Longe do prazer PAULO SANT’ANA
ZERO HORA - 30/10/11
Dizem que o prazer anda à minha procura. Deixa recados no meu lugar de trabalho, tenta marcar encontros comigo. O prazer tem sido evitado com insistência por mim.
Esses dias, me avisaram que o prazer estava à minha espreita à saída do meu condomínio. Quando soube, dei um jeito de sair por uma porta de serviço da lateral do prédio.
Outro dia, numa festa concorrida, com muita gente em dois grandes salões, alguém veio me avisar que o prazer se encontrava no lugar e já dissera a várias pessoas que estava à minha procura. Deixei a festa às pressas e fui refugiar-me no meu carro, depois na minha cama.
Mas o prazer não desiste, ele quer se encontrar comigo. Tem consciência de que sua ficha de barganha é tentadora, algum dia eu cederei e ele me abrigará em seus braços.
O prazer não sabe que a tristeza é a minha única saúde e que a alegria que ele me oferece soa-me como uma doença.
Vivo aterrorizado pela possibilidade de defrontar-me com o prazer. Há muito tempo, despedi-me dele e a depressão durante este hiato tomou conta de mim.
Não quero mais saber dele, tenho a nítida consciência de que não preciso dele, de que ele nunca mais voltará a se incorporar ao meu metabolismo cotidiano.
Quero cumprir silenciosamente a praga da tristeza que se derrubou sobre mim, nunca mais gostarei de me livrar desse pesar pesado que já me acompanha há vários anos.
Não entendo por que o prazer me persegue. Por que não vai procurar os homens talhados para serem álacres?
Será que o prazer já se fartou dos felizes e quer agora conceder-me o privilégio de integrar o meio dos realizados, dos folgazões, dos exitosos?
Será que o prazer não percebeu que eu não tenho mais jeito para participar do seu convívio?
Será que o prazer não percebeu ainda que não creio em mais nada, pois nada há que traga consolo à mágoa a que só a mim assiste?
O prazer tem de respeitar a minha resistência até mesmo porque me faz um certo bem que se me aumente e se me afunde a mágoa. Se o prazer interviesse nessa minha relação com minha mágoa, de um certo modo estragaria tudo.
Já me defini. Quero levar para o túmulo esta tristeza. Quero que, mesmo que eu me transforme em verme, me acompanhe esta tristeza infinda, que ela nunca cesse, que seja minha até depois da minha morte, minha, exclusivamente e infindavelmente minha.
Se o prazer bater à minha porta qualquer dia, diga a este incômodo intruso que não estou em casa.
Sinto até mesmo uma certa paz nesta fuga metódica que intento contra o prazer.
Sei para onde o prazer quer me levar: ao encontro de mulheres, bebidas, pecúnia, aplausos fúteis. Não quero e nem preciso mais dessas falácias inúteis.
O meu supremo ideal, é só assim que me entendo, é viver condenado a não ter nenhum prazer.
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