CARLOS ALBERTO DI FRANCO
- Lula, Dilma e o câncer JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
- Subsídio secular EDITORIAL FOLHA DE SP
- Deixem Aldo em paz RICARDO NOBLAT
- Do acaso à necessidade FERREIRA GULLAR
- Na crise, a indústria global se movimenta JOSÉ ROB...
- Travas à corrupção SUELY CALDAS
- Dexter entre a ciência e a religião MARCELO GLEISE...
- Somos 7 bilhões CELSO MING
- A baderna a serviço do crime EDITORIAL
- República destroçada MARCO ANTONIO VILLA
- Copa - dinheiro, soberania e catarse GAUDÊNCIO TOR...
- Longe do prazer PAULO SANT’ANA
- Indignados e desanimados VINICIUS TORRES FREIRE
- Consertar é possível DORA KRAMER
- Coisas que nos unem DANUZA LEÃO
- Defendendo a pátria JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Argentina grau abaixo MAC MARGOLIS
- A lição que Tancredo deixou ZUENIR VENTURA
- Ainda faltam oito ministros LEONARDO CAVALCANTI
- Ajuda chinesa será limitada GILLES LAPOUGE
- E se não vier a tempestade? CELSO MING
- Um país melhor FERNANDO RODRIGUES
- As políticas do BC e nossas convicções ALBERTO GOL...
- Liberdade de cátedra, herança e ambiguidades CLAUD...
- Orlando, ocupe Wall Street! GUILHERME FIUZA
- Do Enem à OAB WALTER CENEVIVA
- O erro de Haddad HÉLIO SCHWARTSMAN
- Reprovado EDITORIAL FOLHA DE SP
- Mais uma cerveja RICARDO NOBLAT
- Economia e moral DENIS LERRER ROSENFIELD
- Corrupção e conflitos no vácuo do Legislativo PAUL...
- Deu errado ALON FEURWERKER
- As apostas entre o BC e o mercado estão na mes Mar...
- A lei inédita de Lavoisier Roberto Luis Troster
- A liberdade de expressão Renato Janine Ribeiro
- Fechar a torneira José Roberto de Toledo
- Trancos e barrancos DORA KRAMER
- O PNBC do Terceiro Setor GAUDÊNCIO TORQUATO
- Os Kirchners, uma vez mais SERGIO FAUSTO
- Sob a proteção de Lula JOÃO BOSCO RABELLO
- Nadir, Euripedes e Yuri MARTHA MEDEIROS
- Internautas do mundo todo, uni-vos! FERREIRA GULLA...
- O Brasil deve aprender mais ciência MARCELO GLEISE...
- O poço que não tem fundo DANUZA LEÃO
- Nuvens no horizonte JOSÉ MILTON DALLARI
- As trapalhadas como IPI EDITORIAL O ESTADÃO
- De onde vêm as desigualdades SUELY CALDAS
- E falta o principal conserto CELSO MING
- Líbia não afeta petróleo ALBERTO TAMER
- PAUL KRUGMAN - O partido da poluição
- A anomalia das microssiglas FERNANDO RODRIGUES
- Além da faxina EDITORIAL DE SP
- Risco líbio REGINA ALVAREZ
- HÉLIO SCHWARTSMAN A maldição da abundância
- Fim de semana para ser lembrado LUIZ CARLOS MENDON...
- As provas pedidas EDITORIAL
- Vade retro, Luiz! JOÃO MELLÃO NETO
- Em jogo, o futuro do euro CELSO MING
- Partilha REGINA ALVAREZ
- Questão dos royalties virou escárnio EDITORIAL
- Conduta uniforme DORA KRAMER
- O fim da guerra ao verde NELSON MOTTA
- Combinação mortal HÉLIO SCHWARTSMAN
- O tempora o mores RICARDO NOBLAT
- Turquia versus Brics RUBENS RICUPERO
- Aposta perigosa do governo Dilma LUIZ CARLOS MENDO...
- A terceirização do governo JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO...
- Calamidade no DNIT ALAYR MALTA FALCÃO
- A maldição de Guadalajara VINICIUS MOTA
- Governo desmoraliza Camex e erra em comércio exter...
- Jornal, qualidade e rigor CARLOS ALBERTO DI FRANCO...
- Na base do puxadinho CARLOS ALBERTO SARDENBERG
- Martins, o barbeiro PAULO SANT’ANA
- O Ocidente entre a Grande Pedalada e a Grande Frea...
- Passeatas de feriado acabam em pizza GUILHERME FIU...
- Direito à vida Ives Gandra da Silva Martins
- Mais um corte nos juros CELSO MING
- Quais os limites da guerra cambial? ROBERTO GIANN...
- PIB recua, inflação sobe. E daí? ALBERTO TAMER
- República de surdos DORA KRAMER
- Comércio e finanças na economia internacional CELS...
- O Iraque como modelo para o Oriente Médio JACKSON ...
- Roubalheira recorde EDITORIAL
- Política sem sonhos FERREIRA GULLAR
- A travessia MERVAL PEREIRA
- O filme da sua mente MARCELO GLEISER
- Greves infames PAULO SANT’ANA
- Presidente: sonhar e não ceder MIGUEL SROUGI
- Procissão da alegria HÉLIO SCHWARTSMAN
- Do caderno de um repórter HUMBERTO WERNECK
- Novos horizontes ideológicos JOÃO UBALDO RIBEIRO
- A esquerda e a corrupção ALDO FORNAZIERI
- Sombras sobre a China GILLES LAPOUGE
- O G-20 avança pouco CELSO MING
- O sigilo garantido WALTER CENEVIVA
- Rio digital MERVAL PEREIRA
- O melhor humorista PAULO SANT’ANA
- Vida pedestre RUTH DE AQUINO
- Fraudes e gambiarras na saúde HÉLIO SCHWARTSMAN
- O troco em Dilma LEONARDO CAVALCANTI
- Crescer na crise REGINA ALVAREZ
- Simples assim... Josef Barat
- Reféns da China REGINA ALVAREZ
- Pedra no sapato DORA KRAMER
- Efeitos da corrupção MERVAL PEREIRA
- Nenhum país é uma ilha FERNANDO GABEIRA
- Paradoxos da corrupção HÉLIO SCHWARTSMAN
- Boca-livre high tech NELSON MOTTA
- Furor de substituição de importações ROGÉRIO FUR...
- VEJA
- Sigilo nos atos secretos EUGÊNIO BUCCI
- Dinheiro saindo pelo duto
- Fraude com chancela oficial
- Em quem confiar LYA LUFT
- Trégua na Europa CELSO MING
- Direito de greve HÉLIO SCHWARTSMAN
- Democracia digital Merval Pereira
- A quem de direito Dora Kramer
- Terrorismo e segurança nacional Rubens Barbosa
- Os rumos da terceirização José Pastore
- Entrevista: David Kirkpatrick Os limites do Faceb...
- O festival de besteiras não tem fim Denis Lerrer R...
- Diga lá, Kassab! RICARDO NOBLAT
- Política e costumes DENIS LERRER ROSENFIELD
- Casa sem poupança... RAUL VELLOSO
- Pouquíssima esperança de solução indolor MARCO ANT...
- O engodo da Selic AMIR KHAIR
- A pedagogia do Garfield
- O rombo da educação é o cabide de empregos de 46 b...
- JOÃO UBALDO RIBEIRO - Vida volátil
- Luz na História DORA KRAMER
- O declínio e a queda da decadência americana JOSEP...
- Meta de juros CELSO MING
- Passado e futuro MIRIAM LEITÃO
- O frágil equilíbrio de Dilma SUELY CALDAS
- E durma-se com um barulho desses FERREIRA GULLAR
- Só no dicionário DANUZA LEÃO
- O espírito do nosso tempo GAUDÊNCIO TORQUATO
- Plebiscito e representação MERVAL PEREIRA
- Celebrando a energia escura MARCELO GLEISER
- O que o Brasil tem a dizer? JOÃO AUGUSTO DE CASTR...
- Encruzilhadas, nossas e de outros PEDRO MALAN
- Como julgar os juízes? ROBERTO DAMATTA
- Andanças na Turquia Dilma vive dia de turista em I...
- Steve Jobs e o Brasil ROBERTO RODRIGUES
- Lados da moeda MIRIAM LEITÃO
- Brasileiro se vira MERVAL PEREIRA
- A força da inflação CELSO MING
- O despotismo da economia CACÁ DIEGUES
- Quando a objetividade evapora HÉLIO SCHWARTSMAN
- A recaída da política externa brasileira EDITORIAL...
- Brasil em momento importante LUIZ CARLOS MENDONÇA ...
- Botox na inflação EDITORIAL Estadão
- Uma questão de coerência JOÃO MELLÃO NETO
- Velhos e moços MERVAL PEREIRA
- Na estaca zero Dora Kramer
- Vamos pagar caro! David Zylbersztajn
- A mãe de todas as faxinas Nelson Motta
- O fim ou tudo de novo MIRIAM LEITÃO
- Poderes empacados MERVAL PEREIRA
- Sacrossanto ambiente Dora Kramer
- O vício pela virtude Carlos Alberto Sardenberg
- Estão bravos com o Brasil Alberto Tamer
- Um excelente remédio Januario Montone
- Mais 'parcerias republicanas' Roberto Macedo
- Dúvidas ANTONIO DELFIM NETTO
- Medo do pânico MIRIAM LEITÃO
- Clube da luta DORA KRAMER
- A lição inoportuna de Dilma EDITORIAL O Estado de ...
- Anjo da guarda ROBERTO DaMATTA
- Manufaturados e ovos ROLF KUNTZ
- Jogo de interesses Merval Pereira
- Dilma Rousseff, no comando do BC EDITORIAL O ESTAD...
- Dilma e o Rio MERVAL PEREIRA
- Círculo europeu MIRIAM LEITÃO
- Perdas e ganhos Dora Kramer
- Falta sentido de urgência Celso Ming
- Uma petição nacionalista Rodrigo Constantino
- Reunião do FMI em tempos de crise Ilan Goldfajn
- O mistério da multiplicação dos pescadores Gil Cas...
- Os milhões (ou bilhões?) de Orestes Quércia FELIPE...
- Carta ao leitor Um debate necessário
- A França condecora um Lula imaginário GUILHERME FI...
- O monstro está na engorda - VEJA
- Duplo ataque ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
- Esquizofrenia na política econômica CARLOS ALBERT...
- Política fiscal à deriva Everardo Maciel
- Oposição por dentro José Roberto de Toledo
- Solavancos no câmbio Celso Ming
- Hoje ainda é dia de rock! AGAMENON
- Dinheiro mal gerido EDITORIAL O ESTADÃO
- A nova política econômica MAÍLSON DA NÓBREGA
- Juízes acima da lei EDITORIAL FOLHA DE SP
- À toa na tarde FERREIRA GULLAR
- Só há notícia ruim lá fora ALBERTO TAMER
- Linha dura no PSDB MERVAL PEREIRA
- O totalitarismo científico JOÃO UBALDO RIBEIRO
- A verdade de cada um DANUZA LEÃO
- O Brasil visto como não gosta CLÓVIS ROSSI
- A volta da aliança inflacionária JOSÉ ROBERTO MEND...
- Tudo dominado MIRIAM LEITÃO
- Riscos de uma atitude ousada Affonso Celso Pastore...
- Estratégia duvidosa Celso Ming
- Em outras palavras - Dora Kramer
- Clientelismo corporativo - Suely Caldas
- O dedo de Deus Gaudêncio Torquato
- Incertezas - Fernando Henrique Cardoso
- O STF e a sociedade MERVAL PEREIRA
- Nova política velha MIRIAM LEITÃO
- A reboque dos fatos CELSO MING
- A lingerie de Gisele - RUTH DE AQUINO