Passeatas de feriado acabam em pizza GUILHERME FIUZA
REVISTA ÉPOCA
O Movimento Brasil Contra a Corrupção saiu de novo às ruas. Depois das manifestações do 7 de setembro, foi a vez do 12 de outubro. De feriado em feriado, os novos ativistas da ética vão fazendo seu chamado pelas redes sociais, varrendo o país com uma nova onda: a rebeldia inofensiva. Em Brasília, os manifestantes levaram uma pizza cenográfica ao Congresso Nacional - simbolizando, segundo um dos organizadores do protesto, "as CPIs que não dão em nada". Os parlamentares poderiam ter devolvido a pizza aos manifestantes, simbolizando "os protestos que não dão em nada".
Poderiam, mas não se deram ao trabalho, até porque era feriado. Mais confortável assistir pela televisão a esse carnaval fora de época. Para os deputados do Conselho de Ética, por exemplo, que inocentaram Valdemar Costa Neto (PR-SP) do escândalo do Dnit e foram esquecidos pelos justiceiros, esses desfiles são diversão garantida. Não pode haver nada mais relaxante do que barrar as investigações do maior caso de corrupção do ano e depois assistir, numa boa, a um protesto genérico "contra os corruptos" (talvez os de Marte).
A esta altura, um dos maiores simpatizantes do Movimento Brasil Contra a Corrupção deve ser o presidente do Senado, JOSÉ SARNEY. Numa entrevista antológica ao jornal Zero Hora, Sarney explicou que seu passeio à Ilha de Curupu num helicóptero do Estado foi uma homenagem à democracia. Eis sua lógica:
- Quando a legislação diz que o presidente do Congresso tem direito a transporte de representação, estamos homenageando a democracia, cumprindo a liturgia das instituições. Por conta das prerrogativas do cargo, tenho direito a transporte de representação. Andei em um helicóptero do governo do Estado, não era particular.
É mesmo uma bela homenagem à democracia. Para presidir o Congresso (em Brasília), o senador precisa que um helicóptero da Polícia Militar (do Maranhão) o leve a sua casa de veraneio, que ninguém é de ferro. Certamente, a doce brisa de Curupu tem sua função no bom funcionamento do legislativo brasileiro. Sombra e água fresca são essenciais na liturgia das instituições. É bem verdade que um pedreiro ferido teve de esperar terminar o passeio de Sarney para ser socorrido pelo helicóptero da PM. Mas os pedreiros precisam aprender que não podem interromper uma homenagem à democracia.
A única imprecisão na explicação do senador está na ressalva de que a aeronave "não era particular". Pura modéstia. Sarney e o Estado brasileiro vivem em comunhão de bens, como todos viram no caso Agaciel Maia. O dublê de diretor do Senado e despachante do presidente zelava pelos interesses da família Sarney e de seus amigos na máquina do Legislativo. Tudo era feito por meio de atos secretos - ou seja, as vantagens e nomeações públicas eram tão particulares quanto o helicóptero do Estado.
Aí o esquema de Agaciel vazou e o Brasil se meteu no que não era de sua conta, invadindo a privacidade dos Sarneys em seu puxadinho estatal. Mas a Justiça, em mais uma homenagem particular à democracia, proibiu o jornal O Estado de S. Paulo de publicar sua série de reportagens sobre o caso. Naturalmente, nenhuma frente carnavalesca contra a corrupção foi às ruas para derrubar a censura. No palco do Rock in Rio, o cantor Dinho Ouro Preto, da banda Capital Inicial, reagiu dedicando a Sarney a música "Que país é esse?".
No final, ficou tudo bem. O Superior Tribunal de Justiça declarou nulas todas as provas contra Fernando Sarney (o filho e operador), e JOSÉ SARNEY respondeu placidamente ao cantor no Zero Hora: disse que Dinho foi injusto, porque seu governo (1985-1989) contribuiu para "a maior liberdade de expressão que já tivemos no país".
Com tantas homenagens à liberdade e à democracia, Sarney não consegue bons sócios apenas nos poderes Legislativo e Judiciário. Assim como o deputado Valdemar Costa Neto, é acionista majoritário do governo Dilma. Está entre os pilares do projeto de divisão do Estado brasileiro em "modernas" capitanias hereditárias, onde os companheiros donatários são cada vez mais criativos na arte de ordenhar os cofres públicos.
Sarney só tem um defeito: é invisível ao movimento das vassouras e pizzas cenográficas.
As redes sociais também devem estar respeitando a liturgia das instituições.
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