O Estado de S.Paulo - 02/10/11
A economia mundial voltou a dar novos sinais de desaceleração esta semana e o Brasil navega em águas turvas. Só notícias negativas nos últimos dias e tudo indica que mais está por vir. Nem a aprovação do novo fundo europeu de socorro à Grécia animou. Ainda tem a Itália, a Espanha que vão exigir muito mais do que os 440 bilhões que virão agora.
As bolsas tiveram forte queda na sexta-feira e fecharam o trimestre com o pior resultado desde a crise financeira de 2008. Uma queda de 17%. Foi uma semana "miserável", diz o Financial Times depois de ouvir os operadores que não acreditam em melhora nas próximas semanas.
EUA, crise nacional. Nos Estados Unidos, Ben Bernanke elevou o tom. "O desemprego é uma crise nacional." O governo e o Congresso precisam agir. Repetiu com mais ênfase que o Fed está pronto para agir, indicando que uma nova injeção de dólares no sistema pode vir mais rápido do que se espera, talvez até mesmo antes da próxima reunião do Comitê de Mercado Aberto. A revisão do crescimento do PIB americano no trimestre para 1,3% feita esta semana pelo Departamento do Comércio também não animou. Projeta um crescimento de apenas 1,6% até o fim do ano. É pouco, não reduz muito o desemprego de quase 10%, com cerca de 45% da população ativa à espera de trabalho há mais de seis meses, diz o presidente do Fed. "Isso nunca aconteceu antes no país", afirmou Bernanke, insistindo para uma ação urgente do governo e da Casa Branca. Ele está consciente das limitações dos bancos centrais na Europa e nos EUA para reanimar a economia. Com a única exceção da zona do euro, eles já reduziram os juros a quase zero, negativos se descontada a inflação, o que decididamente impediu o pior, a recessão, mas não convenceu as pessoas a voltarem a consumir. Isso não ocorre no Brasil onde há um mercado interno ainda vigoroso e grande margem para reduzir os juros.
Brasil navega. A desaceleração da economia mundial, já prevista pela equipe econômica, tem um duplo desdobramento no Brasil. Foi tema da última coluna que comentou o depoimento do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, no Congresso. O relatório do BC sobre a inflação, divulgado na quinta-feira, está confirmando a previsão de um quadro externo recessivo, mas existe na economia brasileira o que falta lá fora: possibilidade de maior redução da taxa de juros e estímulo a um mercado interno ainda vigoroso que vem sustentando o crescimento em meio às crises. É sempre oportuno lembrar que, enquanto os outros países afundavam por mais de um ano na recessão, o Brasil foi o último a entrar e o primeiro a sair. Com marolas ou sem marolas. O BC e o governo estão aplicando medidas para conter a crise financeira externa e manter o crescimento com inflação dentro da meta. Para o Banco Central e o Ministério da Fazenda, o mais importante não é a inflação atual, ainda dentro da meta ou um pouco acima dela, mas a tendência, que não é de forte alta. Se o índice passar da meta de 6,5% este ano, se aumentar 0,5%, não será nenhuma tragédia desde que não sinalize uma firme tendência de alta. E os dados do IBGE dizem que isso não existe no momento. Há sem dúvida o duplo efeito negativo do dólar valorizado sobre os preços dos produtos importados mas a cotação das commodities já registraram a maior queda desde a crise financeira internacional.
Os canais de contaminação. O relatório do BC mostra que o cenário externo negativo favorece na luta contra a inflação, na medida em que reduz as pressões inflacionárias que poderiam surgir via demanda e alta dos preços das commodities, mas afeta o crescimento que já vinha recuando. Pode mudar em 2012? A coluna acompanhou atentamente as avaliações feitas pelos economistas e analistas nos EUA e na Europa. Ninguém acredita que o quadro se altere pelo menos nos próximos dois trimestres. Todos os indicadores futuros são negativos. Reduziram os riscos mais sérios de recessão - não se fala mais em 50% -, mas há pouca chance de a economia mundial manter os 4% previsto pelo FMI. "Há uma crise geral de confiança e na melhor hipótese, o PIB vai crescer menos do que se previa", afirma o analista de mercado Adam Krajajcik, ao Wall Street Jornal, refletindo o clima do mercado. "Por que tudo isso?, pergunta outro analista, Joseph Mazzarela. " Porque 2008 ainda está na memória do povo e dos investidores, nada mudou nas últimas semanas. Ao contrário, se agravou."
Outro fato preocupante, que pesou na queda das bolsas nesta semana, foi a China ter dado sinais mais fortes de desaceleração. Confirmou que a produção industrial recuou novamente, pelo terceiro mês consecutivo. É consequência da retração do mercado mundial e das medias do governo que acabou com os incentivos, reduziu a liquidez e aumentou os juros por causa da inflação de 6,5%. Não se conte mais, portanto, com China para sustentar a economia mundial, como nos últimos anos. Só que não se pode contar também com os Estados Unidos e a União Europeia, e muito menos o Japão.
Vamos até bem. No Brasil, a equipe econômica acertou ao prever um cenário mundial recessivo, de menor demanda externa, e ao adotar medidas para fortalecer o mercado interno. Decidiu também não proteger, mas defender esse mercado que representa hoje pouco mais de 60% do PIB nacional. Pode-se acusar o governo de protecionismo quando o governo dá prioridade às compras de empresas instaladas no País e exige um grau de nacionalização nas novas indústrias estrangeiras que estão vindo para o Brasil em busca de um mercado que ainda cresce em torno de 10% ao ano. Mas não é exatamente isso que estão fazendo la fora?!
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