O Estado de S.Paulo - 30/10/11
Cosmopolita, culta, com solos abençoados e líderes políticos dos mais adulados, a Argentina é um dos milagres da história contemporânea da América Latina. Admirável pelas suas conquistas, inexplicável pelos seus tropeços, é o país onde os malogros podem parecer sucessos e nenhum ativo é tão precioso que não possa ser desperdiçado.
Capital humano, não falta. Entre as 50 melhores universidades da América Latina, 11 são da Argentina, segundo o ranking Top Universities, da Universidade de Groningen, na Holanda. E nenhum outro país na região ostenta tantos prêmios Nobel (são cinco).
O desempenho econômico é impressionante. Alçado pela produção ultra competitiva de grãos soja, trigo e carne, o PIB expandiu à "taxa chinesa" de 9,4% em 2010 e, mesmo com a economia mundial em apuros, deve cravar não menos que 6% em 2011. O desemprego está em queda e a renda per capita dobrou desde 2002.
Se existe algum candidato à classificação de grau de investimento, aquela barreira mágica que separa as nações alfa do restante, seria a Argentina. Mas não é. A dívida soberana argentina recentemente mereceu a nota sofrível de B3 da agência de Moodys - no patamar de "lixo"(junk) no léxico dos corretores internacionais. Pode-se discutir a credibilidade e os critérios escolhidos pelas agências de risco. Bem ou mal, é esse aval que pode decidir a fortuna de um país, abrindo ou não as torneiras do crediário internacional, e determinar quanto pesa o dinheiro alheio.
O fato é: outros países com bem menos estofo que Argentina já conseguiram muito mais da comunidade internacional. A oeste está o Chile, que há muitos anos conquistou a confiança dos investidores graças a um consenso sobre políticas fiscais que une da direita à centro-esquerda. Ao norte, o Brasil, que com Argentina sofreu todas as crises históricas das últimas décadas e agora desponta como o Brics latino, o emergente titular do hemisfério.
Com eles estão Peru e Colômbia, países que sofreram com décadas de conflito civil, narcotráfico e (no caso de Peru) populismo galopante. Renasceram com políticas de segurança firme, parcimônia e marcos regulatórios estáveis para negócios.
E agora é a vez de Uruguai. Desdenhado pelos vizinhos quase como uma província argentina, Montevidéu hoje é um imã de investimento externo - destaque para a fábrica de papel e celulose Montes de Plata, de US$ 2 bilhões - e recentemente ultrapassou os argentinos em produção de carne. Após uma penosa reestruturação da economia, com cortes profundos na balofa máquina pública, acaba de reconquistar o "diploma" de grau de investimento que perdera em 2002, no rescaldo do calote da dívida externa argentina.
Modelo heterodoxo. Cercada de países menos afortunados, que com bom senso pisam em terreno cada vez mais firme, a política argentina segue um pântano de dúvidas. Surfando na onda poderosa de grãos e commodities, e com capacidade ociosa nas fábricas, a Argentina conseguiu crescer e criar empregos ao longo da década sem contar com dinheiro estrangeiro nem investimentos expressivos na expansão das indústrias.
Com a sobra, a presidente Cristina Kirchner ainda bancou programas sociais e subsídios fartos aos consumidores, que lotaram os supermercados, e distribuiu carne aos pobres. Inflação? Há sim, mas nada que um bom expurgo dos dados oficiais não possa maquiar.
Há quem celebre esses feitos como a vitória do modelo "heterodoxo" argentino, prova cabal de que se pode enfiar o dedão no olho dos bancos internacionais e gastar às turras sem sofrer maiores consequências. Distribuir a bonança é belo. Administrar a adversidade é outra história. Com nuvens se formando na economia mundial, a prova da heterodoxia argentina ainda está por vir. Como se diz "Ojo (atenção), Cristina!" em grego?
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